Ontem tivemos
uma noticia bem interessante vindo do Governo de Minas: um pacote de austeridade fiscal com diversas frentes que buscam a tônica de reduzir despesas
de custeio e aumentar a proporção do investimento. Uma iniciativa louvável em
diversos aspectos, e que merece ser acompanhada em dois focos: 1) o indicador
de investimento em relação à despesa total, uma vez que isso foi apontado como
resultado desejado; 2) impacto em políticas públicas e demais resultados
setoriais.
Primeiramente,
quanto ao resultado apontado como desejado, e que concordo com sua relevância,
na medida em que existem muitas demandas por infraestrutura e um papel claro do
setor público é o de realizar tais investimentos, que ancoram o desenvolvimento
das demais relações sociais (seja via atração de empresas que vem aeroportos,
rodovias, etc, seja via melhor qualidade de estrutura para prestação de
serviços para população com hospitais, escolas, etc).
Tal resultado já
é apontado no Caderno de Indicadores, documento que traz com transparência os
resultados do governo estadual, e mostra um cenário de queda, conforme gráfico 1 abaixo. Tal queda está em muito relacionada com o cenário macroeconômico, uma
vez que com perda relativa[1] de arrecadação, e um
custeio mais difícil de ser reduzido, há uma redução em momentos de fraco
desempenho econômico de investimentos. Mas também, conforme objeto do pacote
apresentado ontem, existe um custeio que está ‘sobrando’, um custeio que pode
ser reduzido e enfrentado no sentido de fazer uma gestão mais eficiente, de
modo a ter mais recursos para investimento, e virar tal tendência de queda.
GRÁFICO 1 - PARTICIPAÇÃO DOS
INVESTIMENTOS NA RECEITA TOTAL – MINAS GERAIS 2003-2012
Fonte: SEPLAG/MG (extraído
do Caderno de Indicadores 2013)
Portanto, um
duplo reconhecimento para o Governo do Estado: 1) pela transparência de apresentar tal indicador[2] e; 2) por enfrentar o
problema de modo aberto com a sociedade. Há de se reconhecer que ter tal
transparência e enfrentamento é algo que outras esferas de governo poderiam
fazer e temos de reconhecer atitudes positivas, mesmo diante das reflexões
críticas que se seguem e que se aplicam a qualquer governo (incluindo aqueles
que não estão enfrentando tal problema).
Observando a
questão do ‘impacto em políticas públicas e demais resultados setoriais’, temos
a seguinte pergunta: o quanto esse pacote de austeridade fiscal vai comprometer
os demais resultados[3] entregues pelo governo?
Aqui ainda é cedo para qualquer análise, e ao que parece, pela menção sempre
diferenciada dos setores de educação, saúde e segurança, não se quer impactar
em nenhum desses setores, que poderíamos dizer basilares da ação pública.
Quanto aos demais setores, imagino eu, que a intenção é a mesma, criar um
espírito de corpo de maior eficiência, e fazer mais (ou no mínimo, o mesmo) com
menos.
Diante desse
quadro de novidade posto ontem, queria levantar uma reflexão que se aplica a
qualquer organização: o dilema de sua estruturação (ou reestruturação). Como
definir as caixinhas? Tal decisão, longe de ser uma resposta simples, depende
das funções, responsabilidades, competências, resultados esperados e formato da
gestão de cada organização, bem como depende da cultura institucional. Quantos
subordinados hierárquicos um executivo tem? Essa é a pergunta que precisa ser
respondida tendo em vista o ambiente de cada organização.
Algo que sempre
me chamou atenção, na minha experiência no governo, diz respeito a situações na
qual um subordinado é apenas um entrave na cadeia, pois ao ser questionado, sua
ação imediata é repassar o questionamento para seu subordinado. E isso em
alguns casos se repetia mais de uma vez na cadeia hierárquica, fazendo com que
não só a informação fique deturpada (pois o gerente de fato, repassa para o
hierárquico superior, que repassa ao seu hierárquico superior, que repassa ao
hierárquico superior, que foi quem demandou a informação), como isso represente
um custo alto, pois tem gente demais para gerente de menos[4]. É o velho ditado popular
‘muito cacique pra pouco índio’.
Hierarquia é
preciso? Sem dúvida. Uma estrutura bem compartimentada no sentido das
diferentes funções, processos e atribuições tem seu valor e produz eficiência
se bem dimensionada. Para ficar no exemplo do setor público: separar a
secretaria de educação da secretaria de fazenda tem seu valor, pois são dois
focos de negócio diferentes dentro da mesma organização, o mesmo vale
internamente, no sentido de ter uma equipe focada em ensino médio e outra
focada em ensino fundamental, cada qual com suas especificidades e rotinas que
precisam ser executadas. Hierarquia é bom para haver filtro entre os níveis
estratégico e tático, de modo que permita que o operacional flua bem.
Importante
salientar que a tendência de maior troca,
estruturas mais flexíveis e que façam mais trocas de conhecimento é
desejável e de modo algum incompatível com o modelo de organograma funcional. O
desafio para isso é criar uma cultura que gere espírito colaborativo, que seja
suscetível a inovações, etc. No meu entender, quando o resultado é o que
importa (e a governança e os incentivos da instituição apontam para isso), o
organograma deixa de ser barreira, e diferentes departamentos ou gerências
passam a buscar o mesmo resultado, que irá requerer o devido tom de
comando/controle com nível operacional (que sem hierarquia, cada hora atende
uma demanda e não sai do lugar)[5].
Deste modo, mais
ou menos subordinados é uma decisão que implica em custo (qualquer estrutura
tem suas despesas, ainda mais se houver regalias, do tipo carro, secretária,
etc), e que deve existir na medida certa do resultado que se quer. Ou seja, não
é apenas menos estrutura que é o ideal, muita das vezes é necessário gerar
algum emponderamento (interno e externo), criar um status diferenciado para
criar o devido senso de relevância, alinhar estrutura à estratégia, etc. Se no
setor privado essa conta é feita com esmero (dói no bolso do acionista), no
setor público há muita conta que deve ser feita.
Voltando ao fato
do Governo de Minas de ontem, algo interessante nesse pacote de austeridade é
entender que existe um cenário de se fazer mais (ou o mesmo) com menos. É
pensar em um cenário onde se terá mais índio para menos cacique, que vai haver
uma estrutura mais apta para fazer resultados do que para preencher cargos
disponíveis em estruturas existentes. Acabar com a ADEMG, por exemplo, achei
que esse dia não chegaria tão cedo[6]. Parabéns! Reduzir número
de secretarias, ótimo passo! Pena que não foi antes, pena que poderá ser só em
2014[7]. De qualquer modo, Minas
se apresentou para enfrentar tal questão, é um passo importante[8].
A democracia
custa caro, ainda mais caro quando a coalizão exige cargos e não somente cobra
resultados para uma sociedade melhor. Maturidade institucional demanda tempo e
vigilância crítica.
[1]
Como o próprio governo disse, não há redução nominal, e sim, uma perda
relativa, tendo em vista o cenário projetado.
[2]
Mais uma vez aqui a importância da iniciativa do Caderno de Indicadores.
[3]
Uma vez quanto ao resultado de mais investimento, se espera uma melhoria do
indicador.
[4] E
caso você tente ir direto à fonte (subordinado que interessa), instaura-se uma
crise de vaidade. Vaidade, o pecado preferido
do Diabo (referência ao papel de Al Patino em Advogado do Diabo).
[5]
Importante salientar que quanto maior e mais rotineiro, mais o nível
operacional precisa desse comando/controle. Ou seja, uma coisa é uma indústria
de qualquer bem com uma linha de produção, outra é uma equipe de consultoria.
Apesar de em ambas o nível operacional precisar de ter algum grau de autonomia,
na linha de montagem o comando/controle é muito mais necessário do que na
consultoria.
[7] Por
acaso ano que os políticos saem do executivo para se candidatar. Qualquer
coincidência mera inteligência política.
[8]
Como é um Projeto de Lei, ainda terá ampla discussão na Assembleia Legislativa,
na qual espero que pese menos a tradição e seja mais focado nos resultados.
Oi Eder, essa questão da estrutura é um estudo importante, interessante e que não é simples de fazer. Uma das dificuldades que tenho encontrado é justamente saber qual é a melhor relação cacique x índios. Um bom embasamento para chegar nessa conta é identificar o volume de trabalho dos servidores por meio de indicadores, em que se possa medir quantas pessoas são necessárias para suprir a demanda de trabalho da área. E isso envolve outras dificuldades quando não se tem uma estrutura organizacional bem organizada e claramente definida. Tem muito campo para melhoria! O que é muito bom é que esses passos estão sendo dados.
ResponderExcluirAdriana, sem dúvida é um bom desafio gerencial. Duas coisas que na minha opiniao e vivencia são relevantes sempre ter em mente: 1) o que gera alinhamento e mobilização é o resultado, e nesse sentido saber quais as entregas (os indicadores) de cada equipe de trabalho e/ou pessoa é fundamental; mas 2) o velho ditado de 'ser/manter simples', ou seja, o risco de criar um sistema muito complexo é tentador e na maior parte das vezes não vale a pena. Assim, encarar o problema e ter esse senso crítico é fundamental para o dia-a-dia do gestor.
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