sexta-feira, 30 de maio de 2014

Legado da Copa do Mundo do Brasil

O tempo passa rápido, e já estamos a menos de 20 dias para a Copa do Mundo. Pensar que tem 2 anos que me desliguei desse assunto no cotidiano e infelizmente o debate continua no mesmo tom de críticas que não constroem e revoltas. Temos o que criticar e talvez até mesmo motivos para revoltar, mas diante disso tudo continuam falando cada qual de acordo com o que lhe convém, sobre legado. O que e qual é o legado da Copa? A reflexão de hoje é mais simples, e um tanto mais óbvia, é quase um desabafo.

Quando o país decidiu sediar os jogos, assumimos uma série de obrigações para ter um direito: sediar os jogos e ter toda a visibilidade derivada. Todos os custos envolvidos na organização dos jogos justifica essa visibilidade? Não sei e quem fala que sabe tá chutando (podem me enviar um estudo bem feito disso que ainda não vi nenhum). São custos e benefícios muito difíceis de mensurar, por exemplo:

Um grande professor meu, que tenho muita admiração, sempre me questionou quando eu falava que Legado da Copa eram os Aeroportos – ‘precisamos da Copa para ter Aeroportos?’ era sua ponderação. Racionalmente claro que não, afinal é investimento em infraestrutura que representa a Nova Economia (tudo que não vai pela internet, tende a ir de avião[1]). Mas qual o motivo do Brasil não ter feito investimento em Aeroporto antes? Falta de senso de urgência[2], e a Copa propiciou isso. Caso os investimentos fossem bem planejados (ou seguissem um planejamento de infraestrutura independente da Copa) seria uma sinergia ótima e o Legado da Copa seria a infraestrutura que deriva dela por um motivo pontual e urgente, mas atende um objetivo maior que tem plena justificativa. Portanto, ora pois, os custos e benefícios envolvidos são bem complexos, e o senso de urgência tem de ser ponderado nessa conta.

Outro ponto de grande debate reside sobre os estádios, esses sim, exclusivos para a Copa do Mundo! Ou não? Ou teríamos demanda por eles para além da Copa? (quase ninguém gosta de futebol em nosso país, né?). Nesse ponto, o Brasil da nossa atual base governista é foda: escolheram fazer em 12 cidades para atender algumas demandas políticas (e isso gerará uns 2 ou 4 estádios mais ociosos), custo Copa e não é um bom legado, legado no sentido daquilo que fica depois que algo vai embora. São escolhas do nosso país (mesmo eu não tendo votado no atual governo, não deixa de ser nossa escolha: custo democrático!).  

Contudo, tirando esses 2 ou 4, acredito no legado dos estádios, pelo menos acreditava no seu potencial: futebol profissional e equipamentos com nível de serviço como os de padrão internacional (EUA e Europa). Digo potencial, pois precisa ter decisão de boa regulação, profissionalização desse segmento, e isso envolve ter clubes de futebol engajados nesses equipamentos e dispostos a aumentar o nível. Digo acreditava, pois basta ver os resultados deficitários e os níveis de serviço que evoluíram pouco para ver que não virou o que poderia virar! Infelizmente a Copa não mudou o cenário dessa cultura do futebol, ou será que mudou e eu que não percebi ainda? Como disse, é uma conta complexa.

Esse tal legado veio a minha mente de novo, tendo em vista a polêmica envolvendo a Joana Havelange e a frase infeliz de que ‘o que tinha que ser gasto, roubado, já foi’. A intenção dela era boa, e tenho de concordar: o custo já é nosso e o benefício? Já falei nesse blog sobre minha opinião acerca do que fizemos na Copa das Confederações com as manifestações: criamos mais custo. Vendemos uma imagem de um país com alto custo e alto risco! Vendemos pra o mundo nossos problemas, e ninguém lá fora quer comprar problema. Deixamos de vender nossas soluções para atrair e fazê-los comprar nosso mercado (investir em nós). Infelizmente, acho que o cenário vai repetir, e vamos ter mais custo social de tempo perdido em congestionamento de manifestação, crise de imagem, etc. Bom, a ideia de fazer a copa e vender alegria era uma intenção boa, reforçava a ideia de legado.

Em falando de imagem, bom lembrar que os aeroportos vão ficar prontos depois da Copa. Na linha do meu professor, tanto faz, o importante é que vamos ter Aeroportos melhores no futuro. Concordo e espero que sejam bem melhores, aposto na Aerotrópole de Belo Horizonte, independente da Copa. Por óbvio, que na imagem de quem vem, vai ser caos, vai ser a imagem de um país que não consegue entregar o que planeja, infraestrutura deficiente, etc....bem, é só imagem.....

Estou meio ranzinza, e repetitivo, tenho de confessar. Meio desiludido com o assunto Copa, e seu legado. Por isso não falarei mais das críticas de Copa e dos estádios no blog. A Copa já foi (ou será que pode piorar ainda mais a imagem? A Joana bem que tentou motivar a ideia de criar um clima bom para vender o país, ela tem sua dose de razão, os próximos dias vai dar muito o tom da imagem que irá ficar). Os estádios.....tomara que virem legados de orgulho um dia! “Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter....” ‘QUEREMOS?’[3].



[1] O livro Aerotrópole de John Kasarda ilustra muito bem essa mentalidade da importância dos Aeroportos na Nova Economia.
[2] Pode achar que é falta de vergonha na cara dos nossos governantes, mas instituições levam tempo, e se estamos assim agora, é fruto de um caminho percorrido e por escolhas que fizemos enquanto coletividade. E que nada tem haver com a Copa.
[3] Breve menção aos poetas do Engenheiros do Hawaii

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