Nas conversas de
final de ano, reencontrando alguns amigos de setor público, tive uma notícia
que me deixou feliz e triste ao mesmo tempo. Um dos processos que o Ministério
Público (MP) abriu acerca de um tema de contratação ligada a assuntos que
estava envolvido foi arquivado/encerrado. Primeiramente, importante dizer que
não estive envolvido no processo (no sentido de ser citado ou ser acusado de
nada), o que sempre é um alívio a qualquer gestor público. Fiquei feliz pelo
encerramento, pois acredito que no caso em questão não havia de fato nenhuma
sacanagem, acredito que ninguém desviou recurso público ou coisa desse nível de
corrupção. Mas também confesso que fiquei frustrado em confirmar um modelo que
já havia percebido: a ação do MP busca usar o pior do espírito da imprensa
brasileira nos tempos atuais (faz acusação que já aparece como uma sentença de
culpa, já logo quer ver sangue na mídia), e sua vocação é usar a punição pelo
poder de punir e não por um viés educativo.
Como sempre
busco fazer nas reflexões, quero deixar claro que minha posição aqui
apresentada não é generalizada a todos os atores do MP, e eu mesmo já tive boas
experiências de lidar como promotores bem comedidos e que buscavam o melhor uso
do seu poder, no sentido educar, criar cultura e instituições fortes. Contudo,
nesse caso a que me refiro[1], acho que vale bem a
ilustração e reflexão desse papel. É importante apontar também que não vou
amparar minha reflexão sobre nenhuma lei de criação ou coisa do tipo acerca do
papel do MP: imagino que um sem número de teóricos já falam ou debatem o
assunto e meu ponto de vista aqui é no sentido de dar luz a um enfoque que se não
é complementar, eu diria, é alternativo.
Como agiu o MP:
ao ver uma matéria que estava quente na mídia e que perpassava um pilar de
forte viés contrário por parte da casa (contratação por inexigibilidade de
licitação por notória especialização), logo se instaurou um processo que não
foi lido como algo investigativo, mas sim, como algo taxativo – Erro e
corrupção apontado pelo MP! Ora, pois, imagino que em alguns ou até muitos
casos, o MP pode estar certo e o processo judicial que decore de sua denúncia
irá comprovar isso. Contudo, como no caso em questão, o acerto não é uma
certeza, ao contrário pode ser uma indício equivocado, mas o gestor acusado
como infrator do erro, tem seu nome veiculado e todos os julgamentos (pelas
pessoas, imprensa, etc.) já feitos com base em algo que foi tido como verdade
(ora, rasga-se o pressuposto constitucional da inocência!). Para agravar, o
pedido do MP pode vir atrelado a medidas taxativas de bloqueio de bens e coisas
do tipo, que expõem/comprometem ainda mais as pessoas envolvidas.
Somos uma
sociedade com sede de vingança, queremos manifestar, queremos ter mais “Tropas
de Elite” e “capitães Nascimentos” batendo em corrupto: eu mesmo não nego esse
sentimento, mas a forma como damos vazão a isso molda nossa sociedade. Todos
são pessoas e, por mais que possam estar errados, temos de avaliar muito bem
antes de fazer de qualquer acusação, publicar uma manchete e expor essas ditas
verdades absolutas antes da devida apuração dos fatos, uma vez que as
consequências afetam todo seu ambiente (familiar, profissional, pessoal, etc.).
Acho que MP é importante?
Diria que essencial! É um ator na governança de nossa sociedade, um zelador da
coisa pública em sua essência. Um exemplo de ação de zelar bem é algo que vi nosentido de investigar compra de mobiliários milionários pelo Tribunal de Contasdo Ceará (sem um MP quem faria isso?).
Acho que a
postura do MP é adequada? A resposta está no cerne da reflexão do presente
post: tenho minhas dúvidas. Acho que vivemos certo exagero atrelado ao ímpeto
de esgotamento da nossa paciência enquanto sociedade para a ineficiência
pública. Não usei o termo ineficiência por acaso, acho que a maior parte do
nosso custo país, se deve a ineficiência e não à corrupção (essa é uma fatia
pequena do nosso desperdício, mas por sua natureza, nos gera revolta em tamanho
desproporcional).
O que poderia
ser melhor? A busca do entendimento de um papel mais educativo (que seria
moldador de uma cultura), em que use do poder punitivo nesse sentido. Vamos
materializar isso e usar algumas metáforas.
No processo de
ensino, pode-se punir o aluno com uma reprovação por exemplo. Quando a punição
é adequada? Quando está alinhada ao interesse de gerar o comportamento
desejado, de educar. Punir por punir não leva a nenhuma melhora, ao contrário,
pode gerar revolta. Punir em excesso não ajuda, ao contrário, mata, leva ao
limite extremo de expulsar e isolar-se do problema. Um indicador que sempre
achei interessante nesse processo é a reincidência: errar é humano, persistir
no erro é burrice/limitação ou, no limite, má intenção.
Quando o MP age
com a pressão máxima em cima de ações do poder executivo, ele até pode ter a
intenção de estar educando o Executivo (prefeito, governador e/ou presidente)
no sentido de dar atenção a alguns pontos. Mas na prática, ele acaba acertando
em pessoas, gestores públicos da linha abaixo do Executivo principal e, nesses
casos, o efeito do MP pode gerar desmotivação, medo, aversão ao
risco/empreendedorismo, fatores que culminam na formação de uma cultura de
gestores públicos movidos não pelo resultado e desejo de dar certo, mas sim
pelo formalismo e receio de dar errado.
Falo como gestor
público que fui, e gestor privado que sou atualmente: nossa cultura é avessa ao
espírito empreendedor e associamos assumir risco com ilegalidade. O risco é
inerente ao papel do gestor. Toda tomada de decisão envolve risco, na medida em
que envolve incerteza. Dormir bem pra mim é dormir com a consciência tranquila
que agi dentro dos princípios do que é correto, sem motivações e
enriquecimentos pessoais ilícitos, e fazendo melhor uso do poder a mim
conferido. Dormir bem não é dormir sem risco, é saber que os riscos assumidos
eram as melhores opções para os objetivos almejados.
Fechando a
reflexão: por que ao invés de sair logo acusando, não se busca um processo
investigativo e educativo? Por exemplo, poder pleno de investigacação e
solicitação de abertura de contas dos gestores envolvidos para garantir que não
há desvios (e transparência para mim sempre foi um principio que qualquer
gestor que lida com recursos públicos ou privados – que não seus – deveria
seguir): quem não deve, não teme. Em se constatando que não houve corrupção, deveria
se buscar um entendimento junto aos envolvidos acerca do processo e um pacto
educativo (que envolva multa se for o caso, simbólica e proporcional a sua
capacidade de pagamento – um gestor público que ganha R$8 mil/mês não pode se
ver com bens bloqueados por uma contratação de milhões, uma vez que não houve
desvio): aqui o princípio da razoabilidade sempre é bem vindo, e o entendimento
de que errar é humano...repetir no erro....ai é caso para outras instâncias.
Tenho certeza
que muitos gestores com um espaço de diálogo e com a oportunidade de exposição
de motivos de ambas as partes (pois o MP não é Deus nas suas verdades, assim
como o gestor do executivo também não o é), aprenderiam com esse processo e
sairiam gestores melhores. Acredito que algo menos midiático
e judicial, mais dialogado e administrativo, ao invés de processos de acusação
públicos, que geram grande exposição e custos pessoais, que são ao final
arquivados/encerrados[2], seria mais desejável. O
atual modelo alimenta a desmotivação e desesperança de uma instituição pública
melhor, expulsando alguns gestores, tornando alguns absolutamente avessos ao
risco e inertes diante da necessidade de ser empreendedor ou, ainda pior,
criam/alimentam gestores que chamaríamos de uma casta dentre os servidores de
“puta velha”.
Camarada, compartilho de muitas das suas ideias aqui. Dou aula de "Estado, Administração Pública e Sociedade no Brasil" e no ano passado resolvi incluir na grade o tema do Ministério Público e Tribunais de Contas, pela relevância que eles tomaram nos últimos tempos. Confesso que tive muita dificuldade de achar informação de qualidade e, consequentemente, de entender claramente qual é o papel desses órgãos na Administração Pública Brasileira, e que sequer tem similares em outras administrações pelo mundo. Dessa feita, concluo que é um ser estranho à gestão pública, ainda procurando o seu lugar num país desprivilegiado de ética e moral...
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