quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Reestruturação organizacional: quando menos subordinados podem significar mais valor

Ontem tivemos uma noticia bem interessante vindo do Governo de Minas: um pacote de austeridade fiscal com diversas frentes que buscam a tônica de reduzir despesas de custeio e aumentar a proporção do investimento. Uma iniciativa louvável em diversos aspectos, e que merece ser acompanhada em dois focos: 1) o indicador de investimento em relação à despesa total, uma vez que isso foi apontado como resultado desejado; 2) impacto em políticas públicas e demais resultados setoriais.

Primeiramente, quanto ao resultado apontado como desejado, e que concordo com sua relevância, na medida em que existem muitas demandas por infraestrutura e um papel claro do setor público é o de realizar tais investimentos, que ancoram o desenvolvimento das demais relações sociais (seja via atração de empresas que vem aeroportos, rodovias, etc, seja via melhor qualidade de estrutura para prestação de serviços para população com hospitais, escolas, etc).

Tal resultado já é apontado no Caderno de Indicadores, documento que traz com transparência os resultados do governo estadual, e mostra um cenário de queda, conforme gráfico 1 abaixo. Tal queda está em muito relacionada com o cenário macroeconômico, uma vez que com perda relativa[1] de arrecadação, e um custeio mais difícil de ser reduzido, há uma redução em momentos de fraco desempenho econômico de investimentos. Mas também, conforme objeto do pacote apresentado ontem, existe um custeio que está ‘sobrando’, um custeio que pode ser reduzido e enfrentado no sentido de fazer uma gestão mais eficiente, de modo a ter mais recursos para investimento, e virar tal tendência de queda.

GRÁFICO 1 - PARTICIPAÇÃO DOS INVESTIMENTOS NA RECEITA TOTAL – MINAS GERAIS 2003-2012




















Fonte: SEPLAG/MG (extraído do Caderno de Indicadores 2013)

Portanto, um duplo reconhecimento para o Governo do Estado: 1) pela transparência de  apresentar tal indicador[2] e; 2) por enfrentar o problema de modo aberto com a sociedade. Há de se reconhecer que ter tal transparência e enfrentamento é algo que outras esferas de governo poderiam fazer e temos de reconhecer atitudes positivas, mesmo diante das reflexões críticas que se seguem e que se aplicam a qualquer governo (incluindo aqueles que não estão enfrentando tal problema).

Observando a questão do ‘impacto em políticas públicas e demais resultados setoriais’, temos a seguinte pergunta: o quanto esse pacote de austeridade fiscal vai comprometer os demais resultados[3] entregues pelo governo? Aqui ainda é cedo para qualquer análise, e ao que parece, pela menção sempre diferenciada dos setores de educação, saúde e segurança, não se quer impactar em nenhum desses setores, que poderíamos dizer basilares da ação pública. Quanto aos demais setores, imagino eu, que a intenção é a mesma, criar um espírito de corpo de maior eficiência, e fazer mais (ou no mínimo, o mesmo) com menos.

Diante desse quadro de novidade posto ontem, queria levantar uma reflexão que se aplica a qualquer organização: o dilema de sua estruturação (ou reestruturação). Como definir as caixinhas? Tal decisão, longe de ser uma resposta simples, depende das funções, responsabilidades, competências, resultados esperados e formato da gestão de cada organização, bem como depende da cultura institucional. Quantos subordinados hierárquicos um executivo tem? Essa é a pergunta que precisa ser respondida tendo em vista o ambiente de cada organização.

Algo que sempre me chamou atenção, na minha experiência no governo, diz respeito a situações na qual um subordinado é apenas um entrave na cadeia, pois ao ser questionado, sua ação imediata é repassar o questionamento para seu subordinado. E isso em alguns casos se repetia mais de uma vez na cadeia hierárquica, fazendo com que não só a informação fique deturpada (pois o gerente de fato, repassa para o hierárquico superior, que repassa ao seu hierárquico superior, que repassa ao hierárquico superior, que foi quem demandou a informação), como isso represente um custo alto, pois tem gente demais para gerente de menos[4]. É o velho ditado popular ‘muito cacique pra pouco índio’.

Hierarquia é preciso? Sem dúvida. Uma estrutura bem compartimentada no sentido das diferentes funções, processos e atribuições tem seu valor e produz eficiência se bem dimensionada. Para ficar no exemplo do setor público: separar a secretaria de educação da secretaria de fazenda tem seu valor, pois são dois focos de negócio diferentes dentro da mesma organização, o mesmo vale internamente, no sentido de ter uma equipe focada em ensino médio e outra focada em ensino fundamental, cada qual com suas especificidades e rotinas que precisam ser executadas. Hierarquia é bom para haver filtro entre os níveis estratégico e tático, de modo que permita que o operacional flua bem.

Importante salientar que a tendência de maior troca,  estruturas mais flexíveis e que façam mais trocas de conhecimento é desejável e de modo algum incompatível com o modelo de organograma funcional. O desafio para isso é criar uma cultura que gere espírito colaborativo, que seja suscetível a inovações, etc. No meu entender, quando o resultado é o que importa (e a governança e os incentivos da instituição apontam para isso), o organograma deixa de ser barreira, e diferentes departamentos ou gerências passam a buscar o mesmo resultado, que irá requerer o devido tom de comando/controle com nível operacional (que sem hierarquia, cada hora atende uma demanda e não sai do lugar)[5].

Deste modo, mais ou menos subordinados é uma decisão que implica em custo (qualquer estrutura tem suas despesas, ainda mais se houver regalias, do tipo carro, secretária, etc), e que deve existir na medida certa do resultado que se quer. Ou seja, não é apenas menos estrutura que é o ideal, muita das vezes é necessário gerar algum emponderamento (interno e externo), criar um status diferenciado para criar o devido senso de relevância, alinhar estrutura à estratégia, etc. Se no setor privado essa conta é feita com esmero (dói no bolso do acionista), no setor público há muita conta que deve ser feita.

Voltando ao fato do Governo de Minas de ontem, algo interessante nesse pacote de austeridade é entender que existe um cenário de se fazer mais (ou o mesmo) com menos. É pensar em um cenário onde se terá mais índio para menos cacique, que vai haver uma estrutura mais apta para fazer resultados do que para preencher cargos disponíveis em estruturas existentes. Acabar com a ADEMG, por exemplo, achei que esse dia não chegaria tão cedo[6]. Parabéns! Reduzir número de secretarias, ótimo passo! Pena que não foi antes, pena que poderá ser só em 2014[7]. De qualquer modo, Minas se apresentou para enfrentar tal questão, é um passo importante[8].

A democracia custa caro, ainda mais caro quando a coalizão exige cargos e não somente cobra resultados para uma sociedade melhor. Maturidade institucional demanda tempo e vigilância crítica.




[1] Como o próprio governo disse, não há redução nominal, e sim, uma perda relativa, tendo em vista o cenário projetado.
[2] Mais uma vez aqui a importância da iniciativa do Caderno de Indicadores.
[3] Uma vez quanto ao resultado de mais investimento, se espera uma melhoria do indicador.
[4] E caso você tente ir direto à fonte (subordinado que interessa), instaura-se uma crise de vaidade.  Vaidade, o pecado preferido do Diabo (referência ao papel de Al Patino em Advogado do Diabo).
[5] Importante salientar que quanto maior e mais rotineiro, mais o nível operacional precisa desse comando/controle. Ou seja, uma coisa é uma indústria de qualquer bem com uma linha de produção, outra é uma equipe de consultoria. Apesar de em ambas o nível operacional precisar de ter algum grau de autonomia, na linha de montagem o comando/controle é muito mais necessário do que na consultoria.
[7] Por acaso ano que os políticos saem do executivo para se candidatar. Qualquer coincidência mera inteligência política.
[8] Como é um Projeto de Lei, ainda terá ampla discussão na Assembleia Legislativa, na qual espero que pese menos a tradição e seja mais focado nos resultados.

2 comentários:

  1. Oi Eder, essa questão da estrutura é um estudo importante, interessante e que não é simples de fazer. Uma das dificuldades que tenho encontrado é justamente saber qual é a melhor relação cacique x índios. Um bom embasamento para chegar nessa conta é identificar o volume de trabalho dos servidores por meio de indicadores, em que se possa medir quantas pessoas são necessárias para suprir a demanda de trabalho da área. E isso envolve outras dificuldades quando não se tem uma estrutura organizacional bem organizada e claramente definida. Tem muito campo para melhoria! O que é muito bom é que esses passos estão sendo dados.

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    1. Adriana, sem dúvida é um bom desafio gerencial. Duas coisas que na minha opiniao e vivencia são relevantes sempre ter em mente: 1) o que gera alinhamento e mobilização é o resultado, e nesse sentido saber quais as entregas (os indicadores) de cada equipe de trabalho e/ou pessoa é fundamental; mas 2) o velho ditado de 'ser/manter simples', ou seja, o risco de criar um sistema muito complexo é tentador e na maior parte das vezes não vale a pena. Assim, encarar o problema e ter esse senso crítico é fundamental para o dia-a-dia do gestor.

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