Tempo de eleição é sempre
curioso, uma vez que o ser político enraizado (em alguns mais do que em outros
e talvez ultimamente com maior raridade que no passado) ganha voz e maior
expressão. Infelizmente o debate é pouco qualificado, talvez reflexo do baixo
interesse em estudar a fundo, talvez fruto da nossa cultura de futebol (em que
o amor pelo time é absoluto e indiscutível). Vi o debate de Mantega e Armínio e
confesso que fiquei decepcionado, pois esperava mais economia e menos marketing
politizado. Entendo que os dois estavam cada qual na sua sinuca de bico em que pelo
jogo posto, qualquer fala fora do script vira manchete taxativa, seja de “juros
tem que subir” seja de “inflação está acelerada”. Nossa maturidade
institucional e qualidade do nosso capital humano são fonte disso.
Falta também uma qualificação
melhor, às vezes buscando nesse tipo de fórum mostrar dados e em cima dos
fatos, entender melhor divergências e concordâncias do ponto de vista. Se fizéssemos
um workshop, a exemplo de alinhamentos estratégicos em empresas, talvez conseguiríamos
um resultado bem elucidativo para a população: entender o que estaria na mesa e
em questão na escolha democrática. Utopia né?
Bem, resolvi fazer meu para casa
e compartilho na presente reflexão. Tentei sintetizar no quadro abaixo, os
dados de crescimento econômico do Brasil e do mundo nos 5 últimos mandatos
presidenciais, de FHC 1 (1995-1998) até DILMA (2011-2014):
Fonte:
IPEADATA (www.ipeadata.gov.br)
|
Projeção
Mundo e Brasil 2014: FMI - http://www.imf.org/external/datamapper/index.php
|
Projeção
INPC 2014: BANCO CENTRAL - www.bcb.gov.br/pec/indeco/port/ie1-01.xls
|
Projeção
Dólar: FEBRABAN - http://exame.abril.com.br/economia/noticias/projecao-da-febraban-para-cambio-recua-para-r-2-39
|
Vejamos a síntese que proponho:
- Em FHC 1 vivemos o ajuste contra a inflação. Foi o nascimento do plano real, e o primeiro quadriênio de inflação controlada (na média abaixo de 10%a.a). Como parte do ajuste, tivemos que conter crescimento, e crescemos menos que o mundo. Mérito econômico, e mérito nas urnas!
- Em FHC 2 talvez tenhamos pago o preço da reeleição, pois como conhecido e dito pelo próprio FHC em sua biografia, o dólar em 1998 foi mantido a patamares que eram insustentáveis, e logo após a eleição, teve-se a mudança de política cambial que fez com que o patamar do dólar saísse da paridade de R$1 para R$2,2 na média dos 4 anos do novo mandato. Crescemos menos que o mundo, e como o próprio Armínio pontuou no debate de 9/10/14, foi feito grande esforço para que plano real não fosse desacreditado. Inflação foi mantida, crescemos novamente menos que o mundo. Resultado econômico não pode ser considerado como vencedor nas urnas: transição a vista!
- Em Lula 1 após superar os nervos políticos do que seria tal transição, devemos dar pontos a democracia que viveu grande amadurecimento (uma transição histórica, em que o PT assumiu o governo), o PSDB fez uma transição econômica séria e o governo que assumiu teve seu mérito por criar credibilidade e imprimir seu estilo sem nada quixotesco. Crescemos ainda menos que o mundo, mas crescemos muito, pois mundo cresceu muito também. Foram 4 anos de bonança na economia, o que em alguma medida faz qualquer ajuste econômico ser melhor. País que cresce é país que reelege!
- Em Lula 2, vivemos único período em que crescemos mais do que o mundo. Vivemos o único ano de recessão mundial em 2009. O Brasil cresceu e segurou sua inflação, gerou valorização da nossa moeda, colocando o patamar do câmbio abaixo dos R$2. Um governo de resultado econômico (de curto prazo, indiscutível), sempre leva melhor nas urnas!
- Em Dilma, vamos amargurando uma crise internacional que, como Mantega defende, não tem fim. Curioso é que ao que tudo indica teremos um cenário nesses quatro anos de Dilma em que mundo cresce mais do que todas as comparações (exceto a bonança de Lula 1). Crescimento baixo, câmbio e inflação na ascendente....problema nas urnas a vista! Estamos colhendo o que plantamos, ou quitando as parcelas remanescentes do que compramos no passado!
Por ser mineiro e ter vivido
intensamente os últimos governos aqui não consegui deixar de olhar os dados de
Minas (infelizmente as bases do crescimento do PIB estadual tem muita
defasagem), mas o quadro do Governo Aécio 1, no mesmo período da bonança
mundial do Lula 1, foi de crescimento acima do Brasil (3,8%a.a). Ele fez os
ajustes conhecidos como Choque de Gestão e surfou a mesma onda! No período
Aécio 2 (que é o mesmo quadriênio de Anastasia 1, pois diferente de Lula fez do
vice seu sucessor), Minas cresceu menos que o Brasil (3,9%a.a), mas vale notar
que na crise, o impacto no nosso minério é avassalador, e não podemos dizer que
o Governo Federal protegeu a todos da mesma maneira, pois a máquina tributária
forte esta na mão dele. Os dados de Minas no Anastasia 2 não parecem ser
diferentes em magnitude dos dados do Brasil: um crescimento abaixo do esperado.
Nesse cenário mineiro, pequenas reflexões:
- Como um professor meu defendia ao ver metas de crescimento para MG como compromisso do Governo Estadual: “obrigação de crescer não é nossa, as ferramentas não nos pertencem”. Tenho de concordar que isso não é a primeira prioridade de um estado, cabe a ele estar arrumado para surfar bem as ondas que virão no país!
- Papel do Estado é saúde, segurança e educação...se observarmos essa medida acho que Minas é destaque no Brasil....para educação basta ver medidas do IDEB
- Resultado bom ganha nas urnas, Aecio 1 e 2 mostraram bem isso. Já resultado ruim, é espaço para mudança...mas Anastasia foi eleito para Senado com mais de 56%...
- Dizem em algumas rodas que aqui o PT não ganhou, foi o PSDB que perdeu: toda escolha, uma renúncia....
Estou convencido de que foi bom
para democracia a eleição de Lula em 2002. Também acredito que as mudanças de
partido no poder serão salutares em 2015, pois isso dá força para a maturidade
institucional, o corpo técnico aprende a ser Estado e não Governo. Esperamos
que políticas de fortalecimento institucional que sejam apartidárias como
agências reguladoras, concessões, institutos de pesquisa ganhem agenda! Torço e
voto pelo caminho da maturidade institucional no Brasil!
Para fechar a reflexão não posso deixar de citar trechos de um romance uruguaio de 1965[1], que traduzem magicamente algumas reflexões que fazem muito sentido pra mim. Em um diálogo de pai e filho, vi minhas crenças no entendimento do tempo das instituições[2] nas falas do pai, que inicia o diálogo adaptado abaixo:
“- Ustedes creen que la revolucion es andar sin corbata.
- Por algo se empieza: ustedes ni eso.
- Ya lo sé, ya lo sé. Pero ustedes empiezan a hablar, a gritar, a
organizar mitines, se inflaman solos y llegan a convecerse de que el país es
eso que proclaman y sólo eso. (...) Convencete de que la crisis más grave en
este país es la crisis de ejemplo.
-Decí mejor que empezó por ahí. Pero ahora la cosa no se arregla con
dar buenos ejemplos. Hay una orden económico que es preciso cambiar.
- Sí, Gustavo, estamos de acuerdo. Pero, encandilados por esa transformación del ordén económico, ustedes se meten la moral en el bolsillo, y en eso están completamente equivocados. (...) Mirá, ustedes que tienen a Marx pegado con alfileres, podrían recordar de vez en cuando que Marx habla de la economía política, de las ciências de la riqueza, como uma verdadera ciência moral, la más moral de todas las ciências. (...) ¿Qué harían vos y todos tus revolucionários sin corbata, con la posibilidad de um cambio de estructura, como tanto les gusta decir, y con la imediata entrega de esa estructura recién cambiada a um malón de tipos inmorales, ambiciosos, maniobreros, fallutos?
- Todos ustedes son así: aparentemente ven claro, pero en el fondo son destructivo. Sólo sirven para inventariar los defectos, las carências.
- No Gustavo, la diferencia sólo es de ritmo. Yo creo que la única transformación eficaz vendrá por la educación política, y ésta requiere su tiempo.”
- Sí, Gustavo, estamos de acuerdo. Pero, encandilados por esa transformación del ordén económico, ustedes se meten la moral en el bolsillo, y en eso están completamente equivocados. (...) Mirá, ustedes que tienen a Marx pegado con alfileres, podrían recordar de vez en cuando que Marx habla de la economía política, de las ciências de la riqueza, como uma verdadera ciência moral, la más moral de todas las ciências. (...) ¿Qué harían vos y todos tus revolucionários sin corbata, con la posibilidad de um cambio de estructura, como tanto les gusta decir, y con la imediata entrega de esa estructura recién cambiada a um malón de tipos inmorales, ambiciosos, maniobreros, fallutos?
- Todos ustedes son así: aparentemente ven claro, pero en el fondo son destructivo. Sólo sirven para inventariar los defectos, las carências.
- No Gustavo, la diferencia sólo es de ritmo. Yo creo que la única transformación eficaz vendrá por la educación política, y ésta requiere su tiempo.”

Nenhum comentário:
Postar um comentário