sábado, 7 de março de 2015

A falência do estatuto da estabilidade

A reflexão de hoje é mais visceral, mais um rompante do que algo comedido, pois é fruto de um telefonema de um grande amigo, narrando uma situação de transição de Governo. Repito: transição de Governo e não de Estado!

Quem me conhece sabe que não é de hoje que contesto o estatuto da estabilidade. Por mais de uma vez defendi academicamente o argumento de que cargo em comissão tem um efeito de romper ciclos viciosos e de criar um ambiente pró-resultados. Afinal, a ideia do cargo é pagar melhor e diferenciar aquele que está disposto a assumir responsabilidades e se comprometer com resultados.

A hipótese da estabilidade é a de evitar perseguição política. Hipótese em que agentes executivos mal intencionados não respeitam argumentos técnicos e usam de uma possível “exoneração” para impor sua forma de agir e coibir servidores públicos. Por óbvio isso é desejável e se é preciso da estabilidade para se ter coragem de enfrentamento, ela é necessária. Mas e quando estabilidade não é usada pra isso?

A falência, segundo uma situação que foi relatada na conversa telefônica, vem de uma visão simples:

- O que foi me narrado por um grande amigo mais me pareceu com uma grande organização empresarial S/A, em que os gerentes se adaptam aos conceitos e diretrizes da nova chefia, se valem dos seus poderes para buscar uma autoperpetuação de poder, e com isso o ambiente organizacional público nada mais é do que um ambiente organizacional com a mácula das relações nocivas do setor privado, catapultado pelo estatuto da estabilidade;

- No limite só se usa da estabilidade quando não se consegue perpetuar no poder, independente das funções públicas e crenças técnicas que norteiam a carreira!

Minha opinião é pela meritocracia de cargos em comissão: uma vez que não temos casos de conflitos técnicos que necessitam do respaldo da estabilidade para evitar um abuso do agente executivo. Assim como no ambiente privado, fica no cargo de gerente aquele que assume riscos, mostra serviço e como recompensa tem uma maior remuneração.

O uso da estabilidade como recurso de defesa do discordar e agir dentro das funções legais seria a virtude. E a ausência da virtude é quando vemos pessoas não assumindo riscos e desafiando chefias, e buscando sim perpetuação no poder pura e simplesmente. A estabilidade torna-se ineficiente. Mandatos periódicos para órgãos de controle poderiam ser mais úteis. Carreiras mais flexíveis, com múltiplas portas de entrada e saída, poderiam ser mais efetivas, criativas e inspiradoras.  Oxigenar é uma forma de romper ciclos viciosos e maturar as instituições.

A estabilidade me parece um desastre! Isso só reforça que o valor não deveria ser a “carreira estável para a vida toda” e sim a posição executiva: agir de acordo com princípios técnicas, respondendo por seus atos e buscando seus resultados. Qual objetivo de criar a proteção da estabilidade? Se for dar salvaguarda especial para privilegiados de terno que não tem consistência técnica que visam perpetuar cargos e poder: nada vale!

Uma reflexão seca, mas de grande valia. Como qualquer questão, existem aqueles que usam a seu favor: discordam de uma prática e usam para garantir que ninguém irá te exonerar por defender o que se julga certo naquela função. Contudo, essa não me parece a regra no Brasil, e sendo apenas exceção poderia ter modelo melhor. Daí a ideia de que tal estatuto não faz sentido em nosso contexto. Mas sabemos que sua mudança é algo que se iniciada agora, só teria frutos para próximas gerações: alguém deveria começar!


P.S - Um a parte não partidário, mas que merece ser dito: O nome de Anastasia em meio à Operação Lava Jato mais me parece bode expiatório do que consistência de fato. Longe de mim, achar que o sistema político produz santos, mas classificar em uma mesma lista envolvidos com afirmações concretas de terem recebido dinheiro, com questões especulativas  não me parece prática séria. E esse ser o único nome do PSDB é típica estratégia de querer ter qualquer menção que faça parecer que “tudo é farinha do mesmo saco”. Acorda Brasil!

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