segunda-feira, 27 de maio de 2013

Registro e informação: o arroz com feijão que nunca podemos deixar de ter à mesa

Algo que me chama atenção desde a época em que era estagiário diz respeito à organização dos registros das instituições.  O desafio de ter informações bem organizadas se aplica tanto a órgãos públicos quanto a empresas privadas para meu colosso espanto. Sou um fã de arroz com feijão (tenho que admitir, contra o politicamente correto da gastronomia, que feijão é quase uma liga universal pro meu paladar), e por isso uso a metáfora, uma vez que na minha formação gerencial, ter registro e informação é básico para o dia-a-dia da instituição a ser gerida.

Comecemos pela aplicação mais individual: nossa contabilidade pessoal. É inadmissível não ter controle dos seus gastos! Ok, não precisa ser compulsivo a ponto de saber quanto gastou com pão de sal no mês (mas se for, desde que seja feliz, ótimo também), mas o controle com base nos registros macros de quanto pagou, quanto tem que pagar, quanto recebeu e quanto tem a receber é fundamental. Tenho uma amiga que sobre finanças pessoais me diz: “Acredite em Jesus!”. Eu até que passei a acreditar, mas sei exatamente qual a fatia da ajuda divina que preciso no final do mês.

Observação mundana 1: muitas pessoas não tem controle nenhum da sua contabilidade pessoal. E sendo assim não é de se espantar que muitas empresas também apresentem registros deficitários de suas finanças, para o desespero da nação (esse é um grande motivo da mortalidade de boas iniciativas e empreendedores).  Portanto, reflexão do dia: a importância do registro.

Minha experiência no setor público me proporcionou algumas lições interessantes. Se informação é um bem básico, o processo de sua obtenção também pode derivar da iniciativa simples. Meu estágio: Projeto Abelhinha da SEF/MG, algo básico como gestão de custos das unidades fiscais, que não era feito. Algo simples como planilha de Excel, que gerou uma iniciativa brilhante de ter a informação, prover feedback sobre o gasto e os custos comparados para as unidades, possibilitou metas de redução de gasto e eis que temos um caso de sucesso do bom e tradicional feijão com arroz! A regra é simples, ter informação, ter registro dos gastos e dos custos. O foco é existente: nada de tentar abraçar o mundo com as pernas, focar apenas nas unidades fiscais e em grandes itens de gasto. O processo é básico: uma rotina implantada por não mais que cinco pessoas, incluindo os estagiários[1].

Novas experiências eu vi e vivi, e no setor público caminhei trilhas avançadas e com nomenclaturas charmosas como Monitoramento & Avaliação (M&A) ou Gestão por Resultados (GpR), mas no fundo qual era a base de tudo: registro e informação! Algum sábio já disse algo do tipo: como pode querer gerenciar aquilo que não consegue mensurar? E mais uma vez, temos de lembrar que o princípio do registro e da informação sempre tem de ser o da simplicidade. Uma máxima na agenda de M&A é o termo KISS[2].

Complicar é querer vários dados ao mesmo tempo. É querer abraçar o mundo com as pernas e saber tudo de uma vez só. O que acontece é que além de não conseguir toda a informação pretendida, se perdeu a oportunidade de conseguir a informação mais básica. O registro não realizado é informação que se perdeu para sempre. E quando falamos de registro, a menção é válida para a parte financeira, mas também para outras variáveis tão ou mais importantes: já pensou em conhecer seu cliente? Quem consome seus produtos? Muitas vezes a venda é feita de modo pulverizado e isso é complexo de se obter, mas para muitos negócios (públicos ou privados), conhecer seu publico é relativamente simples, pois ele chega à sua porta e pede para consumir (ou usar determinado bem), e ai que reside nossa história: o que você faz para saber quem é esse cliente?[3] Como registra isso?

Observação mundana 2: muitas corporações públicas ou privadas dizem um belo NADA para essa pergunta.  Isso deriva de algo ainda mais desolador, se elas mal conhecem seus números e dados financeiros, como querem conhecer seus clientes?

Mas espero que a reflexão venha para o bem dos registros: nunca é tarde para começar. E espero que a experiência do Projeto Abelhinha contagie: comece básico. Ao se deparar com o autoconhecimento da não existência de registros, cuidado com soluções mágicas.  O que te falta é um processo (uma rotina) e persistência! Software até pode ajudar, mas confesso, que a maior tendência é que ele comece atrapalhando, uma vez que se propõe como milagroso e salvador, e alem de gerar gastos, propicia a falta de foco no que importa: o registro bem feito! Portanto, se você não tem controle da sua contabilidade pessoal, não queira iniciar, usando um aparato da informática que seja complexo e que te demande inserir todos os centavos, item a item, comece com grandes linhas de receita e despesa, e tenha certeza que o resultado ao final do mês esteja alinhado ao saldo da sua conta corrente.

Querer é o primeiro passo do registro, mas é ao mesmo tempo o que menos importa. O que tem valor é implementar o registro, pois o tempo não perdoa: a contabilidade fica furada, a informação do cliente fica perdida e a capacidade de se saber como estamos evoluindo em termos de qualidade de vida continua apenas no discurso político.



[1] Depois um dos estagiários, de modo brilhante, fez um upgrade no sistema, usando Excel avançado, e o que demorava um mês para um relatório customizado, virou um CLICK. By the way: Ao contrário do que canta o Rei Roberto Carlos, esse estagiário não sou eu! Faltam-me dotes de programação de macro!
[2] KEEP IT SIMPLE, STUPID!
[3] Minha opinião é que tal resposta é basilar para todo o livro “Criando demandas”. Ou seja, ter essa resposta é essencial para saber como criar ou reinventar negócios ou iniciativas. 

terça-feira, 21 de maio de 2013

BH e as bicicletas: uma reflexão sobre prioridades e planejamento na gestão


Belo Horizonte é uma cidade conhecida pelo seu relevo acidentado. Os moradores do Santo Antonio, por exemplo, sabem bem disso. Eis que a BHTrans resolve fazer um grande programa de ciclovias em BH, o Pedala BH[1], que propõe que a cidade chegue a 114 km de ciclovia.

Fazendo uma pesquisa rápida, se vê que houve em junho de 2012 uma audiência pública na Câmara dos Vereadores[2] que debateu o assunto, e duas coisas saltam aos olhos: se falou em 280 km de ciclovia e aparece a menção a um custo de R$190 mil por km de ciclovia. Assim sendo, estamos falando de destinar cerca de R$50 milhões para ciclovias em BH, que segundo plano mencionado seriam implantadas até 2020.

A cidade é para as pessoas, me agrada essa forma de expressão que referencio no livro que li de Jan Gehl. A bicicleta além de lazer pode ser um meio de transporte, que é menos poluente e alinhado à ideia de vida saudável.

Contudo, quem está ganhando com as ciclovias? Existiu algum estudo que corrobora a viabilidade das ciclovias? Certamente existem pessoas que apoiam essa ideia, pois gostam de bicicleta e já a utilizavam independente das ciclovias, e certamente ter ciclovias é um ativo para algumas pessoas, um reconhecimento e valorização da bicicleta. Mas diante da visão do que se vê implementado, e das críticas lidas feitas por aquela parcela da população que usa bicicleta, tenho a ligeira impressão que esse é mais um caso de VAMOS FAZER do que o de DEVEMOS FAZER, um caso em que não houve planejamento suficiente, não se estudou a questão e se fez. Em que se pensou apenas na ciclovia, sem levar em conta as outras questões, onde parar a bicicleta, como sensibilizar a população, etc. Se faz e depois do passivo adquirido (dinheiro gasto, desgaste com obras, ocupação das ruas), se pensa no que não funcionou e como remendar.

Ao observar uma questão simples, da implantação da ciclovia, sua ocupação na rua, já vemos problemas. Abaixo aponto o bom exemplo nesse quessito de ciclovia a meu ver (um ser que não entende nada de bicicleta) que está no site da BHTrans, mas também um caso que não esta no site da BHTrans que nessa visão ignorante (não sou engenheiro ou arquiteto) da minha parte, mostra ineficiência e desperdício de recurso público, uma vez que existe ciclovia misturada com fluxo de estacionamento de carros, o que torna a vida de quem estaciona pior, bem como coloca a vida do ciclista em risco potencial (aqui nem vou mencionar a ausência do uso dessas ciclovias na minha observação diária).




FOTO 1 – Bom exemplo de ciclovia implantada. Não há qualquer interferência na ciclovia, que deixa fluxos (de pedestres, bicicletas e carros) bem separados



FOTO 2 – Exemplo de implantação inadequada de ciclovias em BH (região do Lourdes). Estacionamento ao invés de estar protegendo a ciclovia, está interferindo na sua segurança.

Assim sendo, fica a reflexão: qual a efetividade dessa política pública? Houve aumento do número de ciclistas? Quanto se gastou e quanto terá que se gastar ainda mais para corrigir o que não foi planejado[3]? Ciclovia é nossa prioridade? E termino com essa ideia de prioridade: a democracia nos impõe vários custos de vida coletiva, mas o risco é tudo ser prioridade, e faltar foco na ação. O que é R$1 milhão no orçamento para atender uma prioridade dos ciclistas? Certamente R$1 milhão a menos para outras ações. Enfim, podemos e talvez devamos sim fazer ciclovias. Mas podemos fazer com mais planejamento, com mais foco na ação (se é pra fazer, façamos direito), priorizando alguns trechos ao invés de querer fazer um programa de vários km de ciclovias, priorizar um itnerário que estimule e crie essa cultura, focando em um determinado trajeto que possa criar demanda (ou atender a demanda existente). 

[1] Note que é um programa de construir ciclovias...não se tem nenhuma meta relacionada ao uso de bicicletas.

[3] Acho que a BHTrans já assumiu que está revendo algumas implantações, temos de elogiar essa atitude de reconhecer. Mas ainda cabe  no seu site que fala das ciclovias falar quanto se gasta de maneira rápida e clara com cada uma das obras. Ações simples, transparência na prática que permite uma reflexão crítica maior por todos: afinal tudo tem um preço, e nos cabe priorizar.  

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Concurso público: a busca por uma carreira ou a perdição de uma cultura?


Algo que costumo perguntar quando me vejo diante de um grupo de alunos universitários é: “Quem tem pretensão de fazer um concurso público?” e, via de regra, o percentual de respostas positivas tende a ser bem superior a metade do grupo. Isso constantemente me estarrece, pois a resposta, por diversas conversas mais aprofundadas que já tive, está mais ligada à ideia de estabilidade do que ao desejo da carreira. Uma outra tristeza que nos assola é que a escolha pelo concurso tende a ser feita pela coluna da remuneração, e mais uma vez a noção de desejo da carreira, do objeto do que se irá fazer é colocada em segundo ou terceiro plano.

Obviamente, e antes de iniciar a reflexão crítica desse assunto de concurso público esse obviamente é fundamental, existem pessoas que tem extrema motivação nas suas carreiras, jovens que são apaixonados com determinadas tarefas públicas e que tem no concurso público a porta de entrada para esse sonho. Contudo, pela minha vivência e observação empírica mundana, trata-se de uma minoria, infelizmente. E feita tal ressalva, nos cabe colocar esse modelo de gestão, da forma de prover pessoas para o setor público, em reflexão.

O estatuto que tem de ser questionado é o da Estabilidade. Em um aspecto mais prático ou pragmático, o que significa estabilidade para os jovens universitários: risco zero de preocupação em perder o emprego. Contudo, também significa “pra sempre” (até a aposentadoria), e convenhamos que pensar que um jovem na casa dos vinte e poucos anos está buscando algo pra sempre é solapar o desenvolvimento profissional dele, já não bastasse o diploma que é uma escolha eterna (que se faz antes da casa dos vinte, mas que felizmente se pode mudar ao longo do curso ou fazer uma nova opção ao longo da vida).

A anedota do “pra sempre” é algo bem curioso que experimentei por acaso. Como diz meu perfil, formei na Escola de Governo da Fundação João Pinheiro, e o sistema que ingressei é um vestibular que significa um concurso público. O casuísmo dessa minha escolha decorreu de uma informação acerca desse vestibular passada por um professor de Literatura no 3º ano e minha tentativa bem sucedida no vestibular de Ciências Econômicas na UFMG e na PUC, que geraram a pressão da minha mãe para que eu iniciasse os dois cursos e depois uma reopção de curso na PUC. Quando vi que havia passado em 2ª chamada na Escola de Governo, não pensei 2 vezes, abri mão da minha vaga na UFMG, e lá estava eu com 18 anos e uma perspectiva “pra sempre”no setor público. Para sempre nunca me foi uma verdade, mas não posso negar que foi uma âncora, pois a decisão de abrir mão do “pra sempre” que fiz no último ano não é simples: você se vê sem garantias. Contudo, eu observei que a âncora gera estabilidade e segurança por um lado, mas impede o avanço e o crescimento por outro[1].

O intrigante da noção de segurança e estabilidade é que a tendência da gestão moderna é que pessoas sejam flexíveis[2], tarefas sejam alteradas, que você terá mais de uma carreira durante sua vida. E nesse sentido, o modelo de concurso e carreira pública atual no Brasil esta na contramão da modernidade.

Qual o preço disso? Desmotivação e Ineficiência.

Sabe-se na gestão de pessoas que dinheiro não motiva, a falta dele desmotiva. É o que se chama de fator higiênico. Pois bem, quando se escolhe a carreira pelo salário, o resultado é que se esforça para passar no concurso público (e existe todo um sistema de cursinhos e apostilas para a preparação nesses concursos), se fica imensamente feliz quando se passa (imagino eu), pois se tem a perspectiva de uma vida de estabilidade, em que seu salário está garantido, e se tem a sensação de riqueza, mas ai vem o dia-a-dia, as tarefas, as rotinas, e não há identificação, não há prazer, não há desafio, e se conta o tempo para cumprir a jornada, se reclama, e esse é o cenário pitoresco da desmotivação. Já vi inúmeros casos de pessoas com formações em áreas de saúde e biologia, para citar algumas, buscando cargos administrativos, muitas vezes até de nível técnico, mas que pagam bem. E já vi o reflexo desses casos, que odeiam o trabalho, e que esse vira o verdadeiro instrumento de tortura que deu origem à palavra trabalho. E vem o cômico desse nosso pacto social: jovens não vendo a hora de aposentar!

Mas fruto desse mesmo modelo de gestão nada moderno, temos o pior, a ineficiência do setor público, que tem uma de suas raízes nessa baixa produtividade do trabalhador, que em grande medida é decorrente da desmotivação dos cargos e seus ocupantes, do baixo estímulo criativo, e nesse ponto, inúmeros funcionários públicos vão apontar o dedo e dizer que é culpa do setor público. Ele que deveria prover ambientes mais criativos, melhores estruturas, e tenho certeza, 99% dos casos, vai terminar advogando que o problema é de salários baixos! (e a gente já sabe que salário não motiva e que as pessoas são livres para escolher outras funções que pagam mais, mas a âncora está ali...no pé delas).

Em um ambiente estável, ainda mais se for desmotivado, pouco tende a mudar ou mesmo a funcionar. E ao olharmos as cifras com gasto de pessoal no setor público, sabemos o quanto a ineficiência é um problema para o país: bastava esse recurso estar sendo gasto com pessoas motivadas (e aqui é fundamental dizer, que não acredito que a maioria dos funcionários públicos sejam desmotivados, mas que uma parcela significativa seja, vi com meus olhos, e qualquer 10% representa muita gente) para que as coisas funcionassem bem melhor e acontecessem bem mais rápido.

Eis que aqui introduzo o contraponto ao concurso, a necessidade de OXIGENAR, a importância da flexibilidade de criar regras e processos que permitam que pessoas entrem e saem do setor público ou de determinados cargos e carreiras. Grandes soluções ou melhorias advêm do olhar distinto ou da soma de olhares com formações diferentes sobre o mesmo problema[3].

Grande parte da justificativa para a estabilidade está na ideia de que políticos irão capturar esses cargos se não houver essa meritocracia.  Aqui duas reflexões e críticas a esse argumento: 1) por que  preocupar tanto em ter um processo meritocrático que não produz resultado? Logo, por que não introduzir elementos de gestão por resultados para os políticos não eleitos que ocupam cargos gerenciais e isso ser a decisão se fica ou não o que refletiria na sua equipe; 2) por que não optar por processos e regras que blindam parcela dos cargos, de modo que alguns como já são hoje sejam livremente preenchidos, mas uma maioria que hoje é estável, seja de nomeação pelo gestor, mas seguindo critérios mínimos, tais quais: sem filiação a partido político, com determinado curso superior, com tempo mínimo de experiência, algo que já ocorre com algum sucesso no setor privado, e que seriam seleções mais pontuais do que massivos concursos.  E para quem advoga a importância da institucionalização, da memória das instituições nas pessoas, que se crie uma regra que o gestor que não deixar um relatório com essa memória e seu contato para o apoio na transição por 6 meses, cabe processo (e isso de judicializar, nossa sociedade adora: prisão!!!, mas acredito que a maior parte do problema está nas regras e no ambiente que geram ineficiência e por isso mexendo nisso podemos dar um salto). E para os descrentes das regras, vai mais uma percepção: mesmo com as mesmas pessoas, muita coisa é descontinuada e inventada do zero.

Já se tentou reforma administrativa, e em alguma medida esse estatuto da estabilidade foi quebrado no mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso[4]. No que tange a estabilidade, foi uma reforma mais legal e menos efetiva, pois o processo de avaliação de desempenho que se implantou para gerar a perda do cargo público é uma via sacra de no mínimo 3 anos, e convenhamos, gestor sério em 3 anos ou apresenta resultado ou procura outro emprego. E gestor para apresentar resultado precisa de equipe, logo, nada flexível, e a solução tendenciosa é encostar pessoas, é gerar desmotivação (a novela que já narramos aqui).

A revolução necessária é flexibilizar e dar autonomia a gestores intermediários, focando na cobrança de resultados desses gestores, é um aparato macro, mas uma operação micro (cada gestor faz a sua). É criar uma cultura focada na entrega e não no processo. É um sonho a ser iniciado, pois os direitos adquiridos se acumulam e demandarão tempo para permitir essa micro revolução, mas acredito que pelo bem dos nossos jovens vale o esforço. Que eles busquem menos estabilidade e mais realizações[5], que eles experimentem e tenham vivências em diferentes setores, que o país crie uma cultura que não desmotive aos jovens, mas sim que incentive-os a criarem futuros sem âncoras!



[1]Para os interessados fica a indicação de um paper sobre cargos em comissão aplicados à carreira de EPPGG de minha autoria. Defesas mais acadêmicas de ideias aqui apontadas.
[2] Vejam uma de inúmeras tendências de flexibilidade ligada ao trabalho: http://exame.abril.com.br/gestao/noticias/reino-unido-poe-fim-ao-horario-rigido-e-ao-escritorio-fixo
[3] Aqui fica a indicação do livro “De onde vêm as boas ideias”
[4] Muito da reforma ou do seu diagnóstico continua válido e relevante e nem tudo, exatamente por isso, foi implementado conforme idealizado. http://www.cebes.org.br/media/File/Plano%20Diretor%20da%20Reforma%20do%20Aparelho%20do%20Estado.pdf
[5] E para aqueles que tem medo da mudança de emprego, fica a dica da ótima leitura: http://en.wikipedia.org/wiki/What_Color_is_Your_Parachute%3F

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Apresentação e Motivações desse Blog

Gestão tende a ser uma resposta para vários pontos de melhoria seja no setor público, seja no setor privado. Qualquer resposta que seja um simples Gestão é genérica, eu sei, mas acredito que seja importante dar o devido valor para esse termo. Gestão é administração, e nesse sentido envolve diversas disciplinas ou temáticas dos negócios, sejam eles públicos ou privados.

Sou Administrador, formado em Admnistração Pública pela Escola de Governo da Fundação João Pinheiro em Minas Gerais. Sou também Economista, pela PUC/MG, e acho que isso em alguma medida me ajudou a ser um administrador melhor. Fiz um MBA em Gestão de Negócios pelo IBMEC/MG. Minha formação prática em grande medida se deu durante o período do Choque de Gestão do Governo do Estado de Minas Gerais, e me aprofundei na temática de Gestão por resultados no setor público, onde tive ainda a experiência de trabalhar com a Gestão da Copa de 2014. Atualmente, saí da gestão pública e me dedico a ser um empreendedor e um gestor privado.

Acredito na formação prática, na experiencia como forma ímpar de aprendizado. Adoro a pesquisa, mas tenho uma preferência pela pesquisa aplicada. Acredito na construção interdisciplinar e na convivência com diferentes olhares e experiências. Nossa sociedade vive um momento de grande demanda social por informação de qualidade, por canais sérios e o mais isentos possíveis (sempre me pergunto se existe 100% de isenção...afinal todos temos ídeias e ideais). Minha percepção é que existe certo excesso de crítica pela crítica e pouca reflexão sobre as questões e que podem (e até devem) culminar em críticas aos gestores, tanto público quanto privados (e talvez mais ao tipo público, por ser patrimônio de todos).

Seja como for, me senti na obrigação de criar um canal de tornar públicas minhas reflexões, de compartilhar e gerar troca sob a forma de um blog, que aqui está: Reflexões sobre Gestão. Espero prover críticas que sejam construtivas e espero que os leitores e os comentários nos ajudem nisso!  

Vale-Cultura e o Brasil: vale quanto custa?


Eis que temos a Lei 12.761 sancionada em dezembro de 2012...e se cria o vale-cultura. E para começar a reflexão do caso, esclareço desde já que adoro a cultura, bem como adoro alimentação e transporte, e em alguma medida as reflexões aqui postas cabem a todo nosso sistema de vales. E a grande pergunta é: Isso vale quanto custa?

Muitos defensores dirão que tudo que irei dizer agora é uma ideologia de direita, que é partidário, capitalista...enfim, alguns jargões que ao invés de buscar uma boa discussão querem deturpar qualquer crítica sadia. Assim sendo, peço a atenção desde já, é lógico que acredito na defesa que farei abaixo, caso contrário não faria, logo é uma ideia, e parte da minha filosofia sem dúvida. Mas nada disso é partidário e se bem me recordo políticas de vales já foram feitas por políticos de direita e esquerda, e mais uma vez reitero não ter vinculação política. Assim sendo, que seja bem apreciado o raciocínio que proponho a quem interessar:

Primeira questão: por que eu sei o que é mais importante para o outro? Ou em outras palavras, por que falar ao outro para consumir algo ao invés de deixá-lo livre para consumir o que quiser?

Acredito que qualquer trabalhador que seja considerado mentalmente capaz é um ser completo e que devemos valorizar ao máximo sua capacidade de escolha. Cada um escolhe o que prefere e assim todo mundo é mais feliz. Acredito na soberania do EU, ou seja, o sujeito escolhe o que a ele lhe causa mais prazer, e deste modo, por que obriga-lo a consumir determinado objeto (ou tipo de objeto)? Enfim, me coloco na posição de qualquer assalariado e diante de uma escolha: você prefere dinheiro ou vale, se o valor for o mesmo, prefiro dinheiro, pois com dinheiro escolho o que faço (esse mês quero isso, no outro aquele outro produto, um mês cultura, no outro saúde, no seguinte roupa...) e com vale estou preso a um sistema que tem regras e que me gera amarras. LIBERDADE!

Não preciso dizer que existe mercado paralelo para esse tipo de coisa. Basta andar com mais atenção no centro da cidade, e você descobre várias oportunidades de trocar seu vale (e aqui me refiro a casos que já vi referente aos vales alimentação e transporte...o de cultura ainda é novidade....) por dinheiro: obviamente com um pequeno desconto (alguém ganhando dinheiro em cima do trabalhador com a anuência dele: TUDO PELA LIBERDADE!)

Bom, diante disso, a grande questão é: vale=dinheiro[1]? Pois a defesa do argumento do vale vai dizer que se trata de um recurso extra, e que não se tem a opção de dinheiro para o trabalhador ao invés do vale. Não tem ou não querem deixar ter? E não me falem de recurso extra, pois a empresa está pagando R$45 e descontando R$5 do funcionário, e na prática está tendo deduções fiscais em cima desse pagamento (e logo é renúncia fiscal, e estamos todos nós, enquanto sociedade escolhendo vale cultura ao invés de outros investimentos[2] que são necessários). Falou-se em R$500 milhões em 2013[3]...

Segunda questão: qual o custo de implementação da política do vale cultura (para nos ater ao nosso exemplo)?

Se não bastasse o custo de oportunidade (que é o nome bonito que se dá para essa ideia de que poderíamos estar ao invés de fazendo renuncia fiscal, investindo em coisas melhores, tipo educação e infraestrutura), ainda temos todo um custo para implementar essa política. Alguém já pensou em somar o custo do salário dos políticos e o tempo que eles gastaram votando essa lei, fora dos políticos que estão em cargos executivos, e tiveram que gestar tempo elaborando esse projeto e convencendo da relevância[4], além ainda do tempo dos gestores públicos que elaboraram apresentações, planilhas e várias justificativas para esse projeto? Bom, sem fazer conta, sei que se custa muito para implementar isso.

E ainda é bom lembrar que temos o custo que ninguém pensa: toda lei para ser aplicada exige fiscalização (caso contrario é mais uma lei que não vale nada, e que gera mais problema que solução) e fiscalizar custa e custa muito! Bom, vou assumir que não vamos criar nenhuma regulação do que pode ou não pode, pois se criar além de mais um custo (imagina fazer concurso publico para agencia de regulação do que é cultura no Brasil....), incorre no velho conhecido problema ou custo social da censura (que a Ministra pelo bom tom buscou de todo jeito negar qualquer existência).

Questão final: não seria mais fácil dar dinheiro?

Gerar uma desoneração das folhas em relação a salário, criando incentivos para que o empresário pagasse maiores salários e gastasse de modo direto com o trabalhador o que vai gastar com essa ideia de vale? Bom, obviamente o problema aqui é que essa opção é mais difícil...envolve reforma trabalhista.... e garante a LIBERDADE, que não deve estar bem cotada como geradora de votos.

Estamos no caminho certo para criar bons incentivos ao crescimento do país? Um vale a menos.



[1] E nem vou fazer conta aqui do pequeno desconto que o próprio trabalhador aceita para ter dinheiro, visto a existência desses mercados paralelos.
[2] Aqui faço uma confissão: dado que esse dinheiro poderia ser aplicado em outra coisa pior, dado que pensar que vão ser feitos metros, aeroportos, etc, pode não ser a realidade, qualquer renúncia fiscal é melhor que ineficiência de gasto público. Contudo, me esforço a pensar que o governo consegue gastar bem o dinheiro e fazer investimentos importantes!