quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A espera e a ação: 2015 vem, e o que nos cabe?

A virada de mais um ano e todo o sentimento de renovação que se repete no nosso ciclo anual. Desejo sempre energia boa e saúde e o melhor de tudo ótimas celebrações, afinal, se divertir no presente é a melhor garantia de futuro (e tem gente que não entende quando se diz que temos que nos divertir no trabalho....lembre-se motivação vem de dentro).

Todo inicio de ano se tem aquela esperança, e por pior que seja o cenário, sempre conseguimos antecipar o que pode ser ruim, e esperar que teremos algo melhor. O diferencial será a ação! Fé é importante e eu mesmo fiz a minha Mega da virada (a minha individual e não neguei nenhum convite de Mega do grupo, imagina só todo mundo ganhar e você ficar de fora!!!), mas convenhamos, probabilidade baixa (...íssima para ser mais pé no chão), então vamos tratar de fazer plantios mais duradouros.

Cabe-nos o mesmo que sempre nos coube: boas reflexões sobre o que queremos, o que somos, e o que fazemos, planejar e agir!

Nesse caminho, li a biografia de Raúl Prebisch, do autor Edgar J. Dosman, material riquíssimo sobre essa figura histórica e uma boa referência de história da América Latina no século XX. Impressionante minha ignorância sobre tal figura, e confesso que triste ver essa falta de referência na escola de economia e gestão pública. Uma carreira de desafios na construção institucional, e sob minha análise pós leitura, com mais frustrações do que conquistas tendo em vista o duro ambiente político e institucional e dos jogos de poder dos organismos multilaterais. Mas uma inquestionável fonte de boas reflexões, em que destaco a que me chamou mais atenção e mesmo sendo datada de 1981 nunca pareceu tão presente:

“´Distribuição equitativa, crescimento econômico vigoroso e novos padrões institucionais em uma democracia realmente participativa: estes são os objetivos principais´. Para ele, o comunismo não funcionava porque limitava a liberdade política (e além disso, não funcionava na prática), enquanto o liberalismo irrestrito era economicamente eficiente, mas socialmente insustentável. O desafio de construir uma nova ordem era reunir as vantagens dos dois sistemas e evitar suas fraquezas. ‘Pergunto-lhes quais são as outras soluções. O livre mercado e governos autoritários não resolveram o problema. Não sou dogmático, só estou tentando provocar discussão.’” (DOSMAN, 2011, p.553-554)

Nosso caminho enquanto país tem desafios imensos em 2015: paramos de avançar na agenda da equidade, há muito não crescemos vigorosamente e nossa democracia briga com a imagem de um partido no poder atolado de corrupção, sem falar no risco da inflação. Não acho que existe via alternativa fácil: a democracia que temos é inegável, pode ser aprofundada em participação (mas o custo-benefício disso ainda não é claro, nem mesmo é sua efetividade), precisamos de reformas e uma agenda de implementação forte, mas não nos cabe uma mudança radical em nível institucional. Cabe sim, uma agenda radical de ação e atitudes, desde as relações individuais (em busca de maior civilidade), até as relações empreendedoras e reformas institucionais (incentivos corretos para geração de resultados).

Particularmente torço para que a transição partidária no Governo de Minas mantenha as boas práticas de gestão e imprima nesse modelo suas prioridades, bem como incorpore melhorias nessa e em outras áreas. Queria muito ver a agenda de transparência do Caderno de Indicadores, por exemplo, ser mantida e por que não, aperfeiçoada!


Prebisch morreu ao que consta, aos 85 anos, dormindo, após ler e beber em uma noite de uma rotina que pareceu feliz. Uma morte invejável, se é que me entendem. O fim de uma história cheia de energia e ação. Que fique a inspiração para viver 2015, lembrando de um lado da finitude e de outro da importância de se construir e lutar pelo que se acredita! 2014 se vai e 2015 já vem vindo...

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Economia, política e ideologia: meus argumentos a favor da maturidade institucional

Tempo de eleição é sempre curioso, uma vez que o ser político enraizado (em alguns mais do que em outros e talvez ultimamente com maior raridade que no passado) ganha voz e maior expressão. Infelizmente o debate é pouco qualificado, talvez reflexo do baixo interesse em estudar a fundo, talvez fruto da nossa cultura de futebol (em que o amor pelo time é absoluto e indiscutível). Vi o debate de Mantega e Armínio e confesso que fiquei decepcionado, pois esperava mais economia e menos marketing politizado. Entendo que os dois estavam cada qual na sua sinuca de bico em que pelo jogo posto, qualquer fala fora do script vira manchete taxativa, seja de “juros tem que subir” seja de “inflação está acelerada”. Nossa maturidade institucional e qualidade do nosso capital humano são fonte disso. 

Falta também uma qualificação melhor, às vezes buscando nesse tipo de fórum mostrar dados e em cima dos fatos, entender melhor divergências e concordâncias do ponto de vista. Se fizéssemos um workshop, a exemplo de alinhamentos estratégicos em empresas, talvez conseguiríamos um resultado bem elucidativo para a população: entender o que estaria na mesa e em questão na escolha democrática. Utopia né?


Bem, resolvi fazer meu para casa e compartilho na presente reflexão. Tentei sintetizar no quadro abaixo, os dados de crescimento econômico do Brasil e do mundo nos 5 últimos mandatos presidenciais, de FHC 1 (1995-1998) até DILMA (2011-2014):



Fonte: IPEADATA (www.ipeadata.gov.br)
Projeção Mundo e Brasil 2014: FMI - http://www.imf.org/external/datamapper/index.php
Projeção INPC 2014: BANCO CENTRAL - www.bcb.gov.br/pec/indeco/port/ie1-01.xls
Projeção Dólar: FEBRABAN - http://exame.abril.com.br/economia/noticias/projecao-da-febraban-para-cambio-recua-para-r-2-39

Vejamos a síntese que proponho:
  •  Em FHC 1 vivemos o ajuste contra a inflação. Foi o nascimento do plano real, e o primeiro quadriênio de inflação controlada (na média abaixo de 10%a.a). Como parte do ajuste, tivemos que conter crescimento, e crescemos menos que o mundo. Mérito econômico, e mérito nas urnas!
  • Em FHC 2 talvez tenhamos pago o preço da reeleição, pois como conhecido e dito pelo próprio FHC em sua biografia, o dólar em 1998 foi mantido a patamares que eram insustentáveis, e logo após a eleição, teve-se a mudança de política cambial que fez com que o patamar do dólar saísse da paridade de R$1 para R$2,2 na média dos 4 anos do novo mandato. Crescemos menos que o mundo, e como o próprio Armínio pontuou no debate de 9/10/14, foi feito grande esforço para que plano real não fosse desacreditado. Inflação foi mantida, crescemos novamente menos que o mundo. Resultado econômico não pode ser considerado como vencedor nas urnas: transição a vista!
  • Em Lula 1 após superar os nervos políticos do que seria tal transição, devemos dar pontos a democracia  que viveu grande amadurecimento (uma transição histórica, em que o PT assumiu o governo), o PSDB fez uma transição econômica séria e o governo que assumiu teve seu mérito por criar credibilidade e imprimir seu estilo sem nada quixotesco. Crescemos ainda menos que o mundo, mas crescemos muito, pois mundo cresceu muito também. Foram 4 anos de bonança na economia, o que em alguma medida faz qualquer ajuste econômico ser melhor. País que cresce é país que reelege!
  • Em Lula 2, vivemos único período em que crescemos mais do que o mundo. Vivemos o único ano de recessão mundial em 2009. O Brasil cresceu e segurou sua inflação, gerou valorização da nossa moeda, colocando o patamar do câmbio abaixo dos R$2. Um governo de resultado econômico (de curto prazo, indiscutível), sempre leva melhor nas urnas!
  • Em Dilma, vamos amargurando uma crise internacional que, como Mantega defende, não tem fim. Curioso é que ao que tudo indica teremos um cenário nesses quatro anos de Dilma em que mundo cresce mais do que todas as comparações (exceto a bonança de Lula 1).  Crescimento baixo, câmbio e inflação na ascendente....problema nas urnas a vista! Estamos colhendo o que plantamos, ou quitando as parcelas remanescentes do que compramos no passado!
Equilíbrio é um conceito que deveria ser mais valorizado. Da sinopse acima, acredito que o PT mostrou bem que gerar crescimento na base da pirâmide é algo importante (fomentou o mercado de consumo interno e criou uma legião de seguidores), contudo, qual foi a qualidade dos investimentos no período de bonança? Fizemos escolhas de curto prazo, só consumindo mais para os que aqui viviam ou pensamos em nossos filhos que viriam?

Por ser mineiro e ter vivido intensamente os últimos governos aqui não consegui deixar de olhar os dados de Minas (infelizmente as bases do crescimento do PIB estadual tem muita defasagem), mas o quadro do Governo Aécio 1, no mesmo período da bonança mundial do Lula 1, foi de crescimento acima do Brasil (3,8%a.a). Ele fez os ajustes conhecidos como Choque de Gestão e surfou a mesma onda! No período Aécio 2 (que é o mesmo quadriênio de Anastasia 1, pois diferente de Lula fez do vice seu sucessor), Minas cresceu menos que o Brasil (3,9%a.a), mas vale notar que na crise, o impacto no nosso minério é avassalador, e não podemos dizer que o Governo Federal protegeu a todos da mesma maneira, pois a máquina tributária forte esta na mão dele. Os dados de Minas no Anastasia 2 não parecem ser diferentes em magnitude dos dados do Brasil: um crescimento abaixo do esperado. Nesse cenário mineiro, pequenas reflexões:

  • Como um professor meu defendia ao ver metas de crescimento para MG como compromisso do Governo Estadual: “obrigação de crescer não é nossa, as ferramentas não nos pertencem”. Tenho de concordar que isso não é a primeira prioridade de um estado, cabe a ele estar arrumado para surfar bem as ondas que virão no país!
  • Papel do Estado é saúde, segurança e educação...se observarmos essa medida acho que Minas é destaque no Brasil....para educação basta ver medidas do IDEB
  • Resultado bom ganha nas urnas, Aecio 1 e 2 mostraram bem isso. Já resultado ruim, é espaço para mudança...mas Anastasia foi eleito para Senado com mais de 56%...
  • Dizem em algumas rodas que aqui o PT não ganhou, foi o PSDB que perdeu: toda escolha, uma renúncia....

    Estou convencido de que foi bom para democracia a eleição de Lula em 2002. Também acredito que as mudanças de partido no poder serão salutares em 2015, pois isso dá força para a maturidade institucional, o corpo técnico aprende a ser Estado e não Governo. Esperamos que políticas de fortalecimento institucional que sejam apartidárias como agências reguladoras, concessões, institutos de pesquisa ganhem agenda! Torço e voto pelo caminho da maturidade institucional no Brasil!
   
     Para fechar a reflexão não posso deixar de citar trechos de um romance uruguaio de 1965[1], que traduzem magicamente algumas reflexões que fazem muito sentido pra mim. Em um diálogo de pai e filho, vi minhas crenças no entendimento do tempo das instituições[2] nas falas do pai, que inicia o diálogo adaptado abaixo:
 
  “- Ustedes creen que la revolucion es andar sin corbata.
     
    - Por algo se empieza: ustedes ni eso.
    
     - Ya lo sé, ya lo sé. Pero ustedes empiezan a hablar, a gritar, a organizar mitines, se inflaman solos y llegan a convecerse de que el país es eso que proclaman y sólo eso. (...) Convencete de que la crisis más grave en este país es la crisis de ejemplo.
    
     -Decí mejor que empezó por ahí. Pero ahora la cosa no se arregla con dar buenos ejemplos. Hay una orden económico que es preciso cambiar.
    
    - Sí, Gustavo, estamos de acuerdo. Pero, encandilados por esa transformación del ordén económico, ustedes se meten la moral en el bolsillo, y en eso están completamente equivocados. (...) Mirá, ustedes que tienen a Marx pegado con alfileres, podrían recordar de vez en cuando que Marx habla de la economía política, de las ciências de la riqueza, como uma verdadera ciência moral, la más moral de todas las ciências. (...) ¿Qué harían vos y todos tus revolucionários sin corbata, con la posibilidad de um cambio de estructura, como tanto les gusta decir, y con la imediata entrega de esa estructura recién cambiada a um malón de tipos inmorales, ambiciosos, maniobreros, fallutos?
    
    - Todos ustedes son así: aparentemente ven claro, pero en el fondo son destructivo. Sólo sirven para inventariar los defectos, las carências.

    - No Gustavo, la diferencia sólo es de ritmo. Yo creo que la única transformación eficaz vendrá por la educación política, y ésta requiere su tiempo.”



[1] Gracias por el fuego de Mario Benedetti
[2] E do porquê nunca acreditei na revolução ou no socialismo.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

#vamostrabalharBrasil

Ontem foi a final da Copa das Copas. Acabou! Para seleção brasileira acabou antes, mas definitivamente não vale nenhuma reflexão sobre o futebol. Passamos por esse mega evento e por todos os holofotes. Diante do que esperávamos de manifestos, foi ótimo. Minha hipótese é que a baixa adesão às manifestações ocorreu pelos seguintes motivos:
  • Nenhuma apologia sensacionalista dos veículos de imprensa a favor dos manifestos (ao contrário coberturas neutras, discretas e quase recriminatórias);
  • A percepção tardia de que o manifesto foi usado para baderna e não para civilidade;
  • A melhor organização do policiamento e um trabalho preventivo de inibir aglomerações indevidas;
  • O esvaziamento da sensação de que manifestar resolve.

E devemos refletir principalmente por esse último, a falta de esperança, pois é isso que nos move. Como já defendi anteriormente felicidade está em muito atrelado à expectativa. Esperança em alguma medida nada mais é que expectativa. Expectativa em uma visão mais técnica da economia é o que movimenta a economia (pois na expectativa de melhora se consome mais, se tem maior disposição a investir e a roda gira! Infelizmente a expectativa ruim faz exatamente o oposto).

Eu já acreditei na revolução branca, por dentro da instituição, sem quebras abrutas. Já tenho minhas dúvidas se a força da transgressão é capaz de superar a da acomodação, os custos de quem têm a perder são concentrados demais. Não acredito em revoluções e exatamente por isso, grandes mobilizações nas ruas não me transmitem esperança. Essa minha descrença é simplesmente por não achar que o modelo geral esta errado: vivemos uma democracia e não acho que há nenhum sistema melhor para substituir o que está ai. Dai o risco do esvaziamento, da desesperança, que acredito assola a muitos atualmente. O caminho da mudança passa pelo voto, mas ninguém acredita muito que seu voto mudará substancialmente nada.

Espero que a eleição possa mudar alguns nomes. Acredito que a maior parte do povo brasileiro queira mudanças e isso seja refletido nas urnas. Contudo, eu também entendo que por mais haja mudanças, não será uma revolução branca, pois são instituições de maturação lenta. E essa lentidão gera nossa desesperança, nossa falta de grande expectativa.

Daí, compartilho minha reflexão a favor do movimento #vamostrabalharBrasil, que nada mais é: cada um faça sua parte, e o caminho passa por trabalhar, cada um dar seu melhor e focar no seu, esquecer de projetar o seu futuro no outro.  Devemos parar de nos afundar em criticas que só levem a baixa estima geral. Não acho que devamos também ficar enaltecendo nada per se, pois já vimos que não é uma “seleção de heróis” que vai garantir para nós nenhum futuro. O ‘vamos’ implica no ‘nós’ subjacente. Eu vou primeiro torcendo para que isso inspire o outro! A mudança tem de ocorrer em cada um de nós, desde o engajamento com o trabalho e a construção de algo melhor, perpassando pela forma de crescer, os valores desse crescimento. Fazer algo dentro de padrões que queremos que os outros façam com o que é de todos. O que muda é o exemplo! E não podemos esperar isso primeiro de quem nos representa, tem que partir de nós!

(...)

Enquanto isso, em Brasília, na contramão de toda essa defesa: escutei hoje que querem votar a redução da jornada de trabalho de 44h para 40h semanais. Simplesmente gerar ainda mais custos para quem quer empregar e trabalhar (ou vocês acham que alguém vai ter ganho real de salário com isso? Os custos são sempre repassados!). Alguém acredita no mercado e na boa regulação entre quem quer trabalhar e quem quer empregar? Espero que sim, e que essa votação não siga e vire ainda mais custo, sob argumentos estapafúrdios de que existem países que trabalham menos e produzem mais, pois nesses países, se tem algo que ainda não temos (e que não é essa lei e esse excesso de regulação trabalhista): produtividade baseada em capital humano!


#deixaeutrabalharBrasil

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Legado da Copa do Mundo do Brasil

O tempo passa rápido, e já estamos a menos de 20 dias para a Copa do Mundo. Pensar que tem 2 anos que me desliguei desse assunto no cotidiano e infelizmente o debate continua no mesmo tom de críticas que não constroem e revoltas. Temos o que criticar e talvez até mesmo motivos para revoltar, mas diante disso tudo continuam falando cada qual de acordo com o que lhe convém, sobre legado. O que e qual é o legado da Copa? A reflexão de hoje é mais simples, e um tanto mais óbvia, é quase um desabafo.

Quando o país decidiu sediar os jogos, assumimos uma série de obrigações para ter um direito: sediar os jogos e ter toda a visibilidade derivada. Todos os custos envolvidos na organização dos jogos justifica essa visibilidade? Não sei e quem fala que sabe tá chutando (podem me enviar um estudo bem feito disso que ainda não vi nenhum). São custos e benefícios muito difíceis de mensurar, por exemplo:

Um grande professor meu, que tenho muita admiração, sempre me questionou quando eu falava que Legado da Copa eram os Aeroportos – ‘precisamos da Copa para ter Aeroportos?’ era sua ponderação. Racionalmente claro que não, afinal é investimento em infraestrutura que representa a Nova Economia (tudo que não vai pela internet, tende a ir de avião[1]). Mas qual o motivo do Brasil não ter feito investimento em Aeroporto antes? Falta de senso de urgência[2], e a Copa propiciou isso. Caso os investimentos fossem bem planejados (ou seguissem um planejamento de infraestrutura independente da Copa) seria uma sinergia ótima e o Legado da Copa seria a infraestrutura que deriva dela por um motivo pontual e urgente, mas atende um objetivo maior que tem plena justificativa. Portanto, ora pois, os custos e benefícios envolvidos são bem complexos, e o senso de urgência tem de ser ponderado nessa conta.

Outro ponto de grande debate reside sobre os estádios, esses sim, exclusivos para a Copa do Mundo! Ou não? Ou teríamos demanda por eles para além da Copa? (quase ninguém gosta de futebol em nosso país, né?). Nesse ponto, o Brasil da nossa atual base governista é foda: escolheram fazer em 12 cidades para atender algumas demandas políticas (e isso gerará uns 2 ou 4 estádios mais ociosos), custo Copa e não é um bom legado, legado no sentido daquilo que fica depois que algo vai embora. São escolhas do nosso país (mesmo eu não tendo votado no atual governo, não deixa de ser nossa escolha: custo democrático!).  

Contudo, tirando esses 2 ou 4, acredito no legado dos estádios, pelo menos acreditava no seu potencial: futebol profissional e equipamentos com nível de serviço como os de padrão internacional (EUA e Europa). Digo potencial, pois precisa ter decisão de boa regulação, profissionalização desse segmento, e isso envolve ter clubes de futebol engajados nesses equipamentos e dispostos a aumentar o nível. Digo acreditava, pois basta ver os resultados deficitários e os níveis de serviço que evoluíram pouco para ver que não virou o que poderia virar! Infelizmente a Copa não mudou o cenário dessa cultura do futebol, ou será que mudou e eu que não percebi ainda? Como disse, é uma conta complexa.

Esse tal legado veio a minha mente de novo, tendo em vista a polêmica envolvendo a Joana Havelange e a frase infeliz de que ‘o que tinha que ser gasto, roubado, já foi’. A intenção dela era boa, e tenho de concordar: o custo já é nosso e o benefício? Já falei nesse blog sobre minha opinião acerca do que fizemos na Copa das Confederações com as manifestações: criamos mais custo. Vendemos uma imagem de um país com alto custo e alto risco! Vendemos pra o mundo nossos problemas, e ninguém lá fora quer comprar problema. Deixamos de vender nossas soluções para atrair e fazê-los comprar nosso mercado (investir em nós). Infelizmente, acho que o cenário vai repetir, e vamos ter mais custo social de tempo perdido em congestionamento de manifestação, crise de imagem, etc. Bom, a ideia de fazer a copa e vender alegria era uma intenção boa, reforçava a ideia de legado.

Em falando de imagem, bom lembrar que os aeroportos vão ficar prontos depois da Copa. Na linha do meu professor, tanto faz, o importante é que vamos ter Aeroportos melhores no futuro. Concordo e espero que sejam bem melhores, aposto na Aerotrópole de Belo Horizonte, independente da Copa. Por óbvio, que na imagem de quem vem, vai ser caos, vai ser a imagem de um país que não consegue entregar o que planeja, infraestrutura deficiente, etc....bem, é só imagem.....

Estou meio ranzinza, e repetitivo, tenho de confessar. Meio desiludido com o assunto Copa, e seu legado. Por isso não falarei mais das críticas de Copa e dos estádios no blog. A Copa já foi (ou será que pode piorar ainda mais a imagem? A Joana bem que tentou motivar a ideia de criar um clima bom para vender o país, ela tem sua dose de razão, os próximos dias vai dar muito o tom da imagem que irá ficar). Os estádios.....tomara que virem legados de orgulho um dia! “Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter....” ‘QUEREMOS?’[3].



[1] O livro Aerotrópole de John Kasarda ilustra muito bem essa mentalidade da importância dos Aeroportos na Nova Economia.
[2] Pode achar que é falta de vergonha na cara dos nossos governantes, mas instituições levam tempo, e se estamos assim agora, é fruto de um caminho percorrido e por escolhas que fizemos enquanto coletividade. E que nada tem haver com a Copa.
[3] Breve menção aos poetas do Engenheiros do Hawaii

terça-feira, 25 de março de 2014

Transparência: prática ou discurso vazio?

Como parte de um serviço voluntário atual junto a uma OS de cultura que desempenho, acompanhei de perto a execução do relatório de gestão do 1º ano de atividade dessa OS frente à gestão de um museu. Com muito orgulho mostrei o documento a um amigo e ele logo soltou uma boa crítica sobre o valor desse tipo de documento (nada como bons amigos para debates sinceros!). Por óbvio fiz minhas defesas sobre o caso específico ao escutar (e quem me conhece sabe que na hora não concordei de modo algum!), mas não deixei de levar as reflexões comigo.

A palavra transparência está banalizada de tanto que é usada em discursos políticos e por “líderes” em total descompasso com a prática. Muito discurso e pouca efetividade. Na minha época de graduação a ideia de ser transparente era como terno em reunião com Secretário de Estado: peça obrigatória. Felizmente no que tange a transparência tínhamos discussões bem críticas de que essa obrigatoriedade per se não valia nada (infelizmente demorei a criticar o uso dos ternos, que só aboli como peça obrigatória nos anos recentes). Quando ocupei cargo de gestor público cheguei a vivenciar a legislação da transparência entrando em vigor, sendo mais um exemplo de algo que deveria ser natural vira lei (e a crença de que isso resolve alguma coisa) e obrigação “burra” (aumentando nosso custo país). Quando digo “burra” é no sentido de que passa a ser um rito formal e mais um processo que se faz não pelo seu sentido, mas por ser uma exigência legal. E como toda exigência legal, cai numa rotina mecânica em que a efetividade é a menor das preocupações, mas a lei está sendo cumprida (e temos um batalhão de gente para falar, defender e julgar caso contrário!!).

Ser transparente é uma boa prática de gestão? Acredito que sim, quando se utiliza dessa transparência para comunicar bem com seus stakeholders, de modo a gerar alinhamento, dar visibilidade e reconhecimento ao que está sendo feito, valorizando as conquistas, bem como para ampliar governança (compartilhando com um número maior de pessoas os resultados). Transparência é como governança, um processo que vai sendo implantado, cultivado e que é gradativo, mas com objetivo constante. Uma boa rotina de transparência ajuda a criar instituições e uma cultura sadia de cobrança (pois o primeiro a cobrar é você mesmo diante dos resultados não alcançados), tanto no setor público quanto na iniciativa privada.

Transparência é publicidade ou accountability[1]?  Na verdade acho que é um pouco dos dois, e só assim para dar certo. Publicidade pois o bom gestor vai ver que na transparência ele ganha credibilidade pelo que conquistou, bem como não há o que esconder diante de uma prestação de contas (afinal, meta não alcançada não é crime, desde que tenha fundamentação e que não seja fracasso repetido). Assim, acredito que transparência é uma aliada poderosa de qualquer gestão (por óbvio que em empresas privadas ela ocorre de diferentes níveis, e não necessariamente é uma informação pública para toda a empresa ou para a sociedade, podendo ser focada a determinados atores).

Sempre gosto da expressão de que “não basta ser, tem de parecer”: esse é o desafio dos que já fazem e apenas são ruins de comunicar. Digamos que esse é o desafio fácil, e que o real problema da transparência é seu inverso: muita gente que parece, mas não é. Aqui cabe a crítica ao formato de divulgação das informações (os orçamentos públicos que o digam!), a falta de padrão e de objetividade nos relatórios de prestação de contas (e aqui se perde a chance de criar a cultura e institucionalizar a prática, que amadurece diante da repetição e ao contrário, caduca ou se perde diante da falta de base de comparação quando feita por diversas “inovações” que não se preocupam em explicar as mudanças feitas de um ano para o outro, ou pior diante das interrupções abruptas).

Vou tentar dar exemplos do que acredito ser boa prática e explicar melhor o racional (vou citar iniciativas que participei, mas longe de querer ser a única referência ou unanimidade[2]):

Caderno deIndicadores do Governo do Estado de Minas Gerais: mostrar os resultados de cada ano e que foram publicamente pactuados no ano anterior[3], apontando não só para o número, mas para como aquele número é calculado, e deixando claro suas limitações, e o que ele representa. A boa prática aqui é criar a cultura de ter esses números sempre divulgados, seja no cenário favorável (resultados melhorando) ou mesmo no cenário não desejado (piora dos indicadores)[4].

Matriz de Responsabilidade da Copa em Minas: mostrar o que se tinha de fazer e qual setor/departamento ou nível de Governo tinha qual obrigação. Atualiza o que foi feito e o que foi alterado no planejamento com justificativas objetivas, bem como apontava valores envolvidos em cada ação.

Relatório deGestão do Museu de Arte do Rio (MAR): mostrar um resumo do que foi feito, do que foi gasto e do que se alcançou de resultados. Baseia-se no planejamento estratégico que foi pactuado e tornado público, e relata o que foi e o que não foi atingido, justificando quando do não alcance da meta, bem como relatando a trajetória do ano. É importante tanto no que tange a registrar e criar histórico (é um museu recém-inaugurado e, portanto, está em fase de criação da cultura dessa gestão compartilhada com terceiro setor), bem como fundamental no ato de prestar contas (afinal dinheiro público é dinheiro de todos).

As iniciativas todas tem um denominador comum: são boas práticas e nenhuma delas uma obrigação legal. Todas podem ser criticadas por serem documentos de “publicidade”, mas como defendo, o bom gestor busca as vitrines e evita a vidraça. Na vitrine, por obvio que se está aberto a críticas, e toda vitrine pode virar vidraça, basta não zelar e não ter boa gestão ou bons argumentos de defesa (sabemos também que infelizmente o ambiente inóspito por vezes não permite uma discussão adequada, e reprime qualquer tipo de exposição do assunto). Mas bons gestores organizam-se para planejar, ter metas coerentes e trabalhar para alcançar, e diante disso, os resultados acontecem e a transparência de dá força, e criam as boas instituições, os controles e cobranças salutares. Geram base para que a sociedade possa avaliar outras gestões que não conseguem manter mesmo nível de transparência. O risco de todas elas é ser descontinuada, na medida em que for mais vidraça do que vitrine (o que tende a ser devido a uma falta de foco na gestão interna, com menor disposição a esse tipo de pauta). Assim o desafio da transparência é se institucionalizar, no sentido de ser vista como valor público e algo valorizado e esforço reconhecido pela sociedade, independente de leis[5].

Aqui certamente meu amigo tem razão, o que importa não é o relatório de gestão, é a gestão. A transparência é a cereja do bolo, e só faz sentido se houver consistência nas entregas e resultados ali apontados. O que faz a diferença no fim das contas é a prática, e seria muito bom ver mais prática e menos discurso em nosso país.


[1] Um termo bonito que vou traduzir de modo simples como prestação de contas.
[2] Agradeço sempre os amigos que me criticam e me fazem refletir se o caminho é o adequado, lembrando que meu ponto de vista é um ponto de vista tão somente.
[3] Aqui em um documento também de transparência chamado Acordo de Resultados, que apenas tenho a crítica de ser grande e confuso pela seu viés jurídico e com uma tendência de perda de foco em anos recentes dado a ampliação do número de metas/indicadores.
[4] Que por sua vez dependem da boa cultura de ter uma gestão orientada por metas pactuadas.
[5] Para ficar claro, se a cultura vier acompanhada de lei, ótimo! Não pode é cair no processo “burrocrático”, na crença de que primeiro vem a lei e a cultura vem na marra. Que o foco seja na formação e/ou seleção das nossas lideranças, e que se houver lei, que seja específica acerca do padrão e da rotina de prestação de contas, sem engessar ou generalizar, banalizando. 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O objetivo é ser feliz

Qual nosso objetivo? Ser feliz. Acho que ninguém negaria essa afirmativa. Talvez o desafio maior seja identificar o que nos faz feliz, como traduzimos isso em algo mais objetivo[1].

Não se trata de algo simples, e está longe de ser algo matemático[2]. Essa reflexão, sobre ser feliz e a importância disso, é fundamental para entendermos melhor o que somos e o que queremos ser, tanto no ponto de vista individual, quanto na agregação do indivíduo para o coletivo (seja o coletivo que for: uma família, empresa ou sociedade).

Recentemente li o livro “Satisfação garantida” de Tony Hsieh, e ao final o autor aponta para uma estrutura de felicidade que chama atenção pela sua simplicidade e potencial de aplicação. A felicidade, segundo apontado, estaria atrelada a quatro componentes:

·         Controle percebido
·         Progresso percebido
·         Conectividade
·         Visão/significado (fazer parte de algo maior do que a si próprio)
  

Tal lógica é bem interessante e para o ambiente de organizações é fundamental, uma vez que perpassa diretamente as noções da relação de trabalho, no que tange a controle e progresso das atividades/carreira de um individuo, bem como reflete muito do ambiente pela importância que se dá às conexões derivadas do trabalho e ao projeto que se está inserido.  Os quatro componentes refletem diretamente para a noção de motivação, algo tão importante para o esperado engajamento das pessoas no dia-a-dia.

Não sou um especialista em motivação ou gerações, mas me arrisco dizer, que os dois primeiros itens, controle e progresso, são mais ligados às gerações mais velhas, ao passo que a conectividade e visão/significado estejam mais ligados à geração Y (mais nova no mercado).

A ideia de estar em uma empresa no resto da vida é algo que foi valor, e já não é um consenso ou mesmo objeto de desejo para alguns. O contraponto disso, na minha visão, seria a autonomia do individuo, e se antes estar em uma carreira de uma grande empresa era ter controle e progresso, atualmente, essa percepção mudou, e o desafio é grande para reter talentos, e lidar com a ansiedade de progredir. Entender o caminho da carreira, e ter esse controle, é algo fundamental para qualquer profissional, pois daí ele irá dimensionar suas expectativas. Na maior parte das vezes a carreira não é uma escada em ascensão, e cabe a clareza de se entender que não haverá progresso financeiro substancial, e sim identificar outras formas de progresso. Acho que temos muito a evoluir na forma de criar esse valor na base das cadeias de operação (afinal ali se concentram a maior parte da força de trabalho e queremos que essas sejam bem formadas, cheias de talentos, e que grande parte dessa mão de obra ali continue, pois isso significa aumento de produtividade).

Por outro lado, e particularmente algo que valorizo mais, talvez por ser dessas gerações mais novas, se dá ao tema de fazer parte de algo maior que eu (e daí a importância do projeto que se envolve, de ser algo passível de crer e acreditar que é transformador). A questão da conectividade também é de grande importância, uma vez que gastamos muito tempo nas relações de trabalho (mais tempo que fora delas no meu caso), e se ver inserido em um grupo que está de fato conectado representa muito para estar feliz.

Analisando os quatro componentes, vejo claramente o desafio, já mencionado anteriormente acerca dos concursos públicos, e a cultura por trás dele. A escolha e seleção por meio de concursos foca muito no controle e progresso percebido (que particularmente acredito ser uma ilusão, pois se tem controle para com a entrada: depende do seu esforço de estudar e passar, mas tem-se pouco ou nenhum controle quanto às atividades desempenhadas, e quanto ao progresso na carreira, e que novamente carecem da variável motivação).

Algo que também agregou bastante na minha reflexão sobre ser feliz foi a leitura do blog de Mark Manson. Ele defende que a pergunta central que deveríamos fazer a nós mesmos é quanto a “Qual sofrimento você quer sustentar?”, uma vez que a escolha do caminho para ser feliz se daria pela tolerância ao lado do custo envolvido nessa escolha.

Tento exemplificar: É fácil querer ser um profissional bem sucedido. Mas esse desejo por si só é inócuo[3]. O que seria fundamental é entender que para ser um profissional bem sucedido, exige-se esforço e disso decorre um sofrimento, e estar disposto/querer sustentar esse sofrimento é o definidor da sua vida.

Por óbvio que a abordagem proposta é polêmica, mas tendo a concordar quanto a importância de se ter essa reflexão do sofrimento em mente para as decisões importantes da vida. Na ótica pessoal, podemos ser facilmente iludidos por sonhos perfeitos de que a vida é bela. Eu acho que a vida é bela sim, mas não é só feita de momentos felizes (por mais que tenhamos que buscar mais desses momentos e concentrar nossas energias em valorizar os pequenos prazeres). E o definidor da nossa felicidade tende a ser nossa capacidade de lidar com os momentos difíceis e “tristes”, os sofrimentos impostos, pois se escolhermos fora do nosso desejo de sofrimento, e não suportar a parte ruim, não vivenciaremos a parte boa[4].

Eu brinco que casei com o pior da minha esposa. Foi esse lado que pesou mais na minha decisão. Com a parte boa não precisava pensar nem um minuto, pois essa é só alegria. Contudo, a construção do dia a dia, vem com a paciência em lidar com a parte ruim do outro (e por óbvio do outro com a nossa parte ruim). Do mesmo modo, quando optei na vida por mudar de rumo minha carreira, não foi pelo lado bom da parte que eu estava estabelecido. Mudei por não estar mais disposto a lidar com o peso/sofrimento daquilo que fazia, e daí a importância de sempre ter essa pergunta em mente.

Para finalizar a reflexão, gosto de uma equação simples que ilustra bem esse tema, e que podemos fazer um apanhado geral da reflexão de ser feliz:

FELICIDADE = REALIZADO – EXPECTATIVA

Notem que esta subjacente a essa forma simplista de pensar na felicidade a capacidade de realização. Você pode sonhar em pegar a maior onda do mundo, mas somente irá realizar essa expectativa se tiver a dose certa de preparação/habilidade, e sorte (nunca despreze a sorte). O interessante é entender que para tolerar os processos de sofrimento que precisamos passar para desenvolver nossas capacidades, tanto melhor se tivermos, além da visão do que esperamos alcançar, um ambiente que seja dotado de companheirismo (e por que não de amigos), e que você consiga ter clareza do que está fazendo, como está progredindo e ser capaz de depender pouco de fatores alheios a sua vontade para chegar lá.

Felicidade e gestão, se você ainda não conseguiu ver a conexão, reflita sobre sua capacidade de ser gerente!



[1] Acreditem que para alguém como eu que adora gestão por resultados, essa métrica da felicidade é um enorme desafio! Indicadores de satisfação são cheios de vieses e riscos de mensuração, e devem ser usados com muita cautela.
[2] Ser difícil não significa que não deve ser pensado. Por isso não me entenda mal, acredito que vale a tentativa de buscar entender e criar conceitos que ajudem a desmembrar a equação do que é ser feliz!
[3] Para nossa sociedade basta ver que temos alguns milhares que sonham em ser jogador de futebol, mas uma grande parte nem se dá ao trabalho de treinar seriamente, logo, fica só no desejo de ter sido.
[4] E feliz mesmo é aquele que consegue tirar o lado bom na parte que exige mais esforço! Tai um bom desafio pessoal sempre!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Qual o papel do Ministério Público: punir ou educar?

Nas conversas de final de ano, reencontrando alguns amigos de setor público, tive uma notícia que me deixou feliz e triste ao mesmo tempo. Um dos processos que o Ministério Público (MP) abriu acerca de um tema de contratação ligada a assuntos que estava envolvido foi arquivado/encerrado. Primeiramente, importante dizer que não estive envolvido no processo (no sentido de ser citado ou ser acusado de nada), o que sempre é um alívio a qualquer gestor público. Fiquei feliz pelo encerramento, pois acredito que no caso em questão não havia de fato nenhuma sacanagem, acredito que ninguém desviou recurso público ou coisa desse nível de corrupção. Mas também confesso que fiquei frustrado em confirmar um modelo que já havia percebido: a ação do MP busca usar o pior do espírito da imprensa brasileira nos tempos atuais (faz acusação que já aparece como uma sentença de culpa, já logo quer ver sangue na mídia), e sua vocação é usar a punição pelo poder de punir e não por um viés educativo.

Como sempre busco fazer nas reflexões, quero deixar claro que minha posição aqui apresentada não é generalizada a todos os atores do MP, e eu mesmo já tive boas experiências de lidar como promotores bem comedidos e que buscavam o melhor uso do seu poder, no sentido educar, criar cultura e instituições fortes. Contudo, nesse caso a que me refiro[1], acho que vale bem a ilustração e reflexão desse papel. É importante apontar também que não vou amparar minha reflexão sobre nenhuma lei de criação ou coisa do tipo acerca do papel do MP: imagino que um sem número de teóricos já falam ou debatem o assunto e meu ponto de vista aqui é no sentido de dar luz a um enfoque que se não é complementar, eu diria, é alternativo.

Como agiu o MP: ao ver uma matéria que estava quente na mídia e que perpassava um pilar de forte viés contrário por parte da casa (contratação por inexigibilidade de licitação por notória especialização), logo se instaurou um processo que não foi lido como algo investigativo, mas sim, como algo taxativo – Erro e corrupção apontado pelo MP! Ora, pois, imagino que em alguns ou até muitos casos, o MP pode estar certo e o processo judicial que decore de sua denúncia irá comprovar isso. Contudo, como no caso em questão, o acerto não é uma certeza, ao contrário pode ser uma indício equivocado, mas o gestor acusado como infrator do erro, tem seu nome veiculado e todos os julgamentos (pelas pessoas, imprensa, etc.) já feitos com base em algo que foi tido como verdade (ora, rasga-se o pressuposto constitucional da inocência!). Para agravar, o pedido do MP pode vir atrelado a medidas taxativas de bloqueio de bens e coisas do tipo, que expõem/comprometem ainda mais as pessoas envolvidas.

Somos uma sociedade com sede de vingança, queremos manifestar, queremos ter mais “Tropas de Elite” e “capitães Nascimentos” batendo em corrupto: eu mesmo não nego esse sentimento, mas a forma como damos vazão a isso molda nossa sociedade. Todos são pessoas e, por mais que possam estar errados, temos de avaliar muito bem antes de fazer de qualquer acusação, publicar uma manchete e expor essas ditas verdades absolutas antes da devida apuração dos fatos, uma vez que as consequências afetam todo seu ambiente (familiar, profissional, pessoal, etc.).

Acho que MP é importante? Diria que essencial! É um ator na governança de nossa sociedade, um zelador da coisa pública em sua essência. Um exemplo de ação de zelar bem é algo que vi nosentido de investigar compra de mobiliários milionários pelo Tribunal de Contasdo Ceará (sem um MP quem faria isso?).

Acho que a postura do MP é adequada? A resposta está no cerne da reflexão do presente post: tenho minhas dúvidas. Acho que vivemos certo exagero atrelado ao ímpeto de esgotamento da nossa paciência enquanto sociedade para a ineficiência pública. Não usei o termo ineficiência por acaso, acho que a maior parte do nosso custo país, se deve a ineficiência e não à corrupção (essa é uma fatia pequena do nosso desperdício, mas por sua natureza, nos gera revolta em tamanho desproporcional).

O que poderia ser melhor? A busca do entendimento de um papel mais educativo (que seria moldador de uma cultura), em que use do poder punitivo nesse sentido. Vamos materializar isso e usar algumas metáforas.

No processo de ensino, pode-se punir o aluno com uma reprovação por exemplo. Quando a punição é adequada? Quando está alinhada ao interesse de gerar o comportamento desejado, de educar. Punir por punir não leva a nenhuma melhora, ao contrário, pode gerar revolta. Punir em excesso não ajuda, ao contrário, mata, leva ao limite extremo de expulsar e isolar-se do problema. Um indicador que sempre achei interessante nesse processo é a reincidência: errar é humano, persistir no erro é burrice/limitação ou, no limite, má intenção.

Quando o MP age com a pressão máxima em cima de ações do poder executivo, ele até pode ter a intenção de estar educando o Executivo (prefeito, governador e/ou presidente) no sentido de dar atenção a alguns pontos. Mas na prática, ele acaba acertando em pessoas, gestores públicos da linha abaixo do Executivo principal e, nesses casos, o efeito do MP pode gerar desmotivação, medo, aversão ao risco/empreendedorismo, fatores que culminam na formação de uma cultura de gestores públicos movidos não pelo resultado e desejo de dar certo, mas sim pelo formalismo e receio de dar errado.

Falo como gestor público que fui, e gestor privado que sou atualmente: nossa cultura é avessa ao espírito empreendedor e associamos assumir risco com ilegalidade. O risco é inerente ao papel do gestor. Toda tomada de decisão envolve risco, na medida em que envolve incerteza. Dormir bem pra mim é dormir com a consciência tranquila que agi dentro dos princípios do que é correto, sem motivações e enriquecimentos pessoais ilícitos, e fazendo melhor uso do poder a mim conferido. Dormir bem não é dormir sem risco, é saber que os riscos assumidos eram as melhores opções para os objetivos almejados.

Fechando a reflexão: por que ao invés de sair logo acusando, não se busca um processo investigativo e educativo? Por exemplo, poder pleno de investigacação e solicitação de abertura de contas dos gestores envolvidos para garantir que não há desvios (e transparência para mim sempre foi um principio que qualquer gestor que lida com recursos públicos ou privados – que não seus – deveria seguir): quem não deve, não teme. Em se constatando que não houve corrupção, deveria se buscar um entendimento junto aos envolvidos acerca do processo e um pacto educativo (que envolva multa se for o caso, simbólica e proporcional a sua capacidade de pagamento – um gestor público que ganha R$8 mil/mês não pode se ver com bens bloqueados por uma contratação de milhões, uma vez que não houve desvio): aqui o princípio da razoabilidade sempre é bem vindo, e o entendimento de que errar é humano...repetir no erro....ai é caso para outras instâncias.

Tenho certeza que muitos gestores com um espaço de diálogo e com a oportunidade de exposição de motivos de ambas as partes (pois o MP não é Deus nas suas verdades, assim como o gestor do executivo também não o é), aprenderiam com esse processo e sairiam gestores melhores. Acredito que algo menos midiático e judicial, mais dialogado e administrativo, ao invés de processos de acusação públicos, que geram grande exposição e custos pessoais, que são ao final arquivados/encerrados[2], seria mais desejável. O atual modelo alimenta a desmotivação e desesperança de uma instituição pública melhor, expulsando alguns gestores, tornando alguns absolutamente avessos ao risco e inertes diante da necessidade de ser empreendedor ou, ainda pior, criam/alimentam gestores que chamaríamos de uma casta dentre os servidores de “puta velha”.




[1] Infelizmente não irei citar o caso ou nomes aqui, para evitar qualquer exposição desnecessária. Peço desculpas ao leitor por esse desconforto.
[2] Arquivados e encerrados sem nenhuma medida de correção. Por questões formais e argumentos variados são considerados inconsistentes.