Um dos temas que
mais se encontra emaranhado de ideologia reside na decisão se algo deve ser público ou privado. Não vou negar que
tenho uma prevalência pela posição de que privatizar é preferível. Para aqueles
que já estão tachando-me de pecador, capitalista, insensível ou sei lá o que
nesse momento, por favor, em nome de uma sociedade com maior capacidade de
análise crítica, busque ler com o espírito mais aberto possível para
compreender minha linha de reflexão acerca desse tema[1].
Duas ponderações
importantes:
1) quando digo
privatizar não uso na forma mais estrita da lei. Não necessariamente falo da
opção de vender e tornar privado. Nesse rol de prestação privada, estou
inserindo toda e qualquer forma de gestão de um serviço que passa a ser feito
por entidades privadas, assim englobo, concessões, PPPs, privatizações,
parcerias, etc[2];
2) quando digo
entre a escolha de estar sob a gestão pública ou privada, não pretendo mudar a
característica do serviço em questão, mas sim sua forma de provimento. Bens públicos
dizem respeito àqueles bens que tem uma incapacidade de ser cobrado
individualmente, como o velho e bom exemplo da iluminação pública: todos nós
usamos e não se faz possível (ao menos, ainda não), cobrar em separado para
cada um ou excluir alguém de seu uso. Mesmo respeitando que alguns bens são
públicos, podemos fazer sua provisão, de modo público ou privado (continuará sendo
pago por meio de impostos, taxas ou algo similar do mesmo jeito). E o que está
por trás dessa decisão é o que deve nortear nossa reflexão.
Vamos a uma premissa da minha reflexão: quero serviços
melhores, e enfim, acho que alguns milhares que
tomaram as ruas também, mas diferente deles, estou falando de um caminho objetivo
para alcançar a melhoria: privatizar e regular.
Qual a diferença do público e privado? Instituições e
pessoas, mais instituições do que pessoas.
Instituições na
medida em que o conjunto de regras que norteiam o ambiente, por exemplo, é
radicalmente diferente: no público prevalece, ‘só pode ser feito o que está na lei’, já o privado é regido pelo ‘tudo que não for proibido é permitido’.
Isso muda tudo, pois permeia um ambiente
de flexibilidade e capacidade de resposta, ao passo que o outro é travado,
lento, e com várias limitações e culturas de é melhor negar do que o ônus de fazer
e ser questionado. Uma experiência pessoal: ser gestor público comprometido
com as entregas é um peso gigantesco, uma responsabilidade tamanha e uma carga
muito grande, sempre sob o risco de ser questionado pela legalidade do ato. Admiro gestores públicos comprometidos com
a entrega, sei que assumem vários riscos, e isso é um ato corajoso e necessário.
Contudo, como eu mesmo vivi, isso representa um peso institucional grande que
adiciona o elemento de pressão e stress. Como estamos falando de pessoas em
instituições, estamos falando em limitação de manter a motivação e toda uma
cultura pesando em desfavor do gestor público comprometido. Acomodar, resignar,
começar a achar que ‘o não tão bom’ é
aceitável, pois é melhor que ‘o ruim’.
Existe um ciclo da cultura do setor público difícil de ser quebrado e com
muitas amarras. Sem dúvida é possível mudar, mas demanda tempo, tem um custo
alto[3], e ai que o privado
aparece como solução: por que não deixar
a execução com quem tem flexibilidade de ação?
O setor privado
não é nenhuma panaceia. Mais uma vez: nada de acreditar em mágica. Mas o
ambiente do setor privado é mais flexível, e isso muda tudo, permite que
mudanças sejam mais rápidas, que haja maior foco em resultados e maior
velocidade de resposta e entrega. Exemplos básicos: quanto tempo se gasta para
comprar material de consumo, tipo papel
higiênico no setor público? Conta-se em meses. E no setor privado? Conta-se
em horas, para não dizer minutos.
Certamente é possível
fazer o setor público ser eficiente, e comprar papel higiênico rápido, é só
planejar, fazer estoque, ser efetivo na construção dos procedimentos licitatórios,
resumindo: só ter uma equipe de primeira linha. Ai reside a diferença com setor
privado: o número de pessoas e o custo envolvido no processo em relação ao
setor público. Se contabilizássemos o custo de pessoal apropriado em bases de
cada coisa que se compra no setor público, veríamos a gigantesca distorção. Mas
no setor público, a conta de pessoal é uma obrigação e será paga de qualquer
modo, assim, vamos focar nas economias e falar que economizamos milhares de
reais com a compra de suprimentos, enquanto gastamos milhões com a folha de
pessoal. E aqui nem falo do ambiente de motivação que vai fazendo a equipe de
primeira linha, perder energia e somar-se à cultura não tão desejada.
Assim, sempre
que me deparo com qualquer prestação de serviço, me pergunto: por que isso já não
esta com o setor privado? E eis a questão fundamental: capacidade de implementação
e regulação das privatizações. Muitas vezes não temos um serviço já privatizado,
pois para implementar esse processo é necessário uma equipe, um estudo, um
procedimento que é custoso e exige tempo e planejamento. Mas diferente de
comprar papel higiênico, estamos falando de contratos maiores (prazo e valor),
que necessitam ter uma clareza acerca do chefe: qual o objetivo que ser quer? E
nesse fato, acho super legítimo que diferentes governantes e ideologias definam
diferentes objetivos: uns podem achar que estádios de futebol têm como objetivo
não gerar gasto e se puder, gerar receita para os cofres públicos. Outros podem
achar que futebol é um patrimônio público e deve ser subsidiado, e ter um
estádio é um custo público (subsidiado) e o foco é ter um serviço de qualidade.
Enfim, o objetivo pode ser distinto e
decidido pelo sistema democrático de representação, mas seja qual for, fazer
por meio de instituições privadas, com flexibilidade maior para implementação parece
ter maior probabilidade de sucesso.
Pense nisso: por
que não passar a execução de algo para o setor privado, uma vez estabelecido os
objetivos de modo claro? Lucro legítimo se alcançar os objetivos. E que com
processos bem feitos, que sejam transparentes e bem geridos, criam novos
mercados na prestação de serviços (que geram novos postos de trabalho,
arrecadação, etc).
Mas nem tudo são
flores, pois as premissas são de que:
1) existe capacidade de construir esses
processos de privatização: capital humano existe, tem que haver foco e
vontade para essa agenda de privatização (nesse ponto temos de elogiar a
iniciativa das concessões dos Aeroportos....já era sem tempo!);
2) existe definição dos objetivos com as prestações
de serviço: e aqui a coisa já é mais delicada, envolve a habilidade de saber
os resultados esperados pelo governo e a capacidade de monitorar tais
resultados (um caminho grande a ser trilhado aqui, que exigirá muita
transparência e uma maior competência de gestão por resultados na nossa relação
sociedade-governo);
3) existem potenciais empresas privadas
interessadas e com essa competência: e acabamos descobrindo que não temos
um setor privado preparado, que também tem deficiências na prestação de
serviços, que não é empreendedor e muitas vezes não está comprometido com a excelência
da prestação de serviços (querem exemplos: nas licitações aeroportuárias de
Viracopos e Guarulhos acredita-se que faltou know-how, tanto é que nas consultas para concessão de Confins e
Galeão já estão se realizando exigências maiores acerca de operar grandes
aeroportos).
Para fechar a
reflexão vou defender um modelo que ajudei a construir, que não é perfeito, mas
acredito no seu valor público e seu potencial, desde que sua regulação seja bem conduzida nos anos
que se seguem. Trata-se de um grande legado que podemos deixar para Minas
Gerais com a Copa do Mundo: o fim da gestão
estatal de Arenas!
Qual a razão para
existir uma instituição publica para fazer a operação das Arenas, cuidando de
limpeza, bares, locação, bilheteria, e tudo mais que envolve o mundo do
entretenimento? Durante muitos anos, o Mineirão foi mal tratado, mal cuidado, e
o resultado pode ser relatado por quem vivenciou: banheiros deploráveis,
serviço ruim, estrutura precária e não convidativa[4]. Fazer a gestão de uma
arena no contexto público é uma insanidade, recurso nunca será a prioridade
(assim esperamos), todo o mundo político quer favores e benesses nos eventos de
futebol e shows, entre outros argumentos. A ausência de flexibilidade para
fazer receita própria, gastos necessários tempestivamente, somados ao
esvaziamento de capital humano que decorre de instituições públicas que deixam
de ser prioridade construíram um ambiente nada desejável para entregar serviço
de qualidade. Fazia-se o possível, mas longe do que se pode dizer de desejável[5].
Existia a
demanda por serviços melhores, e a Copa do Mundo, com sua obrigação de
modernizar o estádio era a prioridade que faltava para fazer do limão, a
limonada. Com uma PPP, alem de cumprir a obrigação com menor comprometimento de
caixa no curto prazo, passava-se a um modelo que iria observar a qualidade do
serviço prestado e ao invés de pagar por uma obra, ir-se-ia pagar pela
prestação de serviço, por um parceiro privado (que idealmente iria ter lucro e
diminuir a necessidade de aporte público).
Vencemos a etapa
de modelar, a PPP foi realizada o contrato assinado. Criou-se um modelo de
indicadores de qualidade que está sendo implementado[6]. Trata-se de um desafio
grande atual e em alguma medida, vale a reflexão se não teria um modelo mais
simples, pois o custo de regular esses indicadores é alto. Quanto a ter um
setor privado preparado, infelizmente, tenho que dizer que ainda não temos,
diante daquilo que estamos vendo ser feito desde a inauguração: tem muita competência
a ser melhorada[7].
A agenda de
privatizar é polêmica, pois envolve muitos interesses. Muitas das vezes envolvem
custos concentrados e benefícios difusos, e diante disso, se opta por manter os
sistemas vigentes ao invés de buscar soluções mais eficientes para o país,
serviços melhores para nossa sociedade. Enfrentar
e priorizar essa agenda apresenta-se como um caminho possível. É uma causa,
nobre no meu entendimento. Colocar o público e o privado no lugar certo, um
planeja e regula, o outro executa e empreende. A dupla planejar e implementar se aproxima da parceria entre público e
privado, em que o público delega a implementação, regula e induz um setor
privado mais comprometido com a excelência e com o alcance dos resultados de
serviços de qualidade.
[1] Fico
igualmente aberto a argumentos pela manutenção de ser público: pode comentar!
[2]
Por óbvio que para cada modalidade se tem uma série de detalhes importantes,
mas para a presente reflexão esses detalhes da modalidade são secundários, como
espero deixar claro. A ideia que vale é sair da execução direta em prol de um
modelo de execução mais eficiente.
[3]
Voltando ao meu depoimento pessoal, me vi em descompasso de tempo com a
instituição: eu queria mudar em uma velocidade que geraria muito conflito e era
divergente com o tempo institucional e sua maturação.
[4] E
mesmo assim com grande potencial, representando o maior ponto turístico de BH.
Só não sei se o turista que ia uma vez voltava.
[5] Pesquisas
com usuários do Mineirão foram feitas e mostravam notas ruins ligadas a
limpeza, serviço de alimentação disponível, etc.
[6]
Tem-se a contratação de um verificador independente, uma espécie de empresa de
auditoria para apurar os indicadores de qualidade e desempenho do parceiro
privado na prestação do serviço. Imagino e espero que a transparência desses indicadores e medidas seja adotada como norma em breve.
[7]
Sobre esse tema, vou voltar a falar com mais detalhes em futuras postagens,
pois merece uma reflexão a parte.
Gostaria de acrescentar sobre o meu ponto de vista a implementação de uma gestão privatizada exige um processo de mudança monstruoso no setor público, principalmente da perspectiva dos órgãos de controle. E necessária uma generalização do entendimento de que essa ação não e ruim por natureza. Assim, a cobrança passa a ser por modelos melhores e por qualidade e rigidez na gestão dos contratos, o que leva a evolução. Debater e necessário.
ResponderExcluirSem dúvida o papel de controle é fundamental e necessário a qualquer ambiente de boa regulação, afinal não deixa ele tambem de ser uma regulação. Exageros e excessos é que são temerários, quando não se tem claro o que é o resultado e quando o órgão de controle passa a querer ser executivo (definir o melhor modo de fazer) ou quando se perde de vista um principio constitucional do mais relevante: RAZOABILIDADE.
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