segunda-feira, 24 de junho de 2013

Motivação: a importância de entender o que se quer, para fazer o que se faz.

Em meio aos debates sobre as recentes manifestações, revi por acaso o filme Gênio Indomável, que revela a vida de um jovem (interpretado por Matt Damon) com grande habilidade intelectual, mas com traumas (não vou me aventurar a tentar dar mais detalhes do quadro clínico), que apresenta uma falta de vivência (se esconde na vida dos livros, sem ter vivido as experiências) e que se vê diante da reflexão que mais o incomoda: ‘o que você quer?’, pergunta realizada pelo psicólogo que ganha seu respeito, vivido por Robin Williams.

A pergunta de motivação é central, pois o que você quer, define o que você faz! E o somatório das nossas ações define o que muda o mundo em última análise. Assim, volto minha presente reflexão para essa questão que é chave para a ação que se propõe a ser transformadora: saber o que se quer. A mesma doença que contagia nossa cultura com o concurso público está por trás da ausência dessa motivação, de se saber o que se quer. Como já defendido sob meu ponto de vista anteriormente, o que leva muitas pessoas a fazer concurso público não é a motivação pelo serviço e sim a busca por salário e por estabilidade. Mas essa ausência de motivação não é visível apenas no setor público, e exatamente por isso, não é somente serviço público que é ruim. Serviço privado também é ruim, da mesma maneira que disse para o caso público, no caso privado isso não é uma verdade absoluta, mas longe de ser uma mentira. Um grande diferencial na qualidade dos serviços, públicos ou privados, reside na existência de pessoas motivadas[1].

Uma forma muito simples de explicar meu raciocínio se apropria da figura abaixo[2], que mostra as dimensões da forma como se organizam instituições. Tal modelo aponta para um formato de dentro para fora, que seria o jeito de criar ambientes criativos e pessoas motivadas, mas que infelizmente não se trata de padrão e sim de exceção. A maior parte dos líderes identifica primeiro o que deve ser feito, e foca só nisso. Alguns já avançaram e deram um passo para buscar a resposta do como fazer, e por trás dessa pergunta relativa a processos, várias empresas já se destacaram pelos seus ganhos de eficiência, economia de despesas e ganharam destaque por serem conhecidas por sua eficiência. Contudo, a pergunta do por quê fazer, é relegada a uma resposta posterior, buscando justificar o que já se faz.


O caminho precisa nascer pela motivação, tanto para empresas que querem ter um diferencial por meio de seus funcionários mais criativos, mais dispostos e engajados, seja para pessoas, que querem ser mais felizes e realizadas[3]. Para se motivar, a justificativa da ação é preponderante, a razão deve prevalecer, e devemos saber o que nos move.

Precisamos de um lado saber o que queremos fazer. Isso remete ao nosso por quê, nossa motivação. De outro lado, temos de casar nossa motivação com a das empresas em que estamos, que aceitamos e escolhemos estar (e entendam setor público como uma empresa para essa reflexão).

Caso essa conciliação não exista, iremos nos arrastar para trabalhar, iremos ficar ranzinzas de tanto questionar, iremos gritar e protestar. Ao passo que uma vez que temos um alinhamento, buscamos os melhores processos, e entregamos os melhores produtos. Chegamos a excelência, cada um fazendo seu melhor, correndo atrás.

Quando busco questionar e refletir sobre o papel do individuo, o faço, pois acredito que se cada um responder à pergunta que liberta o “Gênio Indomável”, buscar sua motivação em primeiro plano, os limites do possível se ampliam. Pessoas que sabem o que querem, se identificam com o que fazem, buscam ser melhores e se profissionalizar, conseguem questionar os outros (sejam dentro ou fora de empresas) acerca do limite de ação de cada um e das decisões tomadas. Quando ‘o Chefe é o Objetivo’, construímos uma sociedade melhor, pois deixamos de ser subordinados e passamos a ser parte do problema.

Voltando aos protestos que estão na pauta dos debates: o que se quer? Respostas genéricas são fugas de encarar realidades individuais[4]. Somos uma sociedade aquém do que poderíamos ser. E infelizmente a culpa é mais coletiva do que individual, digo infelizmente, pois torna a resposta ao problema mais complexa, pois não basta culpar alguns. Antes de agir é preciso entender a motivação, para depois pensar na melhor forma de se conseguir, até chegar ao produto, na ação.




[1] Uma reflexão futura que irei apontar diz respeito a por que o setor privado é uma solução melhor do que o setor público para a melhoria de qualidade dos serviços, e minha resposta tende a apontar pelo ambiente institucional, que perpassa pela flexibilidade e capacidade de mudança.
[2] A figura não é invenção minha e fica uma referência que tive contato e que gerou a inspiração, apesar de também não ser a única: http://www.ted.com/talks/simon_sinek_how_great_leaders_inspire_action.html?qsha=1&utm_expid=166907-21&utm_referrer=http%3A%2F%2Fwww.ted.com%2F
[3] Aqui a menção de um livro interessante sobre a geração Y, mas que coloca a semântica da paixão pelo que se faz, ou seja a motivação como elemento central na busca do trabalho de modo equilibrado com os demais aspectos da carreira: Plugged In
[4] Querer mais qualidade no serviço público, menos corrupção: reivindicações genéricas (legítimas, mas sem propósito de valor claro) de indivíduos que não estão engajados com um projeto que os realize (por exemplo, servidores públicos que participam dos movimentos, se furtam do desafio do seu umbigo, pois a eles cabe a ação no dia a dia de enfrentamento, de questionamento, buscando o objetivo de melhoria e no limite de decisão de sair. Claramente não motivados com o que fazem, buscam a culpa em terceiros).

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Os protestos e o aumento do dólar

No último post fiz uma relação do movimento social que vem tomando as ruas de nosso país com o aumento do dólar. Gostaria de fazer um breve explicação da minha reflexão.

Primeiro, o reconhecimento de que existe mais coisa por trás do aumento do dólar do que somente os protestos. Algo inegável, que eu mesmo assumi na primeira menção a essa relação. Seria muita prepotência minha falar que todo o aumento do dólar é guiado por um fenômeno político-social como esse.

O fato é que o dólar vem subindo de forma expressiva nos últimos dias, vide figura abaixo. E apresentou variações nessa última semana bem acima da média. No último mês a variação diária média foi de 0,33%, e nos últimos 7 dias foi de 0,8%, sendo 1,26% dos protestos do fim de semana pra cá.














Fonte: Elaboração própria com base em dados do site UOL


A explicação de grande parte dessa variação reside nas questões macroeconômicas advindas da política monetária e fiscal do país. A ideia de que o Brasil pode ir contra o resto do mundo na condução dessas políticas soa no mínimo, arriscado. Não vou me atrever a entrar em grandes detalhes dessa discussão, pois não sou especialista, deixando a recomendação do livro de André Lara Resende (Os Limites do Possível) para os interessados. Vou resumir dizendo que existe uma falta de poupança crônica no Brasil, seja das famílias, seja do Governo, e principalmente do Governo Federal (que nem sequer se impõe uma Lei de Responsabilidade Fiscal - LRF para si, somente para Estados e Municípios), e que o cenário mundial exigia desde 2008, maior parcimônia na condução dessas políticas econômicas.

As recentes ações dos EUA que promovem uma expectativa de que haverá uma redução dos estímulos na economia americana, o que em outras palavras, significa uma menor oferta de dólares no mercado, sem dúvida acentua e deve ser uma das principais causas desse avanço do câmbio no Brasil (afinal, em uma explicação mais abstrata, se a perspectiva é de ter menos dólares, mais caro ele fica).

Contudo, vendo os protestos e os destaques que ele vem ganhando na mídia internacional, não posso deixar de associar tais movimentos de milhares com o aumento do risco Brasil. A explicação disso é uma lógica muito simples. Imagine que você é investidor, e tem dinheiro espalhado no mundo todo. Você começa a ver uma grande movimentação e questionamento popular generalizado, sem entender a efetiva demanda (afinal, vencido o pleito 1, o movimento ganha força e vai para o pleito 2. Não é uma greve, que se quer aumento e melhoria, e uma vez finda a negociação, retoma-se o trabalho. É algo maior, mais complexo, é um questionamento ao “modelo”, só não se tem nenhuma proposta de qual novo modelo se adotar). O que você faz: deixa o dinheiro lá ou aplica em um lugar com menos risco?

Na medida em que os movimentos continuam, e se confundem com as ondas de quebra-quebra e arruaças[1], o cenário do risco vai ficando ainda pior. Não só o risco aumenta, mas o custo também (afinal quebrar e saquear bancos ou depredar ônibus é um risco....é um custo potencial de acontecer), mas ter uma rodovia parada, problemas com a chegada e saída dos empregados por conta do transito decorrente dos manifestos, etc, é custo por hora de não produção. Se para o investidor que tem apenas dinheiro, e com a opção de movimentar mais livremente seu capital, já é tendencioso a preferência para tirar o dinheiro do Brasil no primeiro momento até as coisas se acalmarem, o que dizer para o investidor potencial. Aquele investidor que quer aportar recursos para investimentos em ativos produtivos, definitivamente, pensa algumas vezes em fazer esse movimento, certamente buscando cautela, para ver no que vai dar, ou caso ele já esteja aqui, tentando antever como ficar menos exposto ao risco[2].


Na medida que o barulho dos gritos histéricos (histeria no sentido de gritar sem saber o que se quer de factível) continuam retombando mundo afora, nossa credibilidade enquanto país pode estar linda no sentido de ganhar o apoio internacional (afinal quem é contra a liberdade em um discurso de embaixada?), mas reparem que a palavra instabilidade sempre consta nas notas internacionais....e isso representa só uma coisa: desconfiança = risco = custo país!

Assim sendo, o dólar sobe, haveremos de ter pressão inflacionária, haveremos de ter aumento dos juros (para pagar o custo país maior, e manter o capital externo que usamos para compensar nossa falta de poupança interna), e assim sendo, mais alguns milhões irão ser gastos com o pagamento de juros dos títulos públicos. Vou ficar devendo só a conta de quantas vezes esse gasto será maior que os milhões de centavos que os protestos conseguiram gerar de redução das tarifas do transporte coletivo....mas certamente, muito acadêmico vai continuar vangloriando a importância desse grito da nação. Alguns gritam, todos pagam, afinal não tem mágica[3], tem trabalho a ser feito!




[2] Veja a visão dos espanhóis, o olhar atencioso não é paixão...é avaliação de risco mesmo: http://luisabelchior.blogfolha.uol.com.br/2013/06/19/os-indignados-brasileiros/
[3] Apenas reduzir tarifa de ônibus é mágica. Reduzir tarifa de ônibus e cortar investimentos, bem essa é a triste realidade. Vale lembrar ainda que se o cenário de alto gasto público é uma das raízes do problema do aumento do dólar, dado nossa falta de poupança externa, as demandas que advém dos protestos só agravam esse cenário: não vi nenhum pleito de redução dos gastos públicos ao contrário, só mais demanda de gastos! Sempre é bom lembrar que não existe almoço grátis!

terça-feira, 18 de junho de 2013

Criticar é preciso, mas pode ser perigoso: contra quem se está protestando?

Não tem como não ver as manifestações que tomaram conta das capitais brasileiras nos últimos dias e não entrar em alguma discussão sobre as motivações e consequências desse movimento. Assim, compartilho um pouco da minha percepção, buscando adicionar pontos de vista para a leitura desses eventos e de modo que cada um faça sua reflexão e chegue a suas conclusões.

Primeiro, uma coincidência: poucos dias atrás, por um acaso revi um modelo que tenta explicar como ocorre esse tipo de movimento coletivo, buscando modelar como funciona a lógica dos aplausos em um espetáculo ou palestra[1]. Essa coincidência é interessante, pois em grande medida esses movimentos que estamos vendo, tem essa racionalidade. Como eles começaram? Provavelmente, com alguns ‘puxadores’ ou ‘celebridades’ pontuais e alguns ‘grupos pequenos de pessoas que já se conheçam’ que foram se formando em torno do tema. A base do modelo é que ele vai agregando mais adeptos aos aplausos quanto maior o volume de gente que se manifeste: ou seja, o começo é tímido, mas quanto mais pessoas apoiarem, maior o número de novas adesões que vão sendo puxadas.

Enfim, parece ser um movimento com lideranças fracas, digo fracas do ponto de vista de legítimas perante o grupo total do movimento. Começaram a surgir alguns líderes, mas algo que é emergente (quando os lideres aparecem, grande parte do grupo já se dispersou) e tem baixa representação de agenda, uma vez que deriva de propostas/reivindicações bem plurais, para não usar o termo, diversificadas.  

Em grande medida a forma como ela vai se desencadeando me faz lembrar o filme “A Onda” em que um movimento com um ideal começa a ganhar força junto a um grupo de jovens, esses ideias, na medida em que vão se fortalecendo, fazem as pessoas entrar mais de cabeça na defesa do ideal, e quando elas assustam (no caso do filme, quase matam um jovem), se observa que o grupo perdeu a racionalidade e a forma de questionar os atos pelo ideal. Espero que nada chegue nem perto dessas proporções (morte de jovens), mas em grande medida as reverberações do movimento me trazem essa sensação, de que alguns atos não desejáveis começam a fazer parte do movimento, mesmo que não de modo espontâneo e planejado, mas eles vão se fortalecendo em torno do movimento. Sei que existem aproveitadores, que pegando carona nas manifestações aproveitam para depredar, quebrar, etc, mas não é possível desassociar as coisas (ou vamos agora falar que o movimento tem pessoas registradas e que alguns não são representantes legítimos dele?). Um risco de movimentos derivados de lideranças fracas é que uma vez criados, não se tem o controle das massas, e isso se reforça pelo argumento de não se ter uma pauta clara de pleito.

Ao mesmo tempo em que vejo cenas bonitas, imagens que podem ser brindadas com título de “Viva a festa democrática”, que mostram um povo mobilizado e com senso patriótico, observo figuras e apelos genéricos de fim da corrupção, e desejo de melhores serviços públicos. Vejo expressões de milhares de jovens que querem muito ter uma causa, um ideal a seguir, e estão desiludidos com a atual conjuntura. Que se juntam ao movimento para se sentir parte de algo, mas sem saber de modo mais objetivo o que se quer. Existe um coletivo comum acerca do que não esta se gostando, mas certamente uma imensidão de individualidades acerca de quais ações práticas deveriam ser tomadas[2].

Existe uma massa de manobra sem líder, e que pode ser usada para fins não justificados. Quando se está aplaudindo, se sente parte daquele grupo vibrante, e pode-se perder a noção do que esta sendo aplaudido....vai na onda...e ai reside um grande risco. Já vi isso em movimento estudantil...tudo começa pequeno, uma reclamação quanto o aumento da mensalidade, quando se vê esta se invadindo a reitoria, e sob a menor reflexão crítica da sua ação para com os direitos e as propriedades alheias (patrimônios públicos ou privados).

Por que motivo isso veio à tona agora? Pela Copa do Mundo na sua fase de teste com a Copa das Confederações! Vamos usar a vitrine que o país tem para fazer lembrar que preferimos educação e saúde ao invés de Copa do Mundo! Certamente assinaria embaixo se fosse uma opção ou um referendo popular! Agora, por que não nos mobilizamos enquanto país no momento em que o Brasil (sob a tutela do Presidente Lula) se candidatou a sede dos jogos? Falo com muita tranquilidade o que falei em diversas ocasiões em reuniões públicas (pois fui durante dois anos de jun/10 a jun/12 gerente do Projeto Estruturador Copa do Mundo no Governo de Minas)...nao foi MG que escolheu a Copa...foi o Brasil, por meio do seu presidente democraticamente eleito (e logo, legitimo no meu entendimento[3])...portanto, uma vez que o Brasil será sede (e MG por ser um estado essencial para o pais, seja economicamente, seja pela sua historia do futebol não poderia ficar de fora), nos caberia a tarefa de fazer a melhor Copa do Mundo possível[4]. Assim sendo, estamos na contramão da mensagem de uma boa recepção ao turista internacional....estamos passando a mensagem de ambientes turbulentos e não o de ambiente turístico atrativo (que gera negócios, emprego e renda para o país).

Voltando a causa genérica da qualidade do serviço público que foi uma das principais bandeiras levantadas pelo movimento. Certamente não há nenhum motivo de orgulho para nosso país e é um tema de fato preocupante. Temos um custo de vida alto, em grande medida pesado pela carga tributária que arrecada, mas não transforma em valor público, o famoso e temerário custo Brasil! Certamente temos do que protestar, pois merecíamos um país melhor. Minha dúvida é em relação a seguinte questão: o melhor formato de protesto é tomar as ruas?

A internet e as redes sociais são mágicas e com grande poder de mobilização. Mas existem diversas maneiras de mobilização: usar uma roupa determinada; parar de comprar determinado item ou determinada lógica; se negar a pagar impostos por um dia[5], etc. Tomar as ruas é uma das inúmeras formas e a que tem efeitos não controláveis como estamos vivenciando. Se o objetivo é fazer parte de algo por uma causa genérica, certamente quanto menos estardalhaço (e aqui não quer dizer ser visto e reconhecido) melhor para o ambiente institucional do país. Ambiente institucional do país? Exato! As pessoas investem todo dia no Brasil, crises de governança e movimentos incontrolados geram com certeza um efeito: expulsam além de turistas, investidores e capital. Reparem o dólar: subindo (0,5% só hoje), não só por isso, mas essa onda não compreendida certamente contribui para tal alta. E o sentimento de confiança em um país é difícil de construir, mas muito fácil de perder[6].

Todo dedo que aponta e reivindica tem que lembrar que deixa três dedos a apontar para seu próprio peito, para seu próprio nariz, para seu próprio país. É fácil achar que está ruim, mas o que você faz para estar bom? Aos nossos jovens: o quanto os serviços que vocês fazem são melhores que o nível do serviço público do país? O quanto vocês cobram uma postura proativa e orientada para resultados dos servidores públicos que conhecem, familiares e amigos? O quanto você faz seu melhor para empreender na vida e dar bons exemplos de sucesso para o país? Criticar é preciso, mas a mudança pode começar na sua carreira profissional, na sua postura como empreendedor de transformações. Não é tão gratificante quanto fazer parte de um movimento de milhares nas ruas, mas na minha visão é mais fortificante e menos perigoso para o país.



[1]Para quem quiser ver um vídeo sobre “Standing Ovation Model” e ter mais detalhes técnicos do que cito de modo superficial:  http://www.youtube.com/watch?v=3wfLoeBjwBA
[2] A única proposta objetiva e clara e mais amplamente apoiada que vi é a briga pelo passe livre e/ou redução das tarifas do transporte coletivo.
[3] Mas que ele, justamente ele que é de um Partido a favor da Participação Popular, podia ter submetido essa decisão à referendo público, podia não é?
[4] Isso inclui as escolhas dos modelos de como fazer gastos e quais modelos seguir para honrar os compromissos assumidos pelo país, tema que abordarei com mais detalhes em posts futuros.
[5] Sei que isso é feito para questão de gasolina...só não sei as bases legais para isso e se não vira fraude fiscal.
[6] A Argentina que o diga.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Gestão por Resultados: a mentalidade e espírito que fazem toda a diferença

Primeiramente, existe todo um preconceito ao se falar de gestão por resultados no setor público, alegando que o papel do Estado é para além de aspectos gerenciais, e que não se pode falar em Estado gerencial. É fundamental quebrar essas discussões que se amparam na rotulação para evitar qualquer argumentação. Minha visão defendida é que a noção de gestão por resultados é uma metodologia, uma forma de gerenciar, e nesse sentido se aplica a qualquer governo, seja de direita, centro, esquerda, ou qualquer outra variação que queiram nominar governos. Defendo, que todo governo deveria ser orientado para resultados[1].

Minha defesa se baseia em uma premissa simples: cada governo pode escolher seus resultados. Um pode querer A, o outro B, o importante é que haja compromisso com resultados, e que isso influencie e direcione sua gestão. Aqueles que ao lerem minha defesa já se fecharam na mentalidade de que existem pessoas para além dos resultados, que governos tem que ver o social, ou algo do tipo, espero que possam refletir acerca da simplicidade da ideia: chame o que quiser de resultados, não estou defendendo que apenas se valorizem ou se orientem por alguns resultados, deixo a decisão aqui com a escolha pública. Defendo apenas que sejam feitas escolhas (pois já dizia o ditado popular, ‘quem tudo quer, nada tem’), e que sejam feitas de modo transparente, na medida que significam compromissos públicos.

Minha concepção de modelo de gestão por resultados também é simples (podemos adicionar complexidade ao modelo, na medida de sua maturidade, mas sua essência simples não pode se perder): é desejável que qualquer governo estabeleça seus resultados pretendidos, seus compromissos, e isso seja feito da forma mais transparente possível, permitindo o acompanhamento e a prestação de contas do que se fez em relação ao que se pretendia fazer.

O fato de se comprometer com resultados é de grande valor para gerar alinhamento e foco nas pessoas que compõem a instituição. Eis que aqui temos uma aplicação universal (vale para setor público e privado), de grande importância: o resultado é o que mobiliza. Uma vez escutei a seguinte frase de um grande executivo: “o Chefe é o objetivo”. Essa noção é libertadora e transformadora em qualquer instituição que tenha seus objetivos estabelecidos e alinhados, pois implica em romper com hipocrisias e demagogias, e evidencia toda e qualquer incoerência na ação, que passa a ser justificada apenas pela autoridade da força/poder.

Uma virtude para homens públicos é se comprometer com resultados: ter a coragem de fazer escolhas e assumi-las publicamente. Acredito que aqui um corte seja socialmente imperativo: separar os que se comprometem dos que se omitem. É mais fácil se omitir, estar na boa, se esquivar de compromissos, vibrar com todas as boas noticias e não assumir nenhum fracasso (afinal só fracassa quem se impõe alguma meta).


Uma necessidade: criar uma plataforma mais simples, transparente e comunicativa, acerca desses resultados que são compromissos. A comparação deveria ser entre resultados pretendidos por candidatos e partidos, e aqui se pode dizer que haveriam resultados comuns (por exemplo, todos querem melhorar a educação), e logo isso impediria a comparação. Caso isso ocorra, primeiro, teremos um pacto por algo socialmente desejado (pois se nenhuma parte se opôs, é que não se vislumbrou uma fatia significativa da opinião pública contrário a ideia), segundo, teremos um compromisso público que poderá ser passível de verificação (as complexidades e sofisticações no modelo se iniciam aqui, quando tivermos de fazer a apuração e a comparação com o contrafactual – o que teria sido sem a ação do governante), e terceiro, podemos buscar um compromisso derivado: como pretende chegar nesse caminho? E aqui certamente temos combinações relevantes para a escolha socialmente desejada, o caminho para o resultado, nada mais é que outro resultado (indicadores de produto ou de processo): uns irão optar por aumentar salário dos professores, outros poderão optar por aumentar o número de professores, e os caminhos se revelam compromissos.

Meu ideal poderia ser expresso no seguinte compromisso: Percentual de executivos que apresentam um conjunto de indicadores, passíveis de avaliação por terceiros, como seu compromisso de gestão. Seriamos uma sociedade melhor se esse compromisso ganhasse defensores. É legítimo discordar de quais resultados perseguir, mas um desperdício deixar de se guiar por resultados na gestão.



[1] Certamente acredito que o setor privado também deveria se guiar por resultados, e via de regra, o mercado funciona, pois os que não se guiam por resultados, vão sendo eliminados.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Custos concentrados, benefícios difusos: quais incentivos estão envolvidos nas negociações

Algo recorrente em impasses e dilemas nos processos de negociação diz respeito à noção de custos concentrados, benefícios difusos. Pensar nisso nos ajuda a entender o motivo de muitos entraves para algumas parcerias serem firmadas, políticas aprovadas ou propostas aceitas[1].

A noção de custos concentrados diz respeito a despesas, gastos ou obrigações que são assumidos por uma parte (ou por poucas partes), de modo que seu volume é tido como significativo (ou seja, é grande relativamente ao seu patrimônio ou condição atual). A noção de benefícios difusos, por sua vez, remete à ideia de ganhos, receitas ou direitos que são recebidos por uma parte (ou por muitas partes, o que é mais provável), que não representam muito valor (na ótica individual de cada parte).

Eis então, que a situação em que ocorrem custos concentrados e benefícios difusos representa um desequilíbrio entre as partes, e uma tem muito a perder enquanto a outra parte acredita que tem pouco a ganhar. E o resultado disso é que a negociação não avança. Vejamos duas situações em que isso ocorre:

  • O governo tem a ideia de acabar com uma determinada instituição ou autarquia[2], contudo na avaliação dele, caso haja uma resistência muito grande pelos funcionários e eventualmente algum político que tenha uma história identificada com essa organização, o benefício tem de ser muito grande (ou seja, representar uma grande economia, por exemplo), para valer enfrentar os custos que serão pequenos (se observarmos a opinião média geral), mas concentrados para esse grupo organizado que vê que pode perder sua “base”;

  • Um grupo de vários empresários, donos de terrenos, luta por uma estrada que beneficie a ligação de seus terrenos, contudo, um único vizinho, ao ver que tal estrada irá gerar maior barulho próximo a sua casa, e não tendo os mesmos fins empresariais dos demais, discorda de tal projeto. Tendo o vizinho morador muito a perder, fica o projeto comprometido, caso nenhum dos empreendedores não vislumbrem um grande benefício que justifica o enfrentamento;



São situações que descrevem tal dilema, sendo que em cada uma delas existe nuances acerca das possibilidades de resolução.

O primeiro caso, tipicamente de uma decisão de política/ação pública, retrata a maior parte, na minha mundana visão onde se aplicam tais dilemas, dado que para o governante enfrentar custos concentrados só se justificam diante de benefícios concentrados, ou a tendência é o não enfrentamento. Portanto, a solução para gerar uma ação que seria desejável do ponto de vista social (gerar economia dos gastos públicos) reside na capacidade ou oportunidade de se ter um benefício visto como concentrado (um determinado apelo público que pode gerar uma opinião pública favorável atuante, ou um fato alheio que justifique o enfrentamento político da minoria que está perdendo com essa decisão).

Já o segundo caso, representa uma realidade que diz respeito à vida coletiva, onde decisões não agradam a todos, e em alguns casos, o ganho individual é muito menor relativamente a determinadas perdas individuais, mesmo a soma ou o coletivo, sendo positivo. Aqui, um fator que funciona é o de criar compensações, seja por mecanismos públicos ou privados, tendo o desafio quanto a como precificar. Esse tipo de situação, carrega para além dos oportunistas (que criam uma dificuldade para vender uma facilidade ou aqueles que vendo a possibilidade da compensação aumentam/valorizam mais a perda), um risco derivado da postura de carona, em que atores que se beneficiem podem optar por aguardar que outros beneficiários se organizem e arquem com os custos/compensações, ficando eles apenas no aguardo da solução que os beneficie, que é provida/custeada por terceiros.

Ao começar a ter essa ideia em mente, vemos a motivação de várias dificuldades e impasses cotidianos. Discussão dos royalties do petróleo...os governos produtores tem mais a perder do que os não produtores tem a ganhar, o benefício é difuso demais para comprar a briga, a não ser que envolva uma questão de mídia e duelo partidário com os vetos presidenciais... Debate sobre mercado secundário de crédito de ICMS: é ótimo, desde que não seja na minha gestão, evitando assim, custos concentrados... Brigar por melhorias para determinada classe ou grupo social...prefiro que outro faça, e eu vou de carona.

Tudo uma questão de incentivos: nem sempre monetários, mas sempre envolvendo algo a ganhar ou perder. Ao entrar em debates e negociações, lembre disso, você está diante de algum custo concentrado? O que te parece ideal é difuso demais para ser defendido com o afinco necessário? Identificar é o primeiro passo para superar o desafio.



[1] Meu primeiro contato com o tema se deu na faculdade, estudando sobre os dilemas do federalismo e a figura do ente metropolitano com a leitura do livro “Redes Federativas no Brasil: cooperação intermunicipal no Grande ABC” de Luiz  Fernando Abrucio e Marcia Miranda Soares.
[2] Por exemplo, a ADEMG – Administradora de Estádios de Minas Gerais, dado que os principais estádios foram concessionados e se avalia que há pouco escopo para se manter uma “empresa” para esse objeto. Discutirei esse caso em mais detalhes em futuros posts.