quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Estaríamos em meio a um ciclo vicioso no setor público brasileiro?

Já faz mais de dois anos que saí do Estado, mas o tema do setor público continua me despertando grande interesse. Acho que era essa a essência natural do homem político: gostar da vida pública e se interessar por ela naturalmente. Atualmente, acho que nos afastamos bem disso. É um tema cada vez menos público e mais partidário (cada qual com seu time), e que gera mais preguiça, descrença e careta do que reflexões construtivas.

Em meio a tal quadro, a ideia de um ciclo vicioso me ocorreu, e resolvi compartilhar tal reflexão. É uma ideia ainda em construção e, portanto, críticas construtivas são bem vindas, bem como referências e reflexões correlatas. É uma tentativa de tornar simples o que é complexo, e com isso, a abstração é uma necessidade, e irá se aplicar em menor ou maior grau a casos específicos. Para aqueles que se encontram no setor público, também façam a devida adequação de que não se trata de uma crítica especifica a ninguém ou nenhuma carreira, mas sim um contexto em que todos em alguma medida se encontram.

A figura abaixo reflete o ciclo vicioso do setor público que acredito se aplicar atualmente no Brasil:



Tal ciclo consiste em três vetores que se retroalimentam: Seleção adversa de capital humano, Execução ruim e ambiente desmotivador.

Temos uma porta de entrada para o setor público que tem aspectos meritocráticos (alguns concursos são bem disputados!), porém observam com viés o que é meritocracia (o velho desafio de focar em conhecimento e não em perfil ou em histórico de realizações). Tal porta de entrada ainda é mais perversa quando se observa a proposta de trabalho/carreira, em que o valor da remuneração é um fator que pesa (as pessoas escolhem o concurso por qual valor se paga), e tem-se muito pouco do horizonte de construção de uma carreira de fato. Vale mais o tempo e valoriza-se em muito a perpetuidade (falar em emprego ‘para sempre’ em tempos modernos é bem complexo).

A sequência da entrada com incentivos perversos é uma seleção adversa reforçada. Digo reforçada pois o perfil de atração para a carreira pública já gera uma desistência de alguns perfis mais empreendedores por assim dizer (e assumo como premissa que não seria desejado a seleção apenas do tipo de perfil “não empreendedor” que visa estabilidade). A continuidade da seleção adversa ocorre com o decorrer do tempo em que quem fica é aquele que não teve frustração ou não teve coragem de se arriscar em alguma ocupação alternativa (abrindo mão de sua “algema de ouro”). A forma de remuneração na maior parte dos casos do Poder Executivo principalmente subnacionais (vale ressaltar que o Poder Legislativo e Judiciário tem via de regra patamares salariais bem melhores. E o nível federal remunera bem melhor que níveis estaduais e municipais) é engessada e tem um limite para o crescimento.

Contudo a pior parte da equação da seleção adversa vem da combinação de uma remuneração não atrativa com o excesso de controle e excesso de exposição a risco, o que faz qualquer perfil um pouco mais empreendedor ter no ambiente público uma alta aversão a risco de realização (o ambiente conspira para o “não fazer”). O excesso de controle, que em parte vêm por conta do melhor padrão de salário dos poderes e órgãos de controladoria e carreiras jurídicas, funciona como experiência temerária para a maior parte dos que buscam transformar o setor público, que em meio a muitas leis e engessamentos, pode fazer dos processos ferramentas de terror contra a vida de qualquer gestor que dê a cara a tapa.

O resultado da seleção adversa é a escolha de perfis para os quadros executivos que (i) tem muita disposição ao risco, e em alguma medida esse perfil vai se revelar o que “precifica” esse risco pela busca de poder, e que em alguns casos deriva para o “abuso de poder”; ou (ii) não tem alternativa melhor, seja pela “algema de ouro”, seja pelas suas competências, fazendo uso moderado da agenda de transformação por ter aversão ao risco do excesso de controle ou agendas questionáveis de gestão, estando sujeito a erros por ação ou omissão. Os demais perfis ou nem buscam entrar no setor público ou já saíram por vislumbrar outros ambientes de maior motivação.

Estando o poder executivo mal servido de bons quadros, seja por falta de competência, aversão ao risco ou conduta duvidosa (esse sendo o quadro literalmente corrupto), clama-se por uma maior agenda de controle devido ao excesso de demandas não atendidas na sociedade e pelas indicações de ineficiência que em alguns casos se revelam corrupções. Temos ai uma demanda social por um reforço da agenda de controle e punição (que é devida aos infratores, mas transbordam para a criação do ambiente de aversão ao risco demasiado pelos demais gestores). A execução ruim das políticas públicas alimenta esse ciclo na medida em que gera insatisfação social, e deriva para o que é comum hoje, o entendimento de que toda ineficiência é corrupção.

Deriva-se desse movimento a valorização das agendas de controle (enaltecimento de poderes fiscalizadores, etc), e cultura de caça as bruxas (o problema aqui não é caça-las, mas uma vez que se tem a fogueira, exagerar na forma do que se chama de bruxa, e de como se faz um rito sumário de taxação, principalmente pela exposição midiática), o que reforça o movimento de seleção adversa desde a entrada até a permanência de bons quadros no Poder Executivo por conta do ambiente desmotivador (tudo é muito custoso e conspira pelo ‘não fazer’). Com isso fechamos e retroalimentamos o fluxo vicioso de não conseguir uma evolução da efetividade do setor público.

O sistema político eleitoral é subjacente a esse ciclo, e em alguma medida a ausência da virtude do homem público na sociedade faz com que o perfil dos políticos se afaste e seja ele mesmo fruto desse ciclo vicioso. Uma diferença importante é que a porta de entrada democrática no meu ponto de vista não apresenta substituto, e nesse sentido, a melhoria desse aspecto depende da dura maturidade institucional (em última instância da nossa capacidade enquanto nação de saber o que se elege).

Acredito que vivemos um modelo danoso pela forma de poder atual que busca aparelhamento e controle, e que diferencia pouco Governo de Estado, colocando quadros partidários em posições que deveriam ser neutras/técnicas. Vejo ascensão de perfis que nada tem de meritocracia alçarem voos cada vez mais destacados, e o modelo é profético no curto prazo, pois a perpetuidade dessa mentalidade no poder faz com que as tais figuras sem histórico de entrega ou execução virem referências (pelo status que ocupam e não pela execução). A esperança reside na precificação do mercado pela ineficiência ou da descoberta do que for corrupção, mas em ambos os casos caímos no ciclo vicioso mencionado.

Como quebrar o ciclo não é uma pergunta fácil, e depende em muito do patrocínio de lideranças políticos (que como dito dependem do resultado democrático e do sistema que tem suas desvantagens no que diz ao poder econômico das campanhas). Parte da fuga dessa armadilha se dá por oxigenar o setor público, criar entradas laterais, formas temporárias que sejam tecnicamente orientadas, e entender que o diálogo na base técnica entre publico e privado é parte fundamental de uma economia desenvolvida.


Ações que criem um ambiente de maior valorização e status do que temos de positivo no setor público também tem seu papel, mas incorrem no risco de cooptação e deturpação partidária, e por isso são mais complexas. A forma de abordagem e construção das agendas de controle tende a ser importante no diálogo com os técnicos do poder executivo. Estabelecer parcerias ganha-ganha, no sentido de buscar eliminar ineficiência, fazendo uma força tarefa de melhorar a produtividade e não de se achar culpados (obviamente nos casos em que não houver indicio de abusos pessoais). Bem, é uma agenda repleta de desafios para nosso amadurecimento institucional, e quem sabe um dia podermos falar em um ciclo virtuoso no setor público brasileiro! 

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