segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Museus no Brasil: se cada povo tem o museu que merece, ai meu Brasil....

O horário das 19hs vem sendo duplamente ingrato para eu voltar para casa. Primeiro, o transito ruim. Segundo, pois durante a obrigatória Voz do Brasil, escuto cada coisa que só aumenta minha angústia.

Uma das noticias de hoje era sobre o Edital Mais Museus do IBRAM, o Instituto Brasileiro de Museus.

Um edital para fomentar a criação de novos museus. A fala de um dos executivos do Instituto dizia que o Brasil tem mais de 5 mil municípios e existem mais de 3 mil museus, e logo haveria grande espaço para novos museus. Fiquei boquiaberto duas vezes: 1) não acredito que temos mais de 3 mil museus!!! 2) e o Governo ainda quer mais!!!

Bem, na visão do governo país rico é país com Mais Museus, mesmo sendo medíocres. Quanto custa instalar um Museu? Minha experiência é que custa caro, ao menos se for para fazer algo bem feito, que tenha valor social. E entendo por valor social, ter visitação. Deixe-me dar números: em média, segundo relatório de gestão do IBRAM de 2010, o público médio dos museus no Brasil é de menos de 30 mil visitantes/ano. Ou seja, menos de 3 mil/mês ou 120 pessoas/dia (considerando que museu fica fechado às segundas). E se isso é média dos museus, fique tranquilo que eu conheço algumas boas referências que tem milhares de visitantes por dia e logo, deve haver muitos, nos mais de 3 mil museus, que ficam às moscas diariamente.

E por que número de visitantes é valor público? Pois, na minha tosca visão[1], o valor do Museu em preservar a cultura está em contar tal história e se ninguém escuta tal história de nada adianta e ao contrário: manter tal museu representa um custo. Sim, sim, museus como qualquer equipamento público (a exemplo de escolas e postos de saúde que tem valor público) apresentam um grande custo para serem mantidos e se não gastar o suficiente todo mês, eles vão depreciando, pois carecem de manutenção.  Aqui começa o ciclo vicioso: museu que possui baixo apelo de público, tem baixa prioridade para receber recurso público que, a seu turno, gera sucateamento, que piora do nível de serviço e reduz a popularidade. Essa piora faz reduzir ainda mais as receitas de visitação (e orçamentária), chegando ao limite de causar o efeito inverso ao que se propunha: danos patrimoniais e à cultura que se objetivava valorizar e preservar. Resultado, a proposta de se fechar tal equipamento como solução de gestão - "menos mal, menos um museu medíocre no país".

Um contraponto otimista: investir em museu pode representar um ciclo positivo. Um espaço bem criado gera visitação, que traz visibilidade, revitaliza o entorno e valoriza o equipamento, que cria público fiel, que atraí mais visitação e mais recursos, que gera maior capacidade de investimento e conservação do patrimônio material (da cultura de um país). Parece simples, mas não é. Exige gestão! Vivencio o desafio do Museu de Arte do Rio (MAR) nessa busca, uma experiência que vai indo bem nesse primeiro ano. Para falar em números, mais de 230 mil visitantes em menos de 1 ano[2]. Certamente o início de um desafio de se fazer destino, ter fidelidade e um sonho quase impossível de ser autossuficiente em termos de arrecadação própria. Um museu bem feito custa caro, exige-se investimento de milhões, exige um custo mensal de milhares de reais. O MAR não é exceção no que tange a investimentos e custo elevado. É, e espero que continue a ser, diferente no que diz respeito à visitação.

Quanto vale um museu? O Edital do Mais Museus que vi hoje aponta para cifras de R$150 a R$300 mil[3]. Que museu será esse? Mais um de milhares com visitação baixa! Por quê? Pois existem dois cenários para ser exceção: 1) se criar um ambiente magnífico que enseja a visitação pela experiência vivida (e isso não deve ocorrer pela falta de recursos e baixo nível de serviços) ou 2) se ter um acervo de grande valor cultural que tem grande apelo de público (e isso não deve ocorrer, uma vez que o valor econômico desse acervo seria alvo de necessidade de sistema de segurança que é maior que o valor do museu inteiro vide edital).[4]

Para não deixar de mencionar, ainda resta a tragédia do custeio desses museus que serão criados. Caberá seu custeio as prefeituras: trata-se de mais um pires na mão dos prefeitos para ficar pleiteando em Brasília.

A mediocridade é fruto de pensar pequeno[5]. É fazer Mais Museu para atender menos gente. É fazer política distributiva de algo que apresenta ganho de escala para ter chance de ser bem sucedido e fazer do país destino e referência. Na minha reflexão de hoje, nem sempre mais é melhor!




[1] Senhores especialistas em Museu, desculpem minha simplicidade em tratar do assunto. É a mera visão de um cidadão comum.
[2] Bem maior que a média de 30 mil/ano, ou quase 12 vezes maior, uma vez que é quase isso por mês no MAR.
[3] Vale destacar que o edital fala em um limite de orçamento de R$2,1 milhões, ou seja, algo que daria para cerca de 10 museus. E fica a reflexão: quanto custou fazer esse edital? Quanto custará para implementar e fiscalizar esse edital? Será que alguém fez essa conta? O custo de fazer um museu só, seria certamente mais econômico no que tange à implementação.
[4] Para ser justo, podem haver exceções sim: ideia bem criativas que consigam inventar e se desdobrar no uso do recurso escasso. Possível? Sim. Provável? Não.
[5] E nesse assunto museu, algo que me angustia, e que deixo registrada a dúvida relativa ao tema: o Museu de Futebol no Mineirão ta indo bem? Qual sua visitação? Convenhamos que potencial ele tinha!