quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Como balancear função e salário: a tragédia do judiciário brasileiro.

A palavra desalento é caricata para o momento de país. Falta ver luz. Falta esperança.

Tragédia parece ser sempre algo ligado aos grandes desastres, e que o país vêm vivenciando diante do rompimento da barragem em Mariana nas nossas Minas Gerais. A tragédia, na ótica da catástrofe ambiental e dimensão social, não apresenta palavras – não conseguimos de longe imaginar o tamanho da perda para os afetados. Contudo minha reflexão é sobre tragédias que são silenciosas, que nos submetemos diariamente, que envolvem nossas instituições e nossa cultura de setor público.

Quando li a matéria da carta capital (http://www.cartacapital.com.br/revista/873/caro-e-ineficiente-7271.html) me deparei com a narrativa de fundo dessa tragédia: a velha e boa ineficiência e desperdício do gasto público. Soma-se a isso uma boa dose de distorção entre a remuneração na função pública.

Como já coloquei outras vezes, acredito que o estatuto da estabilidade apresenta grandes incentivos perversos. Mas nele, principalmente em tempos atuais de crise generalizada de corrupção, reside parte do discurso da defesa dessa estabilidade em prol da conduta correta. A tese é que profissionais de carreira seriam menos suscetíveis às pressões corruptíveis sob ameaça de perderem seus cargos ou por só terem cargos para servir propósitos questionáveis. Na mesma linha, a defesa por salários adequados para o serviço público observa tese similar: pagar bem para evitar que se caia em tentação.
Usando a frase de Platão, “Sejamos razoáveis: busquemos o impossível!”. Ou adaptando, sejamos razoáveis: busquemos o caráter. Corrupção é desvio de caráter. Sujeitos que cometem desvios tem falha de caráter, e isso pouco tem relação com sua estabilidade ou não. Temos uma falha sistémica de caráter em nossa cultura: temos medo do enfrentamento aberto. Queremos compactuar em prol do social, abrindo mão de princípios de conduta e eficiência, nas diversas funções profissionais. Seria reflexo do tal “jeitinho”?

Sobre pagar bem, certamente precisamos considerar o salário higiênico, bem como sempre é possível e desejável comparar com o mercado. Vale entender e equilibrar risco e retorno. Um advogado privado pode ficar milionário, ele se arrisca e empreende, e isso desde que não seja à custa de recurso público (ai envolveria qualquer esquema de corrupção). O advogado público, por sua vez, fez uma escolha da função e seu status! Deve ter um salário justo pelo seu trabalho, mas de modo algum deveria figurar entre as fortunas da sociedade, e de longe não justifica os apontamentos feitos na matéria da Carta Capital.

Vale lembrar que esperamos sempre que o Policial ou o Bombeiro, para não esquecer nunca do médico, se dediquem e se arrisquem diante das situações mais arriscadas que a vida apresenta. Isso é parte da função, é parte da história de quem escolheu vestir determinada camisa. Diante da terra de lama não pensamos que o Bombeiro pode se comportar mal ou não fazer o que se espera dele por conta de um salário baixo. O caráter dele não está sendo testado, isso deveria ser um teste prévio e da formação (e caso tenhamos problemas de identificação de bons profissionais nessa etapa podemos sim estar diante de salários pouco atrativos, mas isso é problema de entrada e retenção).

Goran Lambertz, um dos 16 ministros da Corte Suprema sueca, disse que “luxo pago com o dinheiro do contribuinte é imoral e antiético”. Retirei essa menção da matéria da carta capital, e não podia espelhar melhor o nosso desastre institucional. O problema é que tal desastre é visto no nível político e gera espanto e revolta, mas o que poucos observam é que ele está “entranhado” em nossas instituições, e pode ser visto a cada nova greve dos servidores, seja do nível que for: afinal nenhuma carreira se coloca como parte do povo e se mobiliza contra os privilégios da outra, apenas luta por mais ineficiência em prol da sua casta! 


Por fim, vale sempre chamar a atenção que o Estado (e o Judiciário é parte dele) deveria funcionar a serviço do cidadão. Mas como se sente a cada nova legislação, temos uma máquina que faz o oposto da simplificação e sempre parte da premissa que o capital é oportuno, o empreendedor é nocivo, que devemos punir e vigiar. Busquemos o impossível: sonhar em empreender!

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Uma esperança para a revolução das organizações

O livro “Novas Organizações parauma Nova Economia” de Mauricio Goldstein foi uma grata surpresa! Um livro de ideias simples, mas de grande impacto e que representam grandes desafios gerenciais! Sempre é positivo se deparar com ideais com os quais se identifica, mesmo que sob muita reflexão, e que podem ser de fato, revolucionários.

Começo por esclarecer o que acho de revolucionário: algo que altera nossa cadeia de valor, nossa forma de ver o mundo e de se posicionar! É uma revolução daquelas que gera grande destruição? Acho que não. É mais uma daquelas que se fazem com um silêncio ensurdecedor. E os ideais propostos fazem tanto sentido e ao mesmo tempo colidem bastante com o modelo mental estabelecido, o que me faz crer em seu poder revolucionário.

Que o autor me perdoe, mas vou abrir aqui reflexões inspiradas no que li, e que podem (ou não) ter sinergia com o que ele queria. Longe de querer resumir ou sintetizar o que o livro apresenta, são apenas ideias complementares (portanto, a leitura do livro fica como recomendação!):

1) A defesa de um modelo simples para guiar decisões na vida profissional (seja de quem empreende, seja de quem é empregado): resultados e felicidade!

Aqui faço um adendo com a figura abaixo (e sua devida fonte) que representa um guia importante nesse tipo de busca por felicidade e resultado (e mais uma vez possível de ser aplicado ao individuo ou à empresa):
















FIGURA – A busca de Felicidade e Resultado (F e R)

Esse binômio se aplica às escolhas de juventude, bem como das escolhas de “estabilidade” de emprego público que já debati anteriormente nesse blog. Se fôssemos fiéis a isso, escolher perseguindo felicidade e resultado, teríamos sem duvida um mundo melhor!

As novas organizações retratadas pelo autor perpassam fortemente essa ideia de ser feliz (e grande parte da equação de felicidade está na comunidade que “frequenta” e no seu propósito) e da necessidade de gerar resultado (sem isso as empresas não sobrevivem).

2)   A ideia de que movimentos de gestão em que “o chefe é o objetivo” podem representar um diferencial para o sucesso das empresas

A escolha do autor em estudar empresas bem sucedidas que apostaram em modelos de gestão inovadores que perpassam a ideia de culturas flexíveis e menos hierarquizadas não é uma resposta clara sobre o caminho de sucesso[1], mas mostra que é possível ter sucesso com caminhos distintos. E mais do que isso, aponta algumas tendências que caminhos de culturas que valorizem isso possam ser diferenciais para construção do sucesso e da sustentabilidade.

Nesse sentido gosto da ideia de valorizar cada vez mais no ambiente de trabalho relações “ombro a ombro”! A ideia de crescer junto, de modo orgânico, e que a escolha entre qualidade (de vida e de relações) versus quantidade (de lucro ou retorno para o acionista) não se apresenta como um trade-off, mas como um balanceamento que pode justificar escolher mais do item qualidade! Temos de ter fé na sociedade (ou seja, no homem) e no caminho de valorizar as coisas certas!

Quero ser otimista de que relações de trabalho que culminam na ideia retratada na citação “A burocracia é o trauma acumulado da liderança”[2] são práticas que ficarão arcaicas rapidamente.


3)    Ser do “nosso tamanho”.

Essa ideia me foi relatada por um grande amigo, que cansado com as demandas provenientes da necessidade de faturar mais, pensava em regressar e ser mais simples, ser do “tamanho dele”. Bem, se temos a sensação que poderíamos voltar a ser do “nosso tamanho”, é derivado em grande medida do crescimento inorgânico que promovemos...damos passos as vezes maior que as pernas....e nos vemos atolados de gerenciamentos “burros”, excesso de controle, rotinas enfadonhas, e tudo por conta do dimensionamento do que queremos/podemos ser (e que em grande medida reflete o “como fazemos” em nossas organizações).



É uma agenda de grandes desafios e se aplica pra gestão privada e pública. É um choque cultural, principalmente para o modelo mental brasileiro em que os termos empregado e chefe tem um quê de subordinação e status, excessivos respectivamente. Por um lado ser chefe tem de sair de moda! Por outro temos de parar de pensar que empregados têm direitos e focar mais na ideia de que eles têm compromissos pessoais com suas obrigações.

Os princípios da revolução nas organizações passam por liderança que atua no sonho mobilizador ou em organizações que tenham um grande propósito, em empresas que tenham crença no ser humano, e com isso temos culturas que geram engajamento e que permitam organizações flexíveis. Observe que temos inúmeras combinações entre esses aspectos, mas que o denominador comum perpassa uma ideia central: a motivação vem das pessoas, e não de fora. Assim, o desafio está em ter pessoas que estejam alinhadas com a proposta da organização, e que esse se mostre no formato que potencialize a equação de felicidade e resultado.

Eu sou do  tipo que adoro debater e no fundo quero ao final de cada debate convencer os outros do meu ponto de vista (de tanto que acredito nele) ou posso mudar e me convencer do ponto de vista do outro (imaginem que depois de muito debate, ne?). Contudo esse livro e especialmente a frase do José Saramago que é citada nele “o trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro”, me fizeram ponderar que estive errado (minha esposa vai adorar ler isso), pois não tenho que convencer o outro, mas compartilhar minha visão de mundo. Cabe a cada um, por meio de suas escolhas, conectar com os que compartilham da sua visão (e se dispõem a engajar nela) para a construção do mundo melhor! Parece simples (...) só parece.




[1] Nesse sentido a pesquisa de Jim Collins é muito mais robusta. Contudo, existe, como o próprio Goldstein pontua, sinergia entre os achados de Collins e suas proposições de valor para organizações diferenciadas.
[2] Stephen Rinesmith apud Goldstein M. (pag. 184)

terça-feira, 7 de abril de 2015

Diagnóstico ou Marketing Político?

Ontem foi lançado o diagnóstico feito nos 3 primeiros meses do Governo de Minas sob nova gestão. Rapidamente, o antigo governo já reagiu e questionou o teor e propósito do documento. Quem está com a verdade? Temos um processo que elucida ou não?

Apenas naveguei apenas pelo hot site (www.diagnostico.mg.gov.br), e comentei assunto com alguns amigos, sejam tucanos, sejam petistas. O que me chamou muita a atenção é o tom de marketing muito maior do que o tom de um diagnóstico, com o explícito propósito de desqualificar o “choque de gestão” e buscar usar da comunicação como ferramenta de formação de opinião da maneira mais letal para a formação do cidadão: informação não transparente e usada com viés em prol da hipótese defendida.

Se fosse um trabalho acadêmico tomava bomba! Quais foram as perguntas feitas quando do início do diagnóstico? Quais as hipóteses que estavam sendo testadas para avaliar a boa ou má gestão?
O que vemos em termos de resultado é que nenhuma resposta positiva ocorreu, ou seja, não há nenhum saldo positivo observado no diagnóstico (para ser honesto, vi uma menção sobre ensino fundamental, que foi logo descaracterizando que isso seja papel do Estado). Isso é possível? Teoricamente sim. Isso é provável? Absolutamente não.

Ainda vemos uma forma terrível de mostrar dados e resultados: usar comparações ad hoc. Quando a comparação com 2002 é adequada para demonstrar que a situação atual piorou muito, uso o dado de 2002, quando não é uso o que for adequado.... 2010 por exemplo....ou será que não uso nenhuma e só alardeio o número solto para chamar atenção?

Se observarmos na parte de segurança, na mesma figura usam-se dois tempos de comparação distintos... e ainda com um equívoco técnico terrível....crime é diretamente proporcional ao número de habitantes (teoricamente quanto maior pior, cidades maiores tendem a ter mais homicídios em número absoluto do que cidades pequenas), e o número de habitantes cresce com o tempo por definição da nossa natureza (exceto se fomos uma sociedade que já está na curva negativa de natalidade, que não é o caso do Brasil ou de Minas Gerais). Logo, se compararmos sem ter uma taxa por X mil habitantes, estamos comparando banana e laranja!

IMAGEM 1 - Exemplo do diagnóstico de segurança


No caso de processos ambientais, por exemplo, o número é bruto, ou seja, sem base de comparação com como era isso no passado.... qual o motivo? Qual o objetivo de cada comparação? Acho que todos que refletem um pouco desconfiam...

IMAGEM 2 - Exemplo do diagnóstico de meio ambiente


Triste uso de um diagnóstico. Mais triste ainda a situação, e é fundamental deixar aqui registrado que tem muita coisa a ser feita e infelizmente temos muitos problemas e desafios para a gestão pública estadual! Contudo, quando não fazemos o devido uso do que é ser “técnico” ou “imparcial”, perdemos a chance do velho e bom “tapa de luvas”, que é elegante e desmonta o outro lado. Seria uma grata surpresa se a forma de apresentar tivesse outro nível e outro tom, teríamos o caminho de uma democracia construtiva, que é tão desejada. Poderíamos hoje estar discutindo os reais problemas e não se tem um lado que fez ou um que mudou a ótica do que foi feito.

Por ora, mantemos a visão destrutiva, cultura do sangue, da culpa, do erro, e da disputa que beira a rivalidade irracional do futebol!

Está em campo nossas vidas, e torço para que o atual governo consiga ter muitas e boas entregas: ganharemos todos! Vi um esforço de falar o que está sendo feito, mas falta muito para um compromisso mais objetivo e uma “gestão por resultados” que seria muito desejada! Para cada eixo, qual a situação e qual a meta?

Uma questão que ainda chama muita atenção é a falta de clareza para tratar de um assunto tão importante como o gasto com pessoal. Fala-se em descumprir a LRF por conta da gestão anterior e os compromissos assumidos, mas também se critica a falta de pessoas em diversas áreas estratégicas para o Estado. Uma coisa é incompatível com outra, pois a crítica a folha inchada é contraditória à critica de que deveria ter mais servidores em algumas áreas. Bem vindo ao desafio da gestão!


Termino, voltando a defender a iniciativa de transparência séria e profissional já defendida com o “Caderno de Indicadores”. Espero que ele continue sendo feito, pois ele não é marketing no seu sentido ruim, é diagnóstico real do que aconteceu e quais são os números que espelham nossa realidade, seja ela fruto de uma melhora (e isso na minha opinião pode e deve ser usado como marketing positivo) ou uma piora. Isso sim seria base para boas reflexões e para a ação!

sábado, 7 de março de 2015

A falência do estatuto da estabilidade

A reflexão de hoje é mais visceral, mais um rompante do que algo comedido, pois é fruto de um telefonema de um grande amigo, narrando uma situação de transição de Governo. Repito: transição de Governo e não de Estado!

Quem me conhece sabe que não é de hoje que contesto o estatuto da estabilidade. Por mais de uma vez defendi academicamente o argumento de que cargo em comissão tem um efeito de romper ciclos viciosos e de criar um ambiente pró-resultados. Afinal, a ideia do cargo é pagar melhor e diferenciar aquele que está disposto a assumir responsabilidades e se comprometer com resultados.

A hipótese da estabilidade é a de evitar perseguição política. Hipótese em que agentes executivos mal intencionados não respeitam argumentos técnicos e usam de uma possível “exoneração” para impor sua forma de agir e coibir servidores públicos. Por óbvio isso é desejável e se é preciso da estabilidade para se ter coragem de enfrentamento, ela é necessária. Mas e quando estabilidade não é usada pra isso?

A falência, segundo uma situação que foi relatada na conversa telefônica, vem de uma visão simples:

- O que foi me narrado por um grande amigo mais me pareceu com uma grande organização empresarial S/A, em que os gerentes se adaptam aos conceitos e diretrizes da nova chefia, se valem dos seus poderes para buscar uma autoperpetuação de poder, e com isso o ambiente organizacional público nada mais é do que um ambiente organizacional com a mácula das relações nocivas do setor privado, catapultado pelo estatuto da estabilidade;

- No limite só se usa da estabilidade quando não se consegue perpetuar no poder, independente das funções públicas e crenças técnicas que norteiam a carreira!

Minha opinião é pela meritocracia de cargos em comissão: uma vez que não temos casos de conflitos técnicos que necessitam do respaldo da estabilidade para evitar um abuso do agente executivo. Assim como no ambiente privado, fica no cargo de gerente aquele que assume riscos, mostra serviço e como recompensa tem uma maior remuneração.

O uso da estabilidade como recurso de defesa do discordar e agir dentro das funções legais seria a virtude. E a ausência da virtude é quando vemos pessoas não assumindo riscos e desafiando chefias, e buscando sim perpetuação no poder pura e simplesmente. A estabilidade torna-se ineficiente. Mandatos periódicos para órgãos de controle poderiam ser mais úteis. Carreiras mais flexíveis, com múltiplas portas de entrada e saída, poderiam ser mais efetivas, criativas e inspiradoras.  Oxigenar é uma forma de romper ciclos viciosos e maturar as instituições.

A estabilidade me parece um desastre! Isso só reforça que o valor não deveria ser a “carreira estável para a vida toda” e sim a posição executiva: agir de acordo com princípios técnicas, respondendo por seus atos e buscando seus resultados. Qual objetivo de criar a proteção da estabilidade? Se for dar salvaguarda especial para privilegiados de terno que não tem consistência técnica que visam perpetuar cargos e poder: nada vale!

Uma reflexão seca, mas de grande valia. Como qualquer questão, existem aqueles que usam a seu favor: discordam de uma prática e usam para garantir que ninguém irá te exonerar por defender o que se julga certo naquela função. Contudo, essa não me parece a regra no Brasil, e sendo apenas exceção poderia ter modelo melhor. Daí a ideia de que tal estatuto não faz sentido em nosso contexto. Mas sabemos que sua mudança é algo que se iniciada agora, só teria frutos para próximas gerações: alguém deveria começar!


P.S - Um a parte não partidário, mas que merece ser dito: O nome de Anastasia em meio à Operação Lava Jato mais me parece bode expiatório do que consistência de fato. Longe de mim, achar que o sistema político produz santos, mas classificar em uma mesma lista envolvidos com afirmações concretas de terem recebido dinheiro, com questões especulativas  não me parece prática séria. E esse ser o único nome do PSDB é típica estratégia de querer ter qualquer menção que faça parecer que “tudo é farinha do mesmo saco”. Acorda Brasil!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Estaríamos em meio a um ciclo vicioso no setor público brasileiro?

Já faz mais de dois anos que saí do Estado, mas o tema do setor público continua me despertando grande interesse. Acho que era essa a essência natural do homem político: gostar da vida pública e se interessar por ela naturalmente. Atualmente, acho que nos afastamos bem disso. É um tema cada vez menos público e mais partidário (cada qual com seu time), e que gera mais preguiça, descrença e careta do que reflexões construtivas.

Em meio a tal quadro, a ideia de um ciclo vicioso me ocorreu, e resolvi compartilhar tal reflexão. É uma ideia ainda em construção e, portanto, críticas construtivas são bem vindas, bem como referências e reflexões correlatas. É uma tentativa de tornar simples o que é complexo, e com isso, a abstração é uma necessidade, e irá se aplicar em menor ou maior grau a casos específicos. Para aqueles que se encontram no setor público, também façam a devida adequação de que não se trata de uma crítica especifica a ninguém ou nenhuma carreira, mas sim um contexto em que todos em alguma medida se encontram.

A figura abaixo reflete o ciclo vicioso do setor público que acredito se aplicar atualmente no Brasil:



Tal ciclo consiste em três vetores que se retroalimentam: Seleção adversa de capital humano, Execução ruim e ambiente desmotivador.

Temos uma porta de entrada para o setor público que tem aspectos meritocráticos (alguns concursos são bem disputados!), porém observam com viés o que é meritocracia (o velho desafio de focar em conhecimento e não em perfil ou em histórico de realizações). Tal porta de entrada ainda é mais perversa quando se observa a proposta de trabalho/carreira, em que o valor da remuneração é um fator que pesa (as pessoas escolhem o concurso por qual valor se paga), e tem-se muito pouco do horizonte de construção de uma carreira de fato. Vale mais o tempo e valoriza-se em muito a perpetuidade (falar em emprego ‘para sempre’ em tempos modernos é bem complexo).

A sequência da entrada com incentivos perversos é uma seleção adversa reforçada. Digo reforçada pois o perfil de atração para a carreira pública já gera uma desistência de alguns perfis mais empreendedores por assim dizer (e assumo como premissa que não seria desejado a seleção apenas do tipo de perfil “não empreendedor” que visa estabilidade). A continuidade da seleção adversa ocorre com o decorrer do tempo em que quem fica é aquele que não teve frustração ou não teve coragem de se arriscar em alguma ocupação alternativa (abrindo mão de sua “algema de ouro”). A forma de remuneração na maior parte dos casos do Poder Executivo principalmente subnacionais (vale ressaltar que o Poder Legislativo e Judiciário tem via de regra patamares salariais bem melhores. E o nível federal remunera bem melhor que níveis estaduais e municipais) é engessada e tem um limite para o crescimento.

Contudo a pior parte da equação da seleção adversa vem da combinação de uma remuneração não atrativa com o excesso de controle e excesso de exposição a risco, o que faz qualquer perfil um pouco mais empreendedor ter no ambiente público uma alta aversão a risco de realização (o ambiente conspira para o “não fazer”). O excesso de controle, que em parte vêm por conta do melhor padrão de salário dos poderes e órgãos de controladoria e carreiras jurídicas, funciona como experiência temerária para a maior parte dos que buscam transformar o setor público, que em meio a muitas leis e engessamentos, pode fazer dos processos ferramentas de terror contra a vida de qualquer gestor que dê a cara a tapa.

O resultado da seleção adversa é a escolha de perfis para os quadros executivos que (i) tem muita disposição ao risco, e em alguma medida esse perfil vai se revelar o que “precifica” esse risco pela busca de poder, e que em alguns casos deriva para o “abuso de poder”; ou (ii) não tem alternativa melhor, seja pela “algema de ouro”, seja pelas suas competências, fazendo uso moderado da agenda de transformação por ter aversão ao risco do excesso de controle ou agendas questionáveis de gestão, estando sujeito a erros por ação ou omissão. Os demais perfis ou nem buscam entrar no setor público ou já saíram por vislumbrar outros ambientes de maior motivação.

Estando o poder executivo mal servido de bons quadros, seja por falta de competência, aversão ao risco ou conduta duvidosa (esse sendo o quadro literalmente corrupto), clama-se por uma maior agenda de controle devido ao excesso de demandas não atendidas na sociedade e pelas indicações de ineficiência que em alguns casos se revelam corrupções. Temos ai uma demanda social por um reforço da agenda de controle e punição (que é devida aos infratores, mas transbordam para a criação do ambiente de aversão ao risco demasiado pelos demais gestores). A execução ruim das políticas públicas alimenta esse ciclo na medida em que gera insatisfação social, e deriva para o que é comum hoje, o entendimento de que toda ineficiência é corrupção.

Deriva-se desse movimento a valorização das agendas de controle (enaltecimento de poderes fiscalizadores, etc), e cultura de caça as bruxas (o problema aqui não é caça-las, mas uma vez que se tem a fogueira, exagerar na forma do que se chama de bruxa, e de como se faz um rito sumário de taxação, principalmente pela exposição midiática), o que reforça o movimento de seleção adversa desde a entrada até a permanência de bons quadros no Poder Executivo por conta do ambiente desmotivador (tudo é muito custoso e conspira pelo ‘não fazer’). Com isso fechamos e retroalimentamos o fluxo vicioso de não conseguir uma evolução da efetividade do setor público.

O sistema político eleitoral é subjacente a esse ciclo, e em alguma medida a ausência da virtude do homem público na sociedade faz com que o perfil dos políticos se afaste e seja ele mesmo fruto desse ciclo vicioso. Uma diferença importante é que a porta de entrada democrática no meu ponto de vista não apresenta substituto, e nesse sentido, a melhoria desse aspecto depende da dura maturidade institucional (em última instância da nossa capacidade enquanto nação de saber o que se elege).

Acredito que vivemos um modelo danoso pela forma de poder atual que busca aparelhamento e controle, e que diferencia pouco Governo de Estado, colocando quadros partidários em posições que deveriam ser neutras/técnicas. Vejo ascensão de perfis que nada tem de meritocracia alçarem voos cada vez mais destacados, e o modelo é profético no curto prazo, pois a perpetuidade dessa mentalidade no poder faz com que as tais figuras sem histórico de entrega ou execução virem referências (pelo status que ocupam e não pela execução). A esperança reside na precificação do mercado pela ineficiência ou da descoberta do que for corrupção, mas em ambos os casos caímos no ciclo vicioso mencionado.

Como quebrar o ciclo não é uma pergunta fácil, e depende em muito do patrocínio de lideranças políticos (que como dito dependem do resultado democrático e do sistema que tem suas desvantagens no que diz ao poder econômico das campanhas). Parte da fuga dessa armadilha se dá por oxigenar o setor público, criar entradas laterais, formas temporárias que sejam tecnicamente orientadas, e entender que o diálogo na base técnica entre publico e privado é parte fundamental de uma economia desenvolvida.


Ações que criem um ambiente de maior valorização e status do que temos de positivo no setor público também tem seu papel, mas incorrem no risco de cooptação e deturpação partidária, e por isso são mais complexas. A forma de abordagem e construção das agendas de controle tende a ser importante no diálogo com os técnicos do poder executivo. Estabelecer parcerias ganha-ganha, no sentido de buscar eliminar ineficiência, fazendo uma força tarefa de melhorar a produtividade e não de se achar culpados (obviamente nos casos em que não houver indicio de abusos pessoais). Bem, é uma agenda repleta de desafios para nosso amadurecimento institucional, e quem sabe um dia podermos falar em um ciclo virtuoso no setor público brasileiro!