segunda-feira, 22 de julho de 2013

Cerveja nos estádios e plebiscito: dizer ‘não’ é bem pensado?

Uma decisão sempre me incomodou: banir cerveja dos estádios. Um depoimento pessoal: nunca fui de ter uma rotina nos estádios, antes de 2011[1], devo ter ido umas 30 vezes a estádios, alguns jogos emblemáticos, algumas opções de conviver com amigos e sair da rotina. Mas tenho a boa recordação de beber cerveja no estádio. Ir ao Mineirão pra ver aquele jogo mais sem valer nada do campeonato mineiro, tomar uma cerveja e comer um tropeiro, era uma opção de lazer. Agradável, pois como era jogo ruim, significava que estaria vazio, e a precariedade do serviço era diluída pela baixa densidade no estádio[2].  

Um a parte já defendido: podia melhorar muito o serviço e tornar um estádio, de fato, um programa de lazer! Vamos na fé que esse caminho ainda será trilhado pelos operadores de estádio.

Contudo, voltando à reflexão principal, a cerveja foi vetada do estádio no Brasil! Vetada por motivos de segurança pública. Nossa cultura do dizer não, ao invés de condicionar o sim. Uma coisa é dizer, se beber não dirija, ou se for dirigir não beba: ok! Agora, aqui não pode beber? Que se crie a área dos usuários de bebida alcoólica (caso alguém ache que a externalidade que ele gere seja igual a de um fumante), mas negar e tá negado e ninguém questiona?

Sabe aquele programa de lazer, encontrei de novo: na Copa das Confederações! Como foi bom beber de novo no estádio. Poderia ter sido melhor, no que pese ter menos fila e mais opção de comida, mas diante do que temos no nosso dia-a-dia, foi bom demais! Poder beber, socializar com os amigos em plena esplanada e/ou arquibancada do Mineirão.

E por que no evento FIFA pode e depois não pode? Quais as condicionantes que o evento da FIFA tem que depois não tem como ter? Poderíamos ao menos ter a opção de liberar bebida desde que se crie uma cultura de bons serviços, boa segurança, boa disciplina nos estádios? Temos que reconhecer que não tinha nenhum copo descartado no estádio e nas ruas (seria por que o copo era top de linha, e de tão bacana, todo mundo levou de recordação para casa?). Temos de reconhecer que não teve problema de segurança, uma ou outra questão de disciplina dos torcedores, que foram atuados pelos seguranças privados (stewards, como são chamados), e que havia um bom contingente de seguranças.

Mas o que disso não é passível de se fazer no dia-a-dia dos nossos estádios? Que eu entenda é só uma questão de custar mais caro ou ser mais eficiente na prestação de serviço, e eis a beleza do mercado: tendo oferta permitida, o preço irá refletir o custo dessa oferta e haverá demanda, desde que o preço seja visto como adequado. Assim, se para ter cerveja, ou a cerveja tem que custar mais ou o ingresso tem que custar mais (ou ambos)[3], por que não regular via mercado (garantindo que o custo da segurança e da ordem é do operador, que terá seus compromissos e multas vinculadas), ao invés de simplesmente negar essa opção. Podemos dizer que se o custo for demasiado alto, e não houver demanda que compense, a decisão será por não vender ou mesmo por criar setores que se vende e setores que não se vende bebida.

Por que dizer e defender o não?  No meu espírito reflexivo, preciso ser honesto e dizer que li um livro que deveria ser obrigatório em todo o curso de economia “O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado”, de Michael Sandel. A abordagem é muito interessante ao nos colocar para refletir que nem tudo pode ser regulado por mercado, e que temos que lembrar que sempre que um bem é adquirido via mercado, estamos legitimando a desigualdade (na medida em que quem tem mais dinheiro consegue acessar relativamente mais do que quem tem menos dinheiro), e que existem códigos morais que devemos preservar e que se deixarmos apenas vigorar a lógica do mercado, isso não seria preservado, exemplo do mercado de doação de sangue (doar sangue é diferente de vender sangue: espírito cívico)[4].

Diante da leitura desse livro, fiquei me perguntando: seria a cerveja esse caso de não aplicar mercado? Acho que não, pois seja no modelo de uma cerveja mais cara, seja no modelo de ingressos mais caros, temos uma realidade de que já há uma distribuição desigual no mercado de estádio[5], no sentido de que existe uma política de preços diferenciados por jogos e setores, e que não há sentido algum pensar que tal benefício (beber cerveja nos estádios) deveria ser igualmente disponível a todos, pois existe uma restrição física da capacidade do estádio (seja com ou sem cerveja). O que estamos definindo ao negar é diminuir o prazer/felicidade daqueles que gostam de beber nos estádios (pois esse programa não existe mais), e a contrapartida (a tal segurança pública e adjacentes de civilidade), poderia ser estabelecida com serviço de qualidade!

Estamos deixando de aproveitar e fortalecer um mercado (que geraria impostos, empregos, etc) que seria o de estádios de futebol como verdadeiros programas de lazer (aos que não bebem, procurem entender, que como diria um amigo: ‘se não tiver bebida, não é fim de semana’).

Uma questão a refletir: vejo os jogos do Cruzeiro no Mineirão pela televisão e parece sempre que está vazio (esse é um problema com a política de venda das cadeiras de baixo, que são da Minas Arena). Sei que o Cruzeiro está tendo arrecadações recordes com o Novo Mineirão (as cadeiras de cima estão sold-out). Mas por que as cadeiras de baixo ou os camarotes não vendem? Pois a disposição a pagar sem ser um ‘verdadeiro’ programa de lazer, com direito a beber, é menor! Certamente existem outros problemas de gestão da Minas Arena com essa política de vendas[6], mas me parece óbvio que se tivesse possibilidade de consumir bebida alcoólica nos estádios, atrelado a boas prestações de serviço (para o cliente querer retornar), estaríamos falando de um grande mercado!

E os plebiscitos, o que tem haver com isso? Apenas o fato de que o NÃO para eles me parece mais fácil de defender: basta pensar que um plebiscito deve custar na ordem de R$500milhões. Logo, negar plebiscitos é tão simples quanto dizer que essa informação não vale R$500 milhões. Estou com isso dizendo que todo plebiscito deve ser negado? NÃO, basta mostrar uma conta que vale mais de R$500 milhões. Na minha opinião, se tivesse que ter um plebiscito deveria ser: ‘você prefere um plebiscito ou que o Governo invista R$500 milhões em estradas, metrôs e aeroportos?’ Diante desse resultado, deveríamos valorizar mais nosso voto a cada dois anos...pois o custo é alto de fazer um processo de votação!

Para resumir:

O que o dinheiro não compra? Cerveja nos estádios (espero que isso mude)

O que não tem preço? Democracia (e a liberdade subentendida por esse modelo)

Qual a melhor forma de gerenciar, por resultados ou por plebiscito? Nem preciso falar, de custo que não tem preço basta democracia!




[1] Depois de 2011, fui muito mais que isso, mas sempre a trabalho, pouco vendo e vivendo os jogos.
[2] Se fosse jogo bom, só era tolerável pelo simbolismo de ser parte da história do clube e ter vivido esse jogo bom, pois chamar isso de lazer (aperto pra entrar e corrida pra sair) é forçar a barra.
[3] Existe a opção de o custo ser internalizado pelo operador do estádio, mas que na prática não é muito realista. Pois ele só faria isso se houvesse competição (outros estádios), o que não há (cada jogo é único).
[4] Leiam o livro, o meu resumo é bem resumido e geral.
[5] Existe um problema de moral relativo a filas e cambistas, mas aqui já é outra reflexão...e está também no livro do Sandel.
[6] Infelizmente os dados gerenciais de receitas e despesas da PPP do Mineirão não são públicos/transparentes ainda, e com isso não consigo ser mais preciso em quantificar essas oportunidades/valores.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Ambiente de negócios: quando prazo deixa de ser gestão e vira risco

Uma grande aflição para qualquer empreendedor privado é quanto aos prazos em órgãos públicos. Quando menciono prazos em órgãos públicos me refiro aos processos relativos a abertura de empresa, licenciamento ambiental, liberação de mercadoria em portos, etc. Certamente, temos de ponderar que muitas das vezes existem casos de não seriedade no setor privado, que querem ter aprovação de qualquer modo e sem cumprir os devidos requisitos técnicos. Assim sendo, vamos ponderar e assumir duas premissas:

1) Processos que envolvem aprovações de órgãos públicos devem ser estritamente técnicos, dado que envolvem requisitos legais. Ou seja, devem-se observar critérios objetivos e que são aplicáveis as realidades de cada empreendimento/processo;

2) Tempo é uma variável fundamental para qualquer empreendimento privado, pois influencia diretamente em qualquer conta de retorno de capital, o que é a valoração de qualquer investimento produtivo.

Desta maneira, ter e cumprir prazo têm de ser uma variável relevante para o ambiente de negócios de qualquer sociedade, na medida em que estimula a atração de investimentos, e os benefícios decorrentes. Da mesma maneira, processos que envolvem aprovação pública devem ser técnicos e não políticos, na medida em que os impactos e requisitos de cada processo são elaborados visando (ao menos em teoria) o bem estar coletivo, no sentido de mitigar ou coibir usos inapropriados e danos a bens públicos ou de caráter de preservação, ou mesmo abuso de poder econômico e fraudes.

Certa vez, quando estava no processo de elaboração do estudo denominado Agenda de Melhorias, ainda atuando no setor público, escutei uma sugestão muito interessante de um conceituado executivo privado: dever-se-ia cria um sistema de prazo ao contrário, se em X dias não se manifestar, fica aprovado tal processo. Essa sugestão me chamou atenção e vi com bons olhos os incentivos que ela gerava, pois forçaria uma priorização por parte do órgão regulador (que aprova cada processo), forçaria uma resposta mais sistemática no sentido de manifestar em casos de falta de requisitos técnicos (documentos que compõe o processo), e criaria um sentido de urgência diferenciado, dando maior previsibilidade para o setor privado. Infelizmente, na ótica de um Estado com foco no legalismo tal ideia não encontra ressonância, pois o bem público poderia estar em risco, e a falta de pessoal poderia ser apontada, e existe uma enorme cultura contraria a qualquer inovação desse tipo no setor público.

Atualmente, vivendo e sobrevivendo no setor privado, vejo o quanto a lógica dos prazos é perversa. Imagine tentar fazer e atrair investidores, sendo que seu cronograma pode errar por alguns meses/anos, por conta de algum parecer, processo em um órgão público. Basta dizer que é o suficiente para gerar um total descrédito no seu projeto. Ou seja, você pode estar disposto a fazer tudo dentro da lei, preservar, mitigar, compensar, enfim, dar a cara à tapa, mas mesmo assim, o risco da demora existe.

Qual seria a solução? Sem duvida, a inversão de prazo faria sentido! Caso isso seja muito inovador, a preocupação com um indicador do tipo “percentual de processos realizados com menos de X dias”, no qual se gostaria de ter metas cada vez maiores com um prazo de X dias que seja decente, ou “número médio de dias para resposta dos processos”, em que a meta seria de fazer cada vez em menos tempo, seria algo fundamental para a criação de uma sociedade melhor, uma melhor relação entre público e privado, sem jeitinhos, politicagem ou favores, sendo pautado pelo rigor técnico que tais relações exigem. Ter gestão é abrir menos espaço para a deturpação (para não usar outros nomes).

Para apenas ficar com a parte do elogio[1], a Junta Comercial de Minas Gerais no processo de abertura de empresas vem mostrando ótimos retornos e previsibilidade! Talvez por ter uma preocupação na gestão por resultados do Governo do Estado em ter o indicador de Tempo de Abertura de Empresas[2] como uma de suas principais metas (sinal que quando quer e tem gestão, funciona![3]). Na mesma linha, tem-se a criação do indicador ‘tempo médio para a deliberação de pedidos de licenciamento ambiental’[4]. Sobre ambos os indicadores nessa iniciativa louvável, fica questão da transparência, que sempre pode ser melhor e deve ser um exercício continuo de se fazer entender para o cidadão[5], bem como o desafio de saber bem o que se está medindo e a melhoria de fato de tais medidas.

Risco é algo que o setor privado está disposto a correr. Contudo, ainda na visão do setor privado, risco é precificado. Quanto mais risco, mais caro, maior o preço que vou cobrar ou o retorno que vou querer para incorrer em tal risco. Como não tem almoço grátis, quem paga a conta somos nós: sociedades que apresentam risco maior, pela ausência de instituições comprometidas com prazo, por exemplo, tem menos investimentos, atraem menos empresas, geram menos negócios. Uma possível solução esta na Gestão que observe e encare isso como um resultado para nossa sociedade vir a ser melhor do que é.




[1] Sejamos construtivos, mesmo sabendo que tem um monte de exemplo de falta de compromisso público com prazos.
[2] Esse indicador pode ser visto no documento de transparência da gestão pública mineira, Caderno de Indicadores, desde 2009 (primeiro ano desse documento) até 2012. Infelizmente em 2013 esse indicador de resultado não esta no documento de transparência, mesmo sendo meta via Acordo de Resultados, que é um contrato degestão com as metas internas de cada órgão.
[3] Tal indicador está no patamar de 9 dias, e com meta para ser ainda menor (alguns países conseguem fazer em horas).
[4] Esse indicador contudo ainda apresenta patamares altos, sendo na média 126 dias em 2012 (ou seja, quase 4 meses, sendo que isso é média, e portanto os desvios podem representar tempo suficiente de não credibilidade).
[5] Nesse sentido, minha opinião é que é eles deveriam estar constantes no Caderno de Indicadores 2013, dado sua grande relevância para a criação de um Ambiente de Negócios em Minas Gerais.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Público ou privado: o que deveria estar motivando essa escolha?

Um dos temas que mais se encontra emaranhado de ideologia reside na decisão se algo deve ser público ou privado. Não vou negar que tenho uma prevalência pela posição de que privatizar é preferível. Para aqueles que já estão tachando-me de pecador, capitalista, insensível ou sei lá o que nesse momento, por favor, em nome de uma sociedade com maior capacidade de análise crítica, busque ler com o espírito mais aberto possível para compreender minha linha de reflexão acerca desse tema[1].

Duas ponderações importantes:

1) quando digo privatizar não uso na forma mais estrita da lei. Não necessariamente falo da opção de vender e tornar privado. Nesse rol de prestação privada, estou inserindo toda e qualquer forma de gestão de um serviço que passa a ser feito por entidades privadas, assim englobo, concessões, PPPs, privatizações, parcerias, etc[2];

2) quando digo entre a escolha de estar sob a gestão pública ou privada, não pretendo mudar a característica do serviço em questão, mas sim sua forma de provimento. Bens públicos dizem respeito àqueles bens que tem uma incapacidade de ser cobrado individualmente, como o velho e bom exemplo da iluminação pública: todos nós usamos e não se faz possível (ao menos, ainda não), cobrar em separado para cada um ou excluir alguém de seu uso. Mesmo respeitando que alguns bens são públicos, podemos fazer sua provisão, de modo público ou privado (continuará sendo pago por meio de impostos, taxas ou algo similar do mesmo jeito). E o que está por trás dessa decisão é o que deve nortear nossa reflexão.

Vamos a uma premissa da minha reflexão: quero serviços melhores, e enfim, acho que alguns milhares que tomaram as ruas também, mas diferente deles, estou falando de um caminho objetivo para alcançar a melhoria: privatizar e regular.

Qual a diferença do público e privado? Instituições e pessoas, mais instituições do que pessoas.

Instituições na medida em que o conjunto de regras que norteiam o ambiente, por exemplo, é radicalmente diferente: no público prevalece, ‘só pode ser feito o que está na lei’, já o privado é regido pelo ‘tudo que não for proibido é permitido’. Isso muda tudo, pois permeia um ambiente de flexibilidade e capacidade de resposta, ao passo que o outro é travado, lento, e com várias limitações e culturas de é melhor negar do que o ônus de fazer e ser questionado. Uma experiência pessoal: ser gestor público comprometido com as entregas é um peso gigantesco, uma responsabilidade tamanha e uma carga muito grande, sempre sob o risco de ser questionado pela legalidade do ato. Admiro gestores públicos comprometidos com a entrega, sei que assumem vários riscos, e isso é um ato corajoso e necessário. Contudo, como eu mesmo vivi, isso representa um peso institucional grande que adiciona o elemento de pressão e stress. Como estamos falando de pessoas em instituições, estamos falando em limitação de manter a motivação e toda uma cultura pesando em desfavor do gestor público comprometido. Acomodar, resignar, começar a achar que ‘o não tão bom’ é aceitável, pois é melhor que ‘o ruim’. Existe um ciclo da cultura do setor público difícil de ser quebrado e com muitas amarras. Sem dúvida é possível mudar, mas demanda tempo, tem um custo alto[3], e ai que o privado aparece como solução: por que não deixar a execução com quem tem flexibilidade de ação?

O setor privado não é nenhuma panaceia. Mais uma vez: nada de acreditar em mágica. Mas o ambiente do setor privado é mais flexível, e isso muda tudo, permite que mudanças sejam mais rápidas, que haja maior foco em resultados e maior velocidade de resposta e entrega. Exemplos básicos: quanto tempo se gasta para comprar material de consumo, tipo papel higiênico no setor público? Conta-se em meses. E no setor privado? Conta-se em horas, para não dizer minutos.

Certamente é possível fazer o setor público ser eficiente, e comprar papel higiênico rápido, é só planejar, fazer estoque, ser efetivo na construção dos procedimentos licitatórios, resumindo: só ter uma equipe de primeira linha. Ai reside a diferença com setor privado: o número de pessoas e o custo envolvido no processo em relação ao setor público. Se contabilizássemos o custo de pessoal apropriado em bases de cada coisa que se compra no setor público, veríamos a gigantesca distorção. Mas no setor público, a conta de pessoal é uma obrigação e será paga de qualquer modo, assim, vamos focar nas economias e falar que economizamos milhares de reais com a compra de suprimentos, enquanto gastamos milhões com a folha de pessoal. E aqui nem falo do ambiente de motivação que vai fazendo a equipe de primeira linha, perder energia e somar-se à cultura não tão desejada.

Assim, sempre que me deparo com qualquer prestação de serviço, me pergunto: por que isso já não esta com o setor privado? E eis a questão fundamental: capacidade de implementação e regulação das privatizações. Muitas vezes não temos um serviço já privatizado, pois para implementar esse processo é necessário uma equipe, um estudo, um procedimento que é custoso e exige tempo e planejamento. Mas diferente de comprar papel higiênico, estamos falando de contratos maiores (prazo e valor), que necessitam ter uma clareza acerca do chefe: qual o objetivo que ser quer? E nesse fato, acho super legítimo que diferentes governantes e ideologias definam diferentes objetivos: uns podem achar que estádios de futebol têm como objetivo não gerar gasto e se puder, gerar receita para os cofres públicos. Outros podem achar que futebol é um patrimônio público e deve ser subsidiado, e ter um estádio é um custo público (subsidiado) e o foco é ter um serviço de qualidade. Enfim, o objetivo pode ser distinto e decidido pelo sistema democrático de representação, mas seja qual for, fazer por meio de instituições privadas, com flexibilidade maior para implementação parece ter maior probabilidade de sucesso.

Pense nisso: por que não passar a execução de algo para o setor privado, uma vez estabelecido os objetivos de modo claro? Lucro legítimo se alcançar os objetivos. E que com processos bem feitos, que sejam transparentes e bem geridos, criam novos mercados na prestação de serviços (que geram novos postos de trabalho, arrecadação, etc).

Mas nem tudo são flores, pois as premissas são de que:

1) existe capacidade de construir esses processos de privatização: capital humano existe, tem que haver foco e vontade para essa agenda de privatização (nesse ponto temos de elogiar a iniciativa das concessões dos Aeroportos....já era sem tempo!);

2) existe definição dos objetivos com as prestações de serviço: e aqui a coisa já é mais delicada, envolve a habilidade de saber os resultados esperados pelo governo e a capacidade de monitorar tais resultados (um caminho grande a ser trilhado aqui, que exigirá muita transparência e uma maior competência de gestão por resultados na nossa relação sociedade-governo);

3) existem potenciais empresas privadas interessadas e com essa competência: e acabamos descobrindo que não temos um setor privado preparado, que também tem deficiências na prestação de serviços, que não é empreendedor e muitas vezes não está comprometido com a excelência da prestação de serviços (querem exemplos: nas licitações aeroportuárias de Viracopos e Guarulhos acredita-se que faltou know-how, tanto é que nas consultas para concessão de Confins e Galeão já estão se realizando exigências maiores acerca de operar grandes aeroportos).

Para fechar a reflexão vou defender um modelo que ajudei a construir, que não é perfeito, mas acredito no seu valor público e seu potencial, desde que sua regulação seja bem conduzida nos anos que se seguem. Trata-se de um grande legado que podemos deixar para Minas Gerais com a Copa do Mundo: o fim da gestão estatal de Arenas!

Qual a razão para existir uma instituição publica para fazer a operação das Arenas, cuidando de limpeza, bares, locação, bilheteria, e tudo mais que envolve o mundo do entretenimento? Durante muitos anos, o Mineirão foi mal tratado, mal cuidado, e o resultado pode ser relatado por quem vivenciou: banheiros deploráveis, serviço ruim, estrutura precária e não convidativa[4]. Fazer a gestão de uma arena no contexto público é uma insanidade, recurso nunca será a prioridade (assim esperamos), todo o mundo político quer favores e benesses nos eventos de futebol e shows, entre outros argumentos. A ausência de flexibilidade para fazer receita própria, gastos necessários tempestivamente, somados ao esvaziamento de capital humano que decorre de instituições públicas que deixam de ser prioridade construíram um ambiente nada desejável para entregar serviço de qualidade. Fazia-se o possível, mas longe do que se pode dizer de desejável[5].

Existia a demanda por serviços melhores, e a Copa do Mundo, com sua obrigação de modernizar o estádio era a prioridade que faltava para fazer do limão, a limonada. Com uma PPP, alem de cumprir a obrigação com menor comprometimento de caixa no curto prazo, passava-se a um modelo que iria observar a qualidade do serviço prestado e ao invés de pagar por uma obra, ir-se-ia pagar pela prestação de serviço, por um parceiro privado (que idealmente iria ter lucro e diminuir a necessidade de aporte público).

Vencemos a etapa de modelar, a PPP foi realizada o contrato assinado. Criou-se um modelo de indicadores de qualidade que está sendo implementado[6]. Trata-se de um desafio grande atual e em alguma medida, vale a reflexão se não teria um modelo mais simples, pois o custo de regular esses indicadores é alto. Quanto a ter um setor privado preparado, infelizmente, tenho que dizer que ainda não temos, diante daquilo que estamos vendo ser feito desde a inauguração: tem muita competência a ser melhorada[7].

A agenda de privatizar é polêmica, pois envolve muitos interesses. Muitas das vezes envolvem custos concentrados e benefícios difusos, e diante disso, se opta por manter os sistemas vigentes ao invés de buscar soluções mais eficientes para o país, serviços melhores para nossa sociedade. Enfrentar e priorizar essa agenda apresenta-se como um caminho possível. É uma causa, nobre no meu entendimento. Colocar o público e o privado no lugar certo, um planeja e regula, o outro executa e empreende. A dupla planejar e implementar se aproxima da parceria entre público e privado, em que o público delega a implementação, regula e induz um setor privado mais comprometido com a excelência e com o alcance dos resultados de serviços de qualidade.



[1] Fico igualmente aberto a argumentos pela manutenção de ser público: pode comentar!
[2] Por óbvio que para cada modalidade se tem uma série de detalhes importantes, mas para a presente reflexão esses detalhes da modalidade são secundários, como espero deixar claro. A ideia que vale é sair da execução direta em prol de um modelo de execução mais eficiente.
[3] Voltando ao meu depoimento pessoal, me vi em descompasso de tempo com a instituição: eu queria mudar em uma velocidade que geraria muito conflito e era divergente com o tempo institucional e sua maturação.
[4] E mesmo assim com grande potencial, representando o maior ponto turístico de BH. Só não sei se o turista que ia uma vez voltava.
[5] Pesquisas com usuários do Mineirão foram feitas e mostravam notas ruins ligadas a limpeza, serviço de alimentação disponível, etc.
[6] Tem-se a contratação de um verificador independente, uma espécie de empresa de auditoria para apurar os indicadores de qualidade e desempenho do parceiro privado na prestação do serviço. Imagino e espero que a transparência desses indicadores e medidas seja adotada como norma em breve.
[7] Sobre esse tema, vou voltar a falar com mais detalhes em futuras postagens, pois merece uma reflexão a parte.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Planejamento e implementação: o casamento que parece óbvio, mas não é

O estranho de ser consultor é se ver defendendo o óbvio, na medida que você parece menos inteligente do que acha que é. É algo lógico de ser defendido, mas em grande medida frustrante para o cliente que esperava alguma solução mais mágica. Sorte, milagre ou mágica (chame como quiser) só existe para quem faz a lição de casa: o óbvio. E ao falarmos de planejamento, necessariamente estamos falando de sua implementação. Não há bom planejamento que se não for implementado, gere resultados. Argumento mais que lógico, mas na prática o grande desafio gerencial.

O descasamento entre o planejamento formulado e a sua execução, ou sua implementação já foi alvo de diversos trabalhos acadêmicos, e cito, Henry Mintzberg apenas como uma referência de autor conceituado que aponta esse desafio. O grande risco dessa desconexão é atribuir o fracasso ao planejamento, e perder seu verdadeiro valor.

A função do planejamento é criar um mapa, um guia de escolhas (e logo renúncias) que abordam a melhor forma de fazer uso dos meios disponíveis e/ou dos caminhos escolhidos para se alcançar um determinado conjunto de resultados. Aqui, uma vez mais, entra a figura chave da necessidade de se identificar resultados que sejam passiveis de monitoramento, a importância do termo gestão por resultados.  E com base nisso, já podemos identificar um ponto de atenção: ao ver planejamentos que são só blá-blá-blá, que não tenham uma identificação clara de entregáveis (sejam indicadores de resultados e/ou projetos a serem executados, com marcos e metas), faça bom uso do seu poder, negue se for um consultor externo, faça algo melhor se for esforço interno, ou em vindo como imposição, manifeste-se (grite e corra).

Planejar é essencial, e aqui me recordo quando recebi uma delegação britânica que falava da organização das Olimpíadas 2012 de Londres, que ainda não tinha ocorrido, e tentavam sensibilizar algumas implicações para os Mega Eventos que viveremos no Brasil. A constatação da diferença entre nós e o Reino Unido era que eles usaram um esquema 5-4-1 e nós caminhávamos para um 2-5-3 (e isso não era a forma tática da seleção em campo[1]). Eles gastaram 5 anos planejando, 4 anos executando e um ano fazendo adaptações e correções. Enfim, não precisa dizer que nosso país planejou e se preparou pouco (a dizer que não buscou um consenso e um plebiscito na hora de validar e deu no que tá dando), partimos logo para implementação, e pagaremos o preço no maior tempo e recursos gastos em correções. Planejar é importante! Implementar o planejado é crucial. O planejamento não é lido como camisa de força, mas sim como guia, que vai sendo adaptado, buscando maximizar resultados e minimizar necessidades de ajuste após a execução. 

Assim sendo, vale a pena ficar atento ao óbvio. Garanta que tenha em mãos um bom planejamento (não caia na bobagem de que isso não tem valor e o vamos que vamos da execução vai garantir a sobrevivência da sua empresa). Planejar não é um manual rígido, e eu particularmente, sou da opinião que não existe nenhum manual que deve ser seguido do tipo preencha as lacunas vazias e siga estritamente um processo de acompanhamento. Cada instituição tem sua realidade. O importante é entender  a maturidade da sua instituição, entender o valor de se ter um mapa (PLANEJAMENTO) para que você saiba para onde está caminhando, e CAMINHAR, fazendo devido monitoramento desse mapa.

Como instituições privadas tem uma política mais complicada para tornar esse tipo de documento público (quando eles existem, e acreditem, muitas empresas grandes não tem um planejamento que possamos defender como adequado), vou me restringir a apontar alguns planejamentos da esfera pública, focando ainda em alguns que participei direta e indiretamente, fazendo a devida análise crítica.

O Plano Mineiro de Desenvolvimento Integrado (PMDI) teve a partir da sua versão de 2007 um caráter pioneiro, por deixar de ser só intenções genéricas pouco passiveis de qualquer controle social, ganhando uma versão com o tão necessário foco em resultados. Esse planejamento foi complementado pela evolução dos indicadoresde resultados que foram sendo monitorados e publicizados. Tal iniciativa merece destaque e atenção quanto a sua evolução/institucionalização, de modo a não perder a relação entre aquilo que é planejado, o que é implementado e seu devido monitoramento.

No que tange a Copa do Mundo em MG, houve um esforço pioneiro no país de se planejar, se elencar prioridades e escolhas, mas com um grau menos denso de entregáveis do que se faz necessário. Em alguma medida um esforço de se complementar tal planejamento com uma Matriz de Responsabilidade foi feito, representando uma forma de prestação de contas, bem como decorrente do entendimento de que o planejamento não é algo imutável. Contudo em pleno momento de maior pedido popular de transparência, não se vê a devida sequencia desse modelo de prestação de contas ou algo similar[2].

Por fim, um exemplo de instituição do terceiro setor, o Instituto Odeon, a OS que faz a gestão do Museu de Arte do Rio (MAR), que tive a honra de participar da elaboração do planejamento e acredito no trabalho feito (ainda bem não é?), e que demonstra um esforço de criar um documento que norteie a instituição e seja passível de monitoramento acerca dos seus resultados. Como se trata de algo recente, o ano de 2013 é decisivo para a tão importante dupla inseparável do planejamento: acompanhar e garantir sua implementação.



[1] Não estou sendo 100% fiel aos números apresentados por eles, mas a ideia é corretamente retratada.
[2] A última versão da matriz data do inicio de 2012, e em meados de 2013 já se deveria ter tido uma nova publicação dessa matriz. Existe uma publicação relativas aos gastos públicos e suas justificativas, mas que claramente representa o cumprimento de uma obrigação formal, que não faz a devida relação com os itens e metas da matriz/planejamento e não se preocupa com a forma de tornar a informação transparente.