domingo, 24 de novembro de 2013

A importância da meta: o valor do compromisso moral

A similaridade entre as esferas pública e privada são cada vez maiores na minha visão. Por ter me formado e dedicado meu inicio de carreira no setor público, convivi com muitos desafios na busca de implantar um sistema de metas, pilar importante de uma gestão por resultados. Lembro-me com clareza da dificuldade e aversão de gestores públicos assumirem metas, seja na educação, segurança, saúde ou no departamento de arrecadação. Acreditava que se tratava de um problema de cultura, de um ambiente institucional pouco dotado de espírito de gestão por resultados, típico do setor público. Foram alguns anos e diversas conversas na busca de criar um ambiente mais propenso a introduzir e assumir metas. Para minha grande surpresa, deparei-me recentemente com um sentimento de aversão à introdução de metas no setor privado, e confesso que isso me gerou (e ainda gera) várias reflexões.

Quando digo metas me refiro a indicadores passíveis de mensuração e monitoramento. Digo tanto a introdução de alvos de médio prazo, que tendem ser aceitos de modo mais fácil (por estarem distante e serem mais óbvios – a exemplo de comercializar 100% de algum empreendimento imobiliário), mas principalmente o desdobramento em curto prazo (por exemplo, melhorias anuais na proficiência dos alunos, para usar agora um exemplo educacional, que poderia ser para escolas públicas ou privadas).

Certamente o ambiente institucional (processos de gestão, governança, etc) tem relação com esse ambiente avesso às metas. Entendo que há a necessidade de liderança e em alguma medida um processo top-down no primeiro momento para que as metas sejam inseridas como algo que da rotina das pessoas tanto no setor público, quanto no setor privado. Entendo também que a elaboração de metas não é ciência exata, incorre em ambientes de incerteza, e são repletos de desafios. Quando meta é ciência exata, ou seja, já se sabe que irá alcançar, deixa de ser meta, passa a ser relógio (você sabe exatamente quando o ponteiro chegará em determinado horário).

A pergunta fundamental é: qual a importância da meta? Na minha visão, a resposta seria o compromisso derivada dela. Deste modo, adianta meta não aceita pela parte envolvida? Menos do que se ela for acordada entre as partes, e digo menos, pois mesmo meta imposta, tem seu valor (é uma regra e um alvo explícito), mas acredito que quando se gera um ambiente em que todos pactuam a meta, o compromisso é maior, e tende a ser mais efetivo.

Sobre essa questão de incentivo, cabe citar o livro “Rápido e Devagar”, que discute como a mente humana é mais avessa às perdas do que movida pelos ganhos. Assim, mais do que a vontade de ganhar um prêmio atrelado à meta, existem bons motivos na nossa forma “automática” de agir, em buscar não ficar abaixo da meta, de cumprir o compromisso[1]. E é exatamente o compromisso que mais queremos no ambiente gerencial, seja público ou privado.

Estabelecer metas não é fácil, requer conhecimento técnico do assunto. No setor público tive experiência de gerenciar uma Unidade de Indicadores que buscava criar uma inteligência acerca das medidas e das possibilidades de metas, de modo a garantir o devido equilíbrio entre o viável e o desafiador, criar metas que sejam exequíveis, mas que não sejam profecias autorrealizáveis. No caso do setor privado, o conhecimento técnico é traduzido como conhecimento de mercado, e certamente, mercado tem tendência, está sujeito a oscilações do ambiente macroeconômico, alguns são mais conhecidos (determinados setores) e logo se consegue ter maior previsibilidade das faixas que ele pode oscilar e as metas tem maior equilíbrio e geram o incentivo correto (nem são fáceis demais, não mobilizando a equipe, nem são difíceis a ponto de não serem possíveis de se alcançar).

Como mencionado, em qualquer sistema de gestão por resultados, as metas ocupam papel importante e usualmente estão atreladas a sistemas de incentivos de remuneração e reconhecimento. O desafio ao estabelecer o sistema de metas é criar, como dito, o balanceamento correto, para não expor a equipe ao sentimento de fracasso, nem gerar uma falsa sensação na direção/conselho de excelência do nível gerencial, para gerar o compromisso da equipe como o alcance de um patamar melhor.

Não consigo imaginar qualquer ambiente profissional sem planejamento. Certa vez vi uma daquelas frases de efeito que estava com autoria de Kant: ''quem não sabe o que busca, não identifica o que acha”[2]. Navegar sem planejamento é não saber onde se quer chegar. Ter planejamento é ter metas, e quanto mais detalhada e desdobrada essas metas estiverem, maior a chance de sucesso da sua implementação (pois permitirá identificar desajustes e adequar caminho, no limite, redefinindo ou abortando estratégias[3]). Saber que queremos comercializar 100% de algo ou alcançar o nível adequado de proficiência dos alunos é um bom começo, mas é preciso gerar o compromisso com as equipes de vendas e os professores, para identificar como ano a ano, mês a mês, etc (depende da periodicidade de aferição do seu indicador de resultado), teremos de trajetória para atingir essa performance desejada[4]. Independente de público ou privado, a importância da meta deriva da nossa forma de pensar, e no entendimento que as metas são uma importante ferramenta para gerar compromisso com resultados em ambientes profissionais.



[1] Minha leitura aqui não é 100%, e é mais interpretativa do caso mencionado pelo autor sobre os golfistas diante de duas situações: ficar acima da meta de tacadas para o buraco versus fazer tacadas a menos. Entendendo que a meta compromissada no caso do golfe é o par do buraco.
[2] Nunca chequei essa autoria e confesso que não sou um leitor ávido de Kant.
[3] Importante destacar que é melhor abortar do que ser abortado pelo mercado.
[4] Um detalhe do exemplo é que no caso da comercialização uma vez atingido o 100%, missão cumprida e fim de papo, e para a proficiência, o desafio da manutenção se faz presente após atingido essa performance desejada alcançada.