Em meio aos
debates sobre as recentes manifestações, revi por acaso o filme Gênio Indomável, que revela a vida de um
jovem (interpretado por Matt Damon) com grande habilidade intelectual, mas com traumas
(não vou me aventurar a tentar dar mais detalhes do quadro clínico), que apresenta uma falta de
vivência (se esconde na vida dos livros, sem ter vivido as experiências) e que se
vê diante da reflexão que mais o incomoda: ‘o
que você quer?’, pergunta realizada pelo psicólogo que ganha seu respeito,
vivido por Robin Williams.
A pergunta de
motivação é central, pois o que você quer,
define o que você faz! E o somatório das nossas ações define o que muda o
mundo em última análise. Assim, volto minha presente reflexão para essa questão
que é chave para a ação que se propõe a ser transformadora: saber o que se
quer. A mesma doença que contagia nossa cultura com o concurso público está por
trás da ausência dessa motivação, de se saber o que se quer. Como já defendido sob meu ponto de vista anteriormente, o que leva muitas pessoas a fazer
concurso público não é a motivação pelo serviço e sim a busca por salário e por
estabilidade. Mas essa ausência de motivação não é visível apenas no setor
público, e exatamente por isso, não é somente serviço público que é ruim.
Serviço privado também é ruim, da mesma maneira que disse para o caso público,
no caso privado isso não é uma verdade absoluta, mas longe de ser uma mentira.
Um grande diferencial na qualidade dos serviços, públicos ou privados, reside
na existência de pessoas motivadas[1].
Uma forma muito
simples de explicar meu raciocínio se apropria da figura abaixo[2], que mostra as dimensões
da forma como se organizam instituições. Tal modelo aponta para um formato de
dentro para fora, que seria o jeito de criar ambientes criativos e pessoas
motivadas, mas que infelizmente não se trata de padrão e sim de exceção. A
maior parte dos líderes identifica primeiro o
que deve ser feito, e foca só nisso. Alguns já avançaram e deram um passo
para buscar a resposta do como fazer,
e por trás dessa pergunta relativa a processos, várias empresas já se
destacaram pelos seus ganhos de eficiência, economia de despesas e ganharam
destaque por serem conhecidas por sua eficiência. Contudo, a pergunta do por quê fazer, é relegada a uma resposta
posterior, buscando justificar o que já se faz.
O caminho precisa nascer pela motivação, tanto para
empresas que querem ter um diferencial por meio de seus funcionários mais
criativos, mais dispostos e engajados, seja para pessoas, que querem ser mais
felizes e realizadas[3].
Para se motivar, a justificativa da ação é preponderante, a razão deve
prevalecer, e devemos saber o que nos move.
Precisamos de um
lado saber o que queremos fazer. Isso
remete ao nosso por quê, nossa
motivação. De outro lado, temos de casar nossa motivação com a das empresas em
que estamos, que aceitamos e escolhemos estar (e entendam setor público como
uma empresa para essa reflexão).
Caso essa
conciliação não exista, iremos nos arrastar para trabalhar, iremos ficar
ranzinzas de tanto questionar, iremos gritar e protestar. Ao passo que uma vez
que temos um alinhamento, buscamos os melhores processos, e entregamos os
melhores produtos. Chegamos a excelência, cada um fazendo seu melhor, correndo
atrás.
Quando busco
questionar e refletir sobre o papel do individuo, o faço, pois acredito que se
cada um responder à pergunta que liberta o “Gênio Indomável”, buscar sua
motivação em primeiro plano, os limites do possível se ampliam. Pessoas que
sabem o que querem, se identificam com o que fazem, buscam ser melhores e se
profissionalizar, conseguem questionar os outros (sejam dentro ou fora de
empresas) acerca do limite de ação de cada um e das decisões tomadas. Quando ‘o Chefe é o Objetivo’, construímos uma
sociedade melhor, pois deixamos de ser subordinados e passamos a ser parte do
problema.
Voltando aos
protestos que estão na pauta dos debates: o que se quer? Respostas genéricas
são fugas de encarar realidades individuais[4]. Somos uma sociedade aquém
do que poderíamos ser. E infelizmente a culpa é mais coletiva do que
individual, digo infelizmente, pois torna a resposta ao problema mais complexa,
pois não basta culpar alguns. Antes de agir é preciso entender a motivação,
para depois pensar na melhor forma de se conseguir, até chegar ao produto, na
ação.
[1] Uma
reflexão futura que irei apontar diz respeito a por que o setor privado é uma
solução melhor do que o setor público para a melhoria de qualidade dos
serviços, e minha resposta tende a apontar pelo ambiente institucional, que
perpassa pela flexibilidade e capacidade de mudança.
[2] A figura não é invenção minha e fica uma referência
que tive contato e que gerou a inspiração, apesar de também não ser a única: http://www.ted.com/talks/simon_sinek_how_great_leaders_inspire_action.html?qsha=1&utm_expid=166907-21&utm_referrer=http%3A%2F%2Fwww.ted.com%2F
[3]
Aqui a menção de um livro interessante sobre a geração Y, mas que coloca a
semântica da paixão pelo que se faz, ou seja a motivação como elemento central
na busca do trabalho de modo equilibrado com os demais aspectos da carreira: Plugged In
[4]
Querer mais qualidade no serviço público, menos corrupção: reivindicações
genéricas (legítimas, mas sem propósito de valor claro) de indivíduos que não
estão engajados com um projeto que os realize (por exemplo, servidores públicos
que participam dos movimentos, se furtam do desafio do seu umbigo, pois a eles
cabe a ação no dia a dia de enfrentamento, de questionamento, buscando o
objetivo de melhoria e no limite de decisão de sair. Claramente não motivados com o que fazem, buscam a culpa em terceiros).