Recentemente tomei uma decisão de
vida e resolvi mudar minha carreira, assumindo um desafio em uma empresa,
startup de market place do
Agronegócio. O que agrego: gestão! Organização, processo,
estratégia, disciplina, enfim, todo o desafio de implementar uma ideia
disruptiva e de canalizar energia para fazer o negócio se viabilizar.
Minhas últimas semanas têm sido intensas, jornadas de 60 a 80 horas semanais,
de pura planejação como Sr. Vianna me ensinou. Pensar grande, sempre, mas focar nos entregáveis de curto prazo.
Atender expectativas e gerar pequenas vitórias para criar cultura de confiança
e dar ritmo e maturidade à empresa e seu ativo principal: as pessoas.
Mas o que move as pessoas? Sem dúvida
ter emprego em tempos atuais é algo valioso, mas isso não move, obriga. Como
gerar a energia necessária para querer entregar mais, para ir além do trivial?
Certamente o exemplo e o discurso coerente. Com certeza a cultura de
resultados, mostrando o caminho, onde se quer chegar, qual o papel de cada um,
e o desdobramento dessas entregas no tempo e por equipe. Mas falta algo mais?
Falta para mim... por maior desafio que seja, falta algo que me faça acordar às
5h30, ter força de vontade de correr 30 minutos para gerir a ansiedade e ser
mais temperado no trato com a equipe, trabalhar 15h.... preciso entender que minha ação, transforma o mundo!
Um bom hábito (ou talvez um bom vício)
que tenho são os livros. Mal comecei o desafio, já li mais de 3 livros sobre
startup[1],
marketing digital, market place,
etc... várias lições e enredo valiosos... mas nada de citar a importância do
propósito.... Vender uma empresa por
bilhões, por melhor que seja, não me garante a energia para fazer isso durante
anos... E não se iluda, o caminho de criar uma empresa de valor exige muito esforço.
E nesse quesito de ter energia para o
esforço, a paixão ou o tal propósito é um motivador muito maior que a
perspectiva financeira.
Nas conversas que tive, um termo
era constantemente usado: eficiente. Conectar quem compra e quem vende
de modo eficiente. Fazer transações eletrônicas que sejam eficientes
para o cliente, tornar o mercado eficiente ao disponibilizar uma plataforma
online para transações que são feitas hoje sem tal ferramenta. Em algum ponto
dessas conversas me deparei com o
propósito: a eficiência de mercado! Não a ideia rasa de ganhar velocidade,
ou ter um custo menor (que são itens importantes, mas são pontuais). Mas a ideia de gerar eficiência para a economia!
De gerar bem-estar para a sociedade! Meu eu economista lembrou das aulas de
microeconomia em sua versão mais básica e o propósito se fez presente!
A teoria econômica constrói boa
parte de sua argumentação na observação da curva de demanda, derivada da
disposição a pagar dos indivíduos/consumidores, e da curva de oferta,
construída a partir da fronteira de produção existente e os custos de produção
envolvidos. Dessa junção a famosa imagem de mercado surge, em que o ponto de
encontro de oferta (custo marginal de produção) e demanda (disposição a pagar)
definem o preço e a quantidade de equilíbrio do mercado para os bens e serviços
da economia. Teoria pura e dura, em seu formato elementar. Nossas vidas na
maneira mais diretamente observável (o que consumimos e quanto pagamos por cada
produto).
O que é o bem-estar na teoria? É
a soma do excedente do consumidor – diferença entre o preço pago e a disposição
a pagar, com o excedente do produtor – diferença entre o preço recebido e o
custo marginal de produção. Um mercado em concorrência perfeita, e eficiente,
levaria o ponto de equilíbrio do preço e da quantidade ao máximo desse
bem-estar! Um ponto em que teríamos mais bens e serviços disponíveis, a preços
menores e em que consumidores e produtores se beneficiariam com esses níveis
praticados!
Mas sala de aula é diferente do
mundo real sempre diziam os céticos (e que na prática se escondem na crítica a
preguiça de fazer a abstração pragmática)! A teoria sempre será uma
simplificação da realidade, mas nem por isso, diferente! Voltando ao meu propósito: o market
place, ao cumprir seu objetivo de conectar quem compra e quem vende,
entrega eficiência de mercado! Aumenta o bem-estar da Sociedade! Cria uma
missão social!
Ao pensar no mundo em 1900 (e
consigo abstrair por mais que na época eu não existia nem em pensamentos),
tenho certeza que o nível de bem-estar gerado pelo mercado era muito menor do
que a realidade atual (o mercado estava equilibrado, mas com muito mais
imperfeições ou ineficiências). Um mundo que uma viagem de SP a BH demorava
dias, e não se tinha meios de comunicação de velocidade, certamente não
conseguia criar conexão entre quem oferta e quem demanda de modo a maximizar o
volume de produção que atenderia a real demanda social. Pessoas que tinham
desejo de comprar não encontravam produtos disponíveis com facilidade, e ofertantes
que poderiam produzir mais a preços menores, não o faziam pois não
identificavam os mercados (não acessavam tais mercados!). O mundo era mais segmentado.
O exemplo extremo apenas ajuda a
ilustrar o propósito atual. Mesmo hoje, existe muito a ser conectado. Temos
compradores e vendedores que não conseguem se identificar, e essa ausência de
visão conectada com velocidade para definir quantidades e preços de comércio
afetam as decisões de produção, e logo, de consumo (pois essa decisão em última
análise, deriva de querer ou não ao preço que lhe é ofertado!). Um mercado que consegue estar conectado em
poucos cliques via internet é muito mais eficiente do que aquele que depende de
interações bilaterais! Um mercado mais conectado consegue gerar maior valor
para quem produz e quem consome! Todos ganham!
FIGURA 1 – Ilustração gráfica
hipotética de um arranjo de mercado eficiente, e seu contraexemplo de
ineficiência por não conseguir criar ponto de equilíbrio por decorrência de uma
falta de conexão entre demanda e oferta na definição de preço. Ao não ver toda
a demanda as escolhas de produção ficam aquém e impactam na decisão da
quantidade consumida pela Sociedade.
Eu não acordo motivado para
ganhar mais dinheiro! Se meu objetivo é ganhar dinheiro é provável que me force
a acordar e cumprir meu dever (só de pensar assim, tenho preguiça de acordar!).
Por outro lado, se posso construir uma
empresa que torna a vida das pessoas melhores, de milhares de pessoas, que irão
consumir mais e com preço menor, tenho até dificuldade de dormir! A urgência
ganha sentido! É possível mudar o mundo!
Sejamos eficientes! Busquemos
nosso propósito! Saibamos sempre usar a abstração da sala de aula a favor da
humanidade!
P.s: (1) tenho o privilégio de
chamar de Amigo o Professor que me ensinou microeconomia. Corri logo a ligar
para ele e ver se tudo isso que pensei (e escrevi) fazia sentido. Um eterno
obrigado aos nossos educadores: que sem dúvida tem um belo propósito e contribuição
social!
(2) Corri para ligar, mas longe de
ser uma conversa rápida, tivemos um ótimo debate técnico e de rigor na forma de
apresentar o argumento, sendo assim, algumas notas derivadas:
(i) mercado
competitivo tem 4 características: grande número de compradores e vendedores; entrada
e saída livre de fatores de produção; informação perfeita; e homogeneidade do
produto;
(ii) na
medida que essas características não estão 100% presentes, os mercados operam
em uma concorrência imperfeita. Quanto mais se aproxima dessas características,
mais se aproxima da concorrência perfeita, e logo, menor o preço e maior a
quantidade transacionada (o tal exemplo teórico da figura 1 que construí acima);
(iii) o e-market
place e toda a forma de conectar o mercado atua no sentido de aumentar o número
de compradores e/ou vendedores (ampliação de mercados), reduzindo a segmentação
existente (permitindo o acesso a mercados por players que antes não o
acessavam). Isso torna o Brasil por exemplo, um mercado nacional, em que
podemos ter de modo veloz e com baixo custo, uma interação de todos os players
nacionais sobre determinado produto. Permiti conectar compradores e vendedores
de diferentes regiões com um custo baixo (ou nulo na ótica da revolução que a
internet causou) o que melhora não somente a informação, mas consequentemente a
eficiência do mercado, que em última análise melhora o bem-estar geral da
sociedade (de quem produz e quem consome);
(iii) usei
exemplo da Amazon para pontuar como um e-market place de comercialização
permite reduzir preços, uma vez que reduz custos, das lojas físicas por
exemplo, e diante dos custos menores, em última análise insumos mais baratos na
“curva de produção”, tem-se maior oferta e logo redução do preço de equilíbrio.
O modelo de negócios disruptivo muda a
forma de se organizar o mercado, no caso da Amazon, a quebra de paradigma da
forma de vender livros (e tudo mais derivado da dependência da loja física), e
no caso onde estou da forma de fazer negócio no Agro, em que o modelo bilateral
direto, por telefone ou presencial, será substituído pelo modelo online multilateral,
com maior transparência e maior eficiência para os players desse mercado.
[1] Destaco
a leitura (e fica a recomendação) do livro de Ben Horowitz “O lado difícil das
situações difíceis”.
