O estranho de
ser consultor é se ver defendendo o óbvio, na medida que você parece menos
inteligente do que acha que é. É algo lógico de ser defendido, mas em grande medida frustrante
para o cliente que esperava alguma solução mais mágica. Sorte, milagre ou
mágica (chame como quiser) só existe para quem faz a lição de casa: o óbvio. E
ao falarmos de planejamento, necessariamente estamos falando de sua
implementação. Não há bom planejamento que se não for implementado, gere
resultados. Argumento mais que lógico, mas na prática o grande desafio
gerencial.
O descasamento
entre o planejamento formulado e a sua execução, ou sua implementação já foi
alvo de diversos trabalhos acadêmicos, e cito, Henry Mintzberg apenas como uma
referência de autor conceituado que aponta esse desafio. O grande risco dessa
desconexão é atribuir o fracasso ao planejamento, e perder seu verdadeiro
valor.
A função do
planejamento é criar um mapa, um guia de escolhas (e logo renúncias) que
abordam a melhor forma de fazer uso dos meios disponíveis e/ou dos caminhos
escolhidos para se alcançar um determinado conjunto de resultados. Aqui, uma vez mais, entra
a figura chave da necessidade de se identificar resultados que sejam passiveis
de monitoramento, a importância do termo gestão por resultados. E com base nisso, já podemos identificar um
ponto de atenção: ao ver planejamentos que são só blá-blá-blá, que não tenham
uma identificação clara de entregáveis (sejam indicadores de resultados e/ou
projetos a serem executados, com marcos e metas), faça bom uso do seu poder,
negue se for um consultor externo, faça algo melhor se for esforço interno, ou
em vindo como imposição, manifeste-se (grite e corra).
Planejar é
essencial, e aqui me recordo quando recebi uma delegação britânica que falava
da organização das Olimpíadas 2012 de Londres, que ainda não tinha ocorrido, e
tentavam sensibilizar algumas implicações para os Mega Eventos que viveremos no
Brasil. A constatação da diferença entre nós e o Reino Unido era que eles
usaram um esquema 5-4-1 e nós caminhávamos para um 2-5-3 (e isso não era a
forma tática da seleção em campo[1]). Eles gastaram 5 anos
planejando, 4 anos executando e um ano fazendo adaptações e correções. Enfim,
não precisa dizer que nosso país planejou e se preparou pouco (a dizer que não buscou um consenso e um plebiscito na hora de validar e deu no que tá dando), partimos logo para implementação, e
pagaremos o preço no maior tempo e recursos gastos em correções. Planejar é
importante! Implementar o planejado é crucial. O planejamento não é lido como camisa de força, mas sim como guia, que vai sendo adaptado,
buscando maximizar resultados e minimizar necessidades de ajuste após a
execução.
Assim sendo,
vale a pena ficar atento ao óbvio. Garanta que tenha em mãos um bom planejamento
(não caia na bobagem de que isso não tem valor e o vamos que vamos da execução
vai garantir a sobrevivência da sua empresa). Planejar não é um manual rígido,
e eu particularmente, sou da opinião que não existe nenhum manual que deve ser
seguido do tipo preencha as lacunas vazias e siga estritamente um processo de
acompanhamento. Cada instituição tem sua realidade. O importante é
entender a maturidade da sua
instituição, entender o valor de se ter um mapa (PLANEJAMENTO) para que você saiba para onde
está caminhando, e CAMINHAR, fazendo devido monitoramento desse mapa.
Como instituições
privadas tem uma política mais complicada para tornar esse tipo de documento público (quando eles existem, e acreditem, muitas empresas grandes não tem um
planejamento que possamos defender como adequado), vou me restringir a apontar alguns planejamentos da
esfera pública, focando ainda em alguns que participei direta e indiretamente, fazendo a devida análise crítica.
O Plano Mineiro de Desenvolvimento Integrado (PMDI) teve a partir da sua versão de 2007 um
caráter pioneiro, por deixar de ser só intenções genéricas pouco passiveis de
qualquer controle social, ganhando uma versão com o tão necessário foco em
resultados. Esse planejamento foi complementado pela evolução dos indicadoresde resultados que foram sendo monitorados e publicizados. Tal iniciativa merece
destaque e atenção quanto a sua evolução/institucionalização, de modo a não
perder a relação entre aquilo que é planejado, o que é implementado e seu
devido monitoramento.
No que tange a
Copa do Mundo em MG, houve um esforço pioneiro no país de se planejar, se elencar prioridades e
escolhas, mas com um grau menos denso de entregáveis do que se faz necessário.
Em alguma medida um esforço de se complementar tal planejamento com uma Matriz de Responsabilidade foi feito, representando uma forma de prestação de contas,
bem como decorrente do entendimento de que o planejamento não é algo imutável. Contudo em pleno momento de maior pedido popular de transparência, não se vê a
devida sequencia desse modelo de prestação de contas ou algo similar[2].
Por fim, um
exemplo de instituição do terceiro setor, o Instituto Odeon, a OS que faz a
gestão do Museu de Arte do Rio (MAR), que tive a honra de participar da
elaboração do planejamento e acredito no trabalho feito (ainda bem não é?), e
que demonstra um esforço de criar um documento que norteie a instituição e seja
passível de monitoramento acerca dos seus resultados. Como se trata de algo
recente, o ano de 2013 é decisivo para a tão importante dupla inseparável do
planejamento: acompanhar e garantir sua implementação.
[1]
Não estou sendo 100% fiel aos números apresentados por eles, mas a ideia é
corretamente retratada.
[2] A
última versão da matriz data do inicio de 2012, e em meados de 2013 já se
deveria ter tido uma nova publicação dessa matriz. Existe uma publicação relativas aos gastos públicos e suas justificativas, mas que claramente representa o
cumprimento de uma obrigação formal, que não faz a devida relação com os itens
e metas da matriz/planejamento e não se preocupa com a forma de tornar a
informação transparente.
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