Durante minha
experiência na participação da montagem do sistema de Monitoramento e Avaliação
(M&A) do Governo do Estado de Minas Gerais, tive contato com várias
experiências nacionais e internacionais, e vivenciei uma imersão no tema (em
grande medida sem volta, pois o tema nunca mais deixou de estar presente no meu
cotidiano). Uma expressão mencionada no âmbito da agenda de M&A me marcou e
não deixo de tê-la em mente cotidianamente: KISS – Keep it Simple, Stupid. Em
um raciocínio singelo, muitas (ou a maior parte das vezes), sempre que buscamos
complicar demais a forma de solucionar um problema, estamos na contramão do
sucesso. A complexidade torna a implementação e a comunicação mais difíceis,
além de representar um custo mais elevado (tanto de formatação quanto de
gerenciamento), que muitas vezes não vale o benefício.
A vida é
complexa, não podemos negar que existem muitas variáveis, cada pessoa ou
situação em alguma medida é único, e nesse sentido o ditado popular já diz que toda generalização é burra. Contudo, a ideia de simplificar não é
desconsiderar a realidade, é fazer uma escolha que aumente a chance de sucesso
do que se almeja implementar. Tal noção se aplica, por exemplo, à uma política de pessoal, em
que as regras têm de ser simples, para que possam ser claras e compreensíveis e
deste modo ter sucesso na sua implantação. Uma política de pessoal que queira
abranger todos os problemas deixa de ser política, uma vez que seu grau de
customização faz com que cada caso seja um caso, e assim, pode funcionar para
algumas empresas (pequenas de preferência), mas seria uma política da não política,
em que a regra é que não há regra (ou seria uma tentativa de ser uma política complexa, que teria alta probabilidade de insucesso).
Na questão da agenda de M&A, a noção
básica da simplicidade se dá, por exemplo, no âmbito de que querer monitorar
vários indicadores, de modo a ter toda a especificidade da instituição
avaliada. Contudo, tal ideia não é factível ou é demasiadamente custosa para se
implementar, e o nível de detalhe dos indicadores pode chegar a um grau tal de
especificidade, que mais vale acompanhar um indicador macro indireto que mobiliza a
instituição do que acompanhar uma dezena de indicadores que geram complexidade
e menor mobilização. Importante salientar que estamos tratando aqui vendo a instituição de um nível mais etsratégico, mas cada gerente pode adaptar seu modelo, para ambientes mais operacionais, mantendo a mesma lógica do KISS.
Ser simples é um
desafio recorrente para qualquer rotina gerencial. O nível de controle está
exagerado? A forma de definir as metas da empresa é muito complexa? O problema
narrado tem tantos detalhes que se perde o foco acerca do que deve ser feito?
Queremos atuar em tantas frentes que não atuamos com excelência em nenhuma?
Enfim, desafios que se aplicam a ambientes públicos e privados, e que se de um
lado a escolha por soluções mais complexas e menos simplicidade para tratar dos problemas pesa no bolso dos cidadãos, no outro pesa no bolso dos acionistas.
Minha visão é de que o setor privado tende a respeitar mais a regra KISS do que
o setor público. Pode-se dizer que o setor público tem suas limitações legais e
só pode fazer o que a lei permite, e nesse sentido seu caminho é mais difícil
para ser simples. Não discordo, mas também não posso concordar totalmente, uma
vez que existe espaço para ter foco, prioridade e ter escolhas simples e
objetivas que levam ao valor público.
Nesse sentido,
gosto de um exemplo que vivenciei no Governo de Minas na área de educação, no
que tange a seu sistema de metas, sua gestão por resultados. Certamente não era um modelo perfeito, deixava
de observar várias áreas e itens (era focado na proficiência em leitura dos
alunos do 3º ano do ensino fundamental e de matemática e português dos alunos
do 5º e 9º ano do ensino fundamental e 3º ano do ensino médio), mas sua
simplicidade fazia com que fosse possível comunicar bem com todo o sistema (com
suas milhares de escolas), e criar uma mobilização por tal melhoria da
qualidade do ensino (atributo tão importante, uma vez vencido o desafio de
atendimento[1]).
Poder-se-ia criar um sistema mais complexo que observasse outras dimensões da
qualidade do ensino, da infraestrutura do sistema, etc, mas a cada novo
indicador seria menos foco, mais custo de controle, em resumo, uma menor chance
de êxito em melhorar o sistema educacional mesmo que apenas em uma dimensão limitada
(mas de modo alguma não prioritária: se todos os alunos tivessem uma boa base
de português e matemática, já teríamos um ganho social imenso).
Ainda no âmbito de fazer o reconhecimento
dessa medida simples e de grande potencial de mobilização, destaco que os dados
desse exame anual de proficiência que guia o sistema de educação em Minas
Gerais, no âmbito de sua gestão por resultados[2], são públicos e tratados
com ampla transparência no site: http://www.simave.caedufjf.net/proeb/resultadosescala/ Sem dúvida uma
iniciativa louvável.
Ainda no âmbito da busca pela simplicidade, por que o SIMAVE[3] é melhor do que o IDH-M[4] para uma gestão por
resultados? Para além da questão óbvia da tempestividade/periodicidade (ser
anual é melhor do que ser a cada 10 anos), tem-se que as medidas contidas no
SIMAVE são mais diretas e nesse sentido mais simples do que no IDH-M, uma vez
que esse é um índice que mistura distintos elementos segundo uma ponderação
arbitrária. Não estou dizendo que o IDH-M é ruim, pois ele tem seu valor na agenda de pesquisas. Contudo, ele é pouco simples para ser bom na agenda de
M&A, além da limitação imposta pela sua periodicidade (nenhum bom gestor
pode guiar suas políticas por uma medida que você acompanha a cada 10 anos[5]).
Para fechar a
reflexao defendida do valor do simples, uma ideia defendida por um grande executivo do setor
privado me chamou atenção recentemente. Ele disse em meio a uma reunião gerencial
para toda a equipe: ‘na vida, e na empresa, o importante é que vocês gerem
resultados e sejam felizes’. Nada mais simples, uma vez que sem resultado não há
empresa que persista, e sem felicidade não há pessoas que façam resultados para
a empresa.
Que os infelizes busquem alocações que gerem maior motivação, e que
tenhamos o objetivo em gerar os resultados para nossas empresas, sendo felizes!
[1]
Pode-se dizer que há praticamente uma universalização do ensino básico: ou
seja, todo aluno tem acesso a escola pública.
[3]
Sistema Mineiro de Avaliação da Educação Pública, que incluem os exames de
proficiência.
[4] Índice
de Desenvolvimento Humano Municipal (aqui comparo com IDH-M, mas serviria para
a maior parte dos índices)
[5]
DICA IMPORTANTE: ao ver um planejamento que tem metas nesse sentido, pare e
desconfie...é um planejamento para ficar na gaveta, pois grande é a chance
deste ter baixo monitoramento e avaliação efetivo quanto a sua implementação.
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