terça-feira, 25 de março de 2014

Transparência: prática ou discurso vazio?

Como parte de um serviço voluntário atual junto a uma OS de cultura que desempenho, acompanhei de perto a execução do relatório de gestão do 1º ano de atividade dessa OS frente à gestão de um museu. Com muito orgulho mostrei o documento a um amigo e ele logo soltou uma boa crítica sobre o valor desse tipo de documento (nada como bons amigos para debates sinceros!). Por óbvio fiz minhas defesas sobre o caso específico ao escutar (e quem me conhece sabe que na hora não concordei de modo algum!), mas não deixei de levar as reflexões comigo.

A palavra transparência está banalizada de tanto que é usada em discursos políticos e por “líderes” em total descompasso com a prática. Muito discurso e pouca efetividade. Na minha época de graduação a ideia de ser transparente era como terno em reunião com Secretário de Estado: peça obrigatória. Felizmente no que tange a transparência tínhamos discussões bem críticas de que essa obrigatoriedade per se não valia nada (infelizmente demorei a criticar o uso dos ternos, que só aboli como peça obrigatória nos anos recentes). Quando ocupei cargo de gestor público cheguei a vivenciar a legislação da transparência entrando em vigor, sendo mais um exemplo de algo que deveria ser natural vira lei (e a crença de que isso resolve alguma coisa) e obrigação “burra” (aumentando nosso custo país). Quando digo “burra” é no sentido de que passa a ser um rito formal e mais um processo que se faz não pelo seu sentido, mas por ser uma exigência legal. E como toda exigência legal, cai numa rotina mecânica em que a efetividade é a menor das preocupações, mas a lei está sendo cumprida (e temos um batalhão de gente para falar, defender e julgar caso contrário!!).

Ser transparente é uma boa prática de gestão? Acredito que sim, quando se utiliza dessa transparência para comunicar bem com seus stakeholders, de modo a gerar alinhamento, dar visibilidade e reconhecimento ao que está sendo feito, valorizando as conquistas, bem como para ampliar governança (compartilhando com um número maior de pessoas os resultados). Transparência é como governança, um processo que vai sendo implantado, cultivado e que é gradativo, mas com objetivo constante. Uma boa rotina de transparência ajuda a criar instituições e uma cultura sadia de cobrança (pois o primeiro a cobrar é você mesmo diante dos resultados não alcançados), tanto no setor público quanto na iniciativa privada.

Transparência é publicidade ou accountability[1]?  Na verdade acho que é um pouco dos dois, e só assim para dar certo. Publicidade pois o bom gestor vai ver que na transparência ele ganha credibilidade pelo que conquistou, bem como não há o que esconder diante de uma prestação de contas (afinal, meta não alcançada não é crime, desde que tenha fundamentação e que não seja fracasso repetido). Assim, acredito que transparência é uma aliada poderosa de qualquer gestão (por óbvio que em empresas privadas ela ocorre de diferentes níveis, e não necessariamente é uma informação pública para toda a empresa ou para a sociedade, podendo ser focada a determinados atores).

Sempre gosto da expressão de que “não basta ser, tem de parecer”: esse é o desafio dos que já fazem e apenas são ruins de comunicar. Digamos que esse é o desafio fácil, e que o real problema da transparência é seu inverso: muita gente que parece, mas não é. Aqui cabe a crítica ao formato de divulgação das informações (os orçamentos públicos que o digam!), a falta de padrão e de objetividade nos relatórios de prestação de contas (e aqui se perde a chance de criar a cultura e institucionalizar a prática, que amadurece diante da repetição e ao contrário, caduca ou se perde diante da falta de base de comparação quando feita por diversas “inovações” que não se preocupam em explicar as mudanças feitas de um ano para o outro, ou pior diante das interrupções abruptas).

Vou tentar dar exemplos do que acredito ser boa prática e explicar melhor o racional (vou citar iniciativas que participei, mas longe de querer ser a única referência ou unanimidade[2]):

Caderno deIndicadores do Governo do Estado de Minas Gerais: mostrar os resultados de cada ano e que foram publicamente pactuados no ano anterior[3], apontando não só para o número, mas para como aquele número é calculado, e deixando claro suas limitações, e o que ele representa. A boa prática aqui é criar a cultura de ter esses números sempre divulgados, seja no cenário favorável (resultados melhorando) ou mesmo no cenário não desejado (piora dos indicadores)[4].

Matriz de Responsabilidade da Copa em Minas: mostrar o que se tinha de fazer e qual setor/departamento ou nível de Governo tinha qual obrigação. Atualiza o que foi feito e o que foi alterado no planejamento com justificativas objetivas, bem como apontava valores envolvidos em cada ação.

Relatório deGestão do Museu de Arte do Rio (MAR): mostrar um resumo do que foi feito, do que foi gasto e do que se alcançou de resultados. Baseia-se no planejamento estratégico que foi pactuado e tornado público, e relata o que foi e o que não foi atingido, justificando quando do não alcance da meta, bem como relatando a trajetória do ano. É importante tanto no que tange a registrar e criar histórico (é um museu recém-inaugurado e, portanto, está em fase de criação da cultura dessa gestão compartilhada com terceiro setor), bem como fundamental no ato de prestar contas (afinal dinheiro público é dinheiro de todos).

As iniciativas todas tem um denominador comum: são boas práticas e nenhuma delas uma obrigação legal. Todas podem ser criticadas por serem documentos de “publicidade”, mas como defendo, o bom gestor busca as vitrines e evita a vidraça. Na vitrine, por obvio que se está aberto a críticas, e toda vitrine pode virar vidraça, basta não zelar e não ter boa gestão ou bons argumentos de defesa (sabemos também que infelizmente o ambiente inóspito por vezes não permite uma discussão adequada, e reprime qualquer tipo de exposição do assunto). Mas bons gestores organizam-se para planejar, ter metas coerentes e trabalhar para alcançar, e diante disso, os resultados acontecem e a transparência de dá força, e criam as boas instituições, os controles e cobranças salutares. Geram base para que a sociedade possa avaliar outras gestões que não conseguem manter mesmo nível de transparência. O risco de todas elas é ser descontinuada, na medida em que for mais vidraça do que vitrine (o que tende a ser devido a uma falta de foco na gestão interna, com menor disposição a esse tipo de pauta). Assim o desafio da transparência é se institucionalizar, no sentido de ser vista como valor público e algo valorizado e esforço reconhecido pela sociedade, independente de leis[5].

Aqui certamente meu amigo tem razão, o que importa não é o relatório de gestão, é a gestão. A transparência é a cereja do bolo, e só faz sentido se houver consistência nas entregas e resultados ali apontados. O que faz a diferença no fim das contas é a prática, e seria muito bom ver mais prática e menos discurso em nosso país.


[1] Um termo bonito que vou traduzir de modo simples como prestação de contas.
[2] Agradeço sempre os amigos que me criticam e me fazem refletir se o caminho é o adequado, lembrando que meu ponto de vista é um ponto de vista tão somente.
[3] Aqui em um documento também de transparência chamado Acordo de Resultados, que apenas tenho a crítica de ser grande e confuso pela seu viés jurídico e com uma tendência de perda de foco em anos recentes dado a ampliação do número de metas/indicadores.
[4] Que por sua vez dependem da boa cultura de ter uma gestão orientada por metas pactuadas.
[5] Para ficar claro, se a cultura vier acompanhada de lei, ótimo! Não pode é cair no processo “burrocrático”, na crença de que primeiro vem a lei e a cultura vem na marra. Que o foco seja na formação e/ou seleção das nossas lideranças, e que se houver lei, que seja específica acerca do padrão e da rotina de prestação de contas, sem engessar ou generalizar, banalizando. 

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