Pensar na gestão de carreira é algo que tem me envolvido
muito nos últimos meses. Uma curiosidade natural pelo tema importante para as
organizações, mas que no caso ganhou muita relevância por um motivo simples: a
gestão da minha carreira! O desafio de casar felicidade e resultados é
algo que já refleti aqui e se trata de balanceamento essencial. Contudo, pensar
em como desenvolver as competências e compatibilizar a trajetória mereceu
reflexões recentes que compartilho.
Recomendo o livro The Startup of You, que traz uma
discussão muito adequada ao contexto
atual da nova economia no sentido de entender as incertezas e mudanças como
parte contínua e inerente ao novo mercado de trabalho. O Plano ABZ
idealizado pelo autor é bem aderente. Fazendo uma visão histórica da minha
carreira vou tentar ilustrar a aplicação prática e deixo a recomendação da
leitura do livro para quem quiser se aprofundar no aspecto “teórico” proposto
pelo autor.
Minha formação em gestão pública e economia e meu início de
carreira focado como gestor público em Minas parecia indicar um caminho certo de
um profissional de ocupação no serviço público. Quem me conhece já sabe que para sempre não é um bom lema e
definitivamente não combina com os propósitos da geração atual. Vale que seja
eterno enquanto for recíproco, e o que motiva é o propósito. O plano A -
ser um gestor público - migrou para um plano B - ser um gestor na iniciativa
privada - que acabou se traduzindo em atuar como consultor. A mudança,
portanto, não é uma grande guinada, pois o caminho e as competências que
desenvolvi nos 6 anos no Governo de Minas foram no sentido de ser um
gestor/executivo, em temas variados: gestão por resultados, governança pública,
planejamento estratégico, gestão de projetos. Foram várias passagens de
orgulho, gerenciando equipes e formando “famílias” com propósitos verdadeiros –
Unidade de Indicadores e o Caderno de Indicadores, SECOPA e PPP
Minierão, Agenda de Melhorias no Estado para Resultados, etc.
O importante é que ao longo de toda minha trajetória como gestor
público sempre desenvolvi competências que seriam uteis no Plano A, mas também
no eventual Plano B (e dei sorte, na época não tinha isso com essa clareza).
Fiz um MBA em gestão no IBMEC que abriu horizonte privado em meio a experiência
pública (sempre no híbrido: meu trabalho final no MBA, por exemplo, foi sobre
gestão por resultados na Educação), quando me envolvi com PPP (Parceria
Público-Privado) vivi intensamente as duas dimensões, no exercício continuo de
ser parceiro e se colocar na posição do outro.
Quando no final de 2015 resolvi viver uma nova mudança, que
culminou na minha decisão de ser mais executivo do que consultor e me envolver
mais a fundo com um determinado negócio, vivi um novo Plano B. Mais uma mudança
marginal, pequeno ajuste de enredo: um marketplace de Agro! Uma vez mais, competências que havia já
desenvolvido foram úteis: núcleo de gestão! Mas também aprendizados, de
marketing, inovação e comunicação, seja da época da SECOPA, seja de algumas
imersões específicas como curso EAD, “Developing
Innovative Ideas for New Companies”, que fiz na University of Maryland me
deram base inicial. A postura e o aprendizado acelerado ganham seu papel: em 90
dias imersão em leituras, conversas, pesquisas e prática intensiva para dominar
o novo desafio. Eis que a base do Plano ABZ se adensou! A grande lição: estar aprendendo, e ter senso crítico do seu movimento
profissional.
Nisso tudo a parte Z do plano ainda não vivi, uma mudança
mais abrupta, uma saída de salvaguarda. Mas é algo possível no universo das nossas incertezas. E
certamente a base de competências e aprendizados é um ativo para ajudar mesmo
nessa mudança em um cenário de dar "um passo pra trás" e assumir menor risco. E os
aprendizados e contatos com outros universos também estão presentes e mantendo
ampliação de horizontes: sou voluntário no Conselho de uma OS de Cultura, por
exemplo.
Quando olho para trás tenho certeza que minha decisão de
sair do setor público foi acertada. Importante: acertada para mim! Cada cabeça
uma sentença!
O grande risco para
qualquer carreira é se ver refém, ter que administrar sua algema de ouro.
Caso não tivesse saído do governo estaria em 2016 em uma organização que não é
focado em resultados, que não valoriza gestão e planejamento e isso seria a
morte profissional para mim: estaria desmotivado!
Um caso curioso: tenho um grande amigo que continua no Governo,
e batendo papo outro dia, ele disse todo orgulhoso que tinha acabado de
implementar um CRM. Eu não acreditei. É algo que está super em linha com meu
desafio atual (implantamos na empresa de Marketplace do Agro que estou também),
e enfim, venho fazendo imersão na ideia de visão do cliente (até participei do Customer Experience Summit). Logo
meu histórico e pragmatismo da época do setor público, vendo contexto atual em
Minas, gerou de imediato a indagação sutil: DUVIDO! Fizeram um CRM focado no
cidadão???? A resposta “Não. O CRM é focado no servidor público”. Enfim, coisas
naturais do setor público que possuí capital humano talentoso, mas sem foco e
estratégia, se volta para dentro e gasta energia sem pensar na prioridade na
ótica da sociedade. Certamente não é o modelo que me move, e estar bem
posicionado no meu caso definitivamente é não estar lá.
Como disse cada um com suas escolhas. Certeza que o trabalho
desenvolvido foi um propósito que esse meu amigo viu e se engajou. Afinal as
pessoas precisam se agarrar a algo e se estão naquele ambiente vão fazer seu
melhor para isso. O erro na minha ótica é da ausência de direcionamento maior
da organização. O desafio na ótica de gestão de carreira é entender como a
experiência é relevante para mudanças futuras e principalmente, o risco de você
se ver refém da sua carreira (e ter de se inventar onde está, sem buscar
propósitos de fato verdadeiros).
Alguém bem experiente já disse que uma pessoa que faz a
mesma coisa há 10 anos tem menor experiência do que uma pessoa que já fez 10
coisas, 1 por ano. Enfim, talvez a frase não seja bem essa, mas a ideia me
parece bem acertada. Ser especialista
não é fazer a mesma coisa muitos anos. É estar sempre se inventando e estar
aprendendo sobre uma determinada função ou competência. Quem para de aprender,
deixa de ser especialista e se coloca em grande risco no mercado de trabalho.
Eis um desafio continuado: sempre estar se desenvolvendo, seja para seu plano
A, B ou Z!