segunda-feira, 22 de julho de 2013

Cerveja nos estádios e plebiscito: dizer ‘não’ é bem pensado?

Uma decisão sempre me incomodou: banir cerveja dos estádios. Um depoimento pessoal: nunca fui de ter uma rotina nos estádios, antes de 2011[1], devo ter ido umas 30 vezes a estádios, alguns jogos emblemáticos, algumas opções de conviver com amigos e sair da rotina. Mas tenho a boa recordação de beber cerveja no estádio. Ir ao Mineirão pra ver aquele jogo mais sem valer nada do campeonato mineiro, tomar uma cerveja e comer um tropeiro, era uma opção de lazer. Agradável, pois como era jogo ruim, significava que estaria vazio, e a precariedade do serviço era diluída pela baixa densidade no estádio[2].  

Um a parte já defendido: podia melhorar muito o serviço e tornar um estádio, de fato, um programa de lazer! Vamos na fé que esse caminho ainda será trilhado pelos operadores de estádio.

Contudo, voltando à reflexão principal, a cerveja foi vetada do estádio no Brasil! Vetada por motivos de segurança pública. Nossa cultura do dizer não, ao invés de condicionar o sim. Uma coisa é dizer, se beber não dirija, ou se for dirigir não beba: ok! Agora, aqui não pode beber? Que se crie a área dos usuários de bebida alcoólica (caso alguém ache que a externalidade que ele gere seja igual a de um fumante), mas negar e tá negado e ninguém questiona?

Sabe aquele programa de lazer, encontrei de novo: na Copa das Confederações! Como foi bom beber de novo no estádio. Poderia ter sido melhor, no que pese ter menos fila e mais opção de comida, mas diante do que temos no nosso dia-a-dia, foi bom demais! Poder beber, socializar com os amigos em plena esplanada e/ou arquibancada do Mineirão.

E por que no evento FIFA pode e depois não pode? Quais as condicionantes que o evento da FIFA tem que depois não tem como ter? Poderíamos ao menos ter a opção de liberar bebida desde que se crie uma cultura de bons serviços, boa segurança, boa disciplina nos estádios? Temos que reconhecer que não tinha nenhum copo descartado no estádio e nas ruas (seria por que o copo era top de linha, e de tão bacana, todo mundo levou de recordação para casa?). Temos de reconhecer que não teve problema de segurança, uma ou outra questão de disciplina dos torcedores, que foram atuados pelos seguranças privados (stewards, como são chamados), e que havia um bom contingente de seguranças.

Mas o que disso não é passível de se fazer no dia-a-dia dos nossos estádios? Que eu entenda é só uma questão de custar mais caro ou ser mais eficiente na prestação de serviço, e eis a beleza do mercado: tendo oferta permitida, o preço irá refletir o custo dessa oferta e haverá demanda, desde que o preço seja visto como adequado. Assim, se para ter cerveja, ou a cerveja tem que custar mais ou o ingresso tem que custar mais (ou ambos)[3], por que não regular via mercado (garantindo que o custo da segurança e da ordem é do operador, que terá seus compromissos e multas vinculadas), ao invés de simplesmente negar essa opção. Podemos dizer que se o custo for demasiado alto, e não houver demanda que compense, a decisão será por não vender ou mesmo por criar setores que se vende e setores que não se vende bebida.

Por que dizer e defender o não?  No meu espírito reflexivo, preciso ser honesto e dizer que li um livro que deveria ser obrigatório em todo o curso de economia “O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado”, de Michael Sandel. A abordagem é muito interessante ao nos colocar para refletir que nem tudo pode ser regulado por mercado, e que temos que lembrar que sempre que um bem é adquirido via mercado, estamos legitimando a desigualdade (na medida em que quem tem mais dinheiro consegue acessar relativamente mais do que quem tem menos dinheiro), e que existem códigos morais que devemos preservar e que se deixarmos apenas vigorar a lógica do mercado, isso não seria preservado, exemplo do mercado de doação de sangue (doar sangue é diferente de vender sangue: espírito cívico)[4].

Diante da leitura desse livro, fiquei me perguntando: seria a cerveja esse caso de não aplicar mercado? Acho que não, pois seja no modelo de uma cerveja mais cara, seja no modelo de ingressos mais caros, temos uma realidade de que já há uma distribuição desigual no mercado de estádio[5], no sentido de que existe uma política de preços diferenciados por jogos e setores, e que não há sentido algum pensar que tal benefício (beber cerveja nos estádios) deveria ser igualmente disponível a todos, pois existe uma restrição física da capacidade do estádio (seja com ou sem cerveja). O que estamos definindo ao negar é diminuir o prazer/felicidade daqueles que gostam de beber nos estádios (pois esse programa não existe mais), e a contrapartida (a tal segurança pública e adjacentes de civilidade), poderia ser estabelecida com serviço de qualidade!

Estamos deixando de aproveitar e fortalecer um mercado (que geraria impostos, empregos, etc) que seria o de estádios de futebol como verdadeiros programas de lazer (aos que não bebem, procurem entender, que como diria um amigo: ‘se não tiver bebida, não é fim de semana’).

Uma questão a refletir: vejo os jogos do Cruzeiro no Mineirão pela televisão e parece sempre que está vazio (esse é um problema com a política de venda das cadeiras de baixo, que são da Minas Arena). Sei que o Cruzeiro está tendo arrecadações recordes com o Novo Mineirão (as cadeiras de cima estão sold-out). Mas por que as cadeiras de baixo ou os camarotes não vendem? Pois a disposição a pagar sem ser um ‘verdadeiro’ programa de lazer, com direito a beber, é menor! Certamente existem outros problemas de gestão da Minas Arena com essa política de vendas[6], mas me parece óbvio que se tivesse possibilidade de consumir bebida alcoólica nos estádios, atrelado a boas prestações de serviço (para o cliente querer retornar), estaríamos falando de um grande mercado!

E os plebiscitos, o que tem haver com isso? Apenas o fato de que o NÃO para eles me parece mais fácil de defender: basta pensar que um plebiscito deve custar na ordem de R$500milhões. Logo, negar plebiscitos é tão simples quanto dizer que essa informação não vale R$500 milhões. Estou com isso dizendo que todo plebiscito deve ser negado? NÃO, basta mostrar uma conta que vale mais de R$500 milhões. Na minha opinião, se tivesse que ter um plebiscito deveria ser: ‘você prefere um plebiscito ou que o Governo invista R$500 milhões em estradas, metrôs e aeroportos?’ Diante desse resultado, deveríamos valorizar mais nosso voto a cada dois anos...pois o custo é alto de fazer um processo de votação!

Para resumir:

O que o dinheiro não compra? Cerveja nos estádios (espero que isso mude)

O que não tem preço? Democracia (e a liberdade subentendida por esse modelo)

Qual a melhor forma de gerenciar, por resultados ou por plebiscito? Nem preciso falar, de custo que não tem preço basta democracia!




[1] Depois de 2011, fui muito mais que isso, mas sempre a trabalho, pouco vendo e vivendo os jogos.
[2] Se fosse jogo bom, só era tolerável pelo simbolismo de ser parte da história do clube e ter vivido esse jogo bom, pois chamar isso de lazer (aperto pra entrar e corrida pra sair) é forçar a barra.
[3] Existe a opção de o custo ser internalizado pelo operador do estádio, mas que na prática não é muito realista. Pois ele só faria isso se houvesse competição (outros estádios), o que não há (cada jogo é único).
[4] Leiam o livro, o meu resumo é bem resumido e geral.
[5] Existe um problema de moral relativo a filas e cambistas, mas aqui já é outra reflexão...e está também no livro do Sandel.
[6] Infelizmente os dados gerenciais de receitas e despesas da PPP do Mineirão não são públicos/transparentes ainda, e com isso não consigo ser mais preciso em quantificar essas oportunidades/valores.

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