Tendo a fazer posts com um nível de profundidade maior, e
hoje abro exceção para uma abordagem mais direta e uma questão mais aguda. É um
tema de enorme valor pois é base de reflexo de um contexto político nacional
que estamos vivendo no Brasil, e que se faz necessário e urgente abordar e
todos pressionarem para o Brasil e a BH que queremos.
Um grande amigo me disse recentemente que nosso maior problema reside na impunidade.
A justiça é lenta, logo não se tem justiça, pois parte da justiça reside no seu
timing, respeitando direitos, mas se fazendo valer. Estamos, nós os cidadãos de BH, aguardando a posse do novo prefeito
Kalil. E pairam no ar dúvidas referentes sobre a origem do dinheiro de sua
campanha. Caso o tempo passe, ele assuma, e só muito depois seja feito
alguma efetivação do que está por ora em pauta, qual efetividade teríamos?
Quanto tempo a decisão irá demorar a sair?
As contas da campanha de Dilma-Temer ainda não foram julgadas (2 anos depois da eleição). No começo uma estratégia de adiar, agora
após impeachment, pode ser bandeira para derrubar Temer e criar um governo
provisório ou algo pior.
Demora, impunidade, ausência de justiça no tempo certo.
Mesmo que fosse para falar que contas estão aprovadas, mas deixaríamos de ter
essa dúvida no ar. A sensação de impunidade corroí instituições.
Voltemos a BH. Kalil fez a campanha mais eficiente. Davi derrotou Golias. Mérito de Kalil e companhia.
Para além de termos o mesmo sentimento que se teve na
disputa do governo estadual que o PSDB perdeu para ele mesmo devido às escolhas
internas, Kalil e equipe tiveram seus méritos de usar marketing, comunicação, e
ser mais eficiente. Gastou menos da metade do PSDB. R$3,5MM, dos quais R$2,2MM
doação do próprio prefeito. Essa doação seria até digna de destaque positivo.
Aplicar do próprio bolso, uma intenção adequada de um homem público, empresário
que fez sua reputação e decide retribuir à sociedade, bancando e se dedicando à
causa pública.
Mas eis que surge o apontamento de que os R$2,2MM vieram da
venda de uma fração de um apartamento do candidato para seus filhos,
representando valorização imobiliária superior a 600% (o bem era declarado pelo
candidato por R$291,4 mil). Bem, não é tão fácil de dizer e comunicar, mas
digamos que os filhos tenham esse dinheiro declarado, com liquidez, e que os
impostos do ganho de capital tenham sido pagos. Enfim, é apenas uma questão de
comunicar.
E eis que os filhos não tinham o dinheiro. E venderam no
mesmo dia para uma empresa, cujo sócio é um empresário do partido do candidato
eleito, um outro apartamento por essa quantia. Coincidência? E tudo isso em
meio a um ciclo de alta liquidez e valorização imobiliária! Quem olha para cima
nas ruas da cidade vê como está faltando janela para afixar placa de
“vende-se”. (ironia óbvia).
Para piorar: esse valor representa mais de 60% da tal
campanha vencedora e eficiente, e que o tal empresário do mesmo partido, que
comprou o apartamento dos filhos, tem alguma retrospectiva de caixa 2,enriquecimento ilícito, dinheiro no exterior, etc. Ou seja, esse ato foi determinante para o
resultado da eleição, para além de poder representar um modelo de financiamento ancorado em premissas questionáveis.
Bem, o desenho sempre ajuda o entendimento:
E em meio a tudo isso cabe lembrar que no cerne do cenário
de “Brasil em Chamas” temos exatamente o debate de Caixa 2, uso indevido de
dinheiro em campanhas, etc. E cabe ainda lembrar que a bandeira do candidato
eleito era a de “não político”.
Espero que a visão de que os “fins justificam os meios” não
seja uma bandeira, e que a população tenha clareza que a semente determina a
produção. O solo, o clima e o cuidado ajudam, mas a semente tem o traço
genético. Um esquema de “investimento” em uma campanha que espera “retorno” é
uma semente ruim. As instituições podem coibir, a equipe pode mitigar, mas o
traço se for de um modelo patrimonialista de poder tem sua contaminação de
partida.
Serenidade em questionar. Mas sem deixar de fazê-lo e querer
respostas efetivas.
A justiça precisa definir, com direito a defesa, sem tomar
partido, mas definir. Se isso está adequado, segue o jogo. Se tem problemas de
ordem fiscal, que sejam pagos os impostos e multas, fica o alerta e educativo.
Se for uma afronta à inteligência das pessoas: que sejam definidas novas
eleições. O tempo é imperativo contra a sensação de impunidade.
