quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Como balancear função e salário: a tragédia do judiciário brasileiro.

A palavra desalento é caricata para o momento de país. Falta ver luz. Falta esperança.

Tragédia parece ser sempre algo ligado aos grandes desastres, e que o país vêm vivenciando diante do rompimento da barragem em Mariana nas nossas Minas Gerais. A tragédia, na ótica da catástrofe ambiental e dimensão social, não apresenta palavras – não conseguimos de longe imaginar o tamanho da perda para os afetados. Contudo minha reflexão é sobre tragédias que são silenciosas, que nos submetemos diariamente, que envolvem nossas instituições e nossa cultura de setor público.

Quando li a matéria da carta capital (http://www.cartacapital.com.br/revista/873/caro-e-ineficiente-7271.html) me deparei com a narrativa de fundo dessa tragédia: a velha e boa ineficiência e desperdício do gasto público. Soma-se a isso uma boa dose de distorção entre a remuneração na função pública.

Como já coloquei outras vezes, acredito que o estatuto da estabilidade apresenta grandes incentivos perversos. Mas nele, principalmente em tempos atuais de crise generalizada de corrupção, reside parte do discurso da defesa dessa estabilidade em prol da conduta correta. A tese é que profissionais de carreira seriam menos suscetíveis às pressões corruptíveis sob ameaça de perderem seus cargos ou por só terem cargos para servir propósitos questionáveis. Na mesma linha, a defesa por salários adequados para o serviço público observa tese similar: pagar bem para evitar que se caia em tentação.
Usando a frase de Platão, “Sejamos razoáveis: busquemos o impossível!”. Ou adaptando, sejamos razoáveis: busquemos o caráter. Corrupção é desvio de caráter. Sujeitos que cometem desvios tem falha de caráter, e isso pouco tem relação com sua estabilidade ou não. Temos uma falha sistémica de caráter em nossa cultura: temos medo do enfrentamento aberto. Queremos compactuar em prol do social, abrindo mão de princípios de conduta e eficiência, nas diversas funções profissionais. Seria reflexo do tal “jeitinho”?

Sobre pagar bem, certamente precisamos considerar o salário higiênico, bem como sempre é possível e desejável comparar com o mercado. Vale entender e equilibrar risco e retorno. Um advogado privado pode ficar milionário, ele se arrisca e empreende, e isso desde que não seja à custa de recurso público (ai envolveria qualquer esquema de corrupção). O advogado público, por sua vez, fez uma escolha da função e seu status! Deve ter um salário justo pelo seu trabalho, mas de modo algum deveria figurar entre as fortunas da sociedade, e de longe não justifica os apontamentos feitos na matéria da Carta Capital.

Vale lembrar que esperamos sempre que o Policial ou o Bombeiro, para não esquecer nunca do médico, se dediquem e se arrisquem diante das situações mais arriscadas que a vida apresenta. Isso é parte da função, é parte da história de quem escolheu vestir determinada camisa. Diante da terra de lama não pensamos que o Bombeiro pode se comportar mal ou não fazer o que se espera dele por conta de um salário baixo. O caráter dele não está sendo testado, isso deveria ser um teste prévio e da formação (e caso tenhamos problemas de identificação de bons profissionais nessa etapa podemos sim estar diante de salários pouco atrativos, mas isso é problema de entrada e retenção).

Goran Lambertz, um dos 16 ministros da Corte Suprema sueca, disse que “luxo pago com o dinheiro do contribuinte é imoral e antiético”. Retirei essa menção da matéria da carta capital, e não podia espelhar melhor o nosso desastre institucional. O problema é que tal desastre é visto no nível político e gera espanto e revolta, mas o que poucos observam é que ele está “entranhado” em nossas instituições, e pode ser visto a cada nova greve dos servidores, seja do nível que for: afinal nenhuma carreira se coloca como parte do povo e se mobiliza contra os privilégios da outra, apenas luta por mais ineficiência em prol da sua casta! 


Por fim, vale sempre chamar a atenção que o Estado (e o Judiciário é parte dele) deveria funcionar a serviço do cidadão. Mas como se sente a cada nova legislação, temos uma máquina que faz o oposto da simplificação e sempre parte da premissa que o capital é oportuno, o empreendedor é nocivo, que devemos punir e vigiar. Busquemos o impossível: sonhar em empreender!

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