terça-feira, 2 de julho de 2013

Planejamento e implementação: o casamento que parece óbvio, mas não é

O estranho de ser consultor é se ver defendendo o óbvio, na medida que você parece menos inteligente do que acha que é. É algo lógico de ser defendido, mas em grande medida frustrante para o cliente que esperava alguma solução mais mágica. Sorte, milagre ou mágica (chame como quiser) só existe para quem faz a lição de casa: o óbvio. E ao falarmos de planejamento, necessariamente estamos falando de sua implementação. Não há bom planejamento que se não for implementado, gere resultados. Argumento mais que lógico, mas na prática o grande desafio gerencial.

O descasamento entre o planejamento formulado e a sua execução, ou sua implementação já foi alvo de diversos trabalhos acadêmicos, e cito, Henry Mintzberg apenas como uma referência de autor conceituado que aponta esse desafio. O grande risco dessa desconexão é atribuir o fracasso ao planejamento, e perder seu verdadeiro valor.

A função do planejamento é criar um mapa, um guia de escolhas (e logo renúncias) que abordam a melhor forma de fazer uso dos meios disponíveis e/ou dos caminhos escolhidos para se alcançar um determinado conjunto de resultados. Aqui, uma vez mais, entra a figura chave da necessidade de se identificar resultados que sejam passiveis de monitoramento, a importância do termo gestão por resultados.  E com base nisso, já podemos identificar um ponto de atenção: ao ver planejamentos que são só blá-blá-blá, que não tenham uma identificação clara de entregáveis (sejam indicadores de resultados e/ou projetos a serem executados, com marcos e metas), faça bom uso do seu poder, negue se for um consultor externo, faça algo melhor se for esforço interno, ou em vindo como imposição, manifeste-se (grite e corra).

Planejar é essencial, e aqui me recordo quando recebi uma delegação britânica que falava da organização das Olimpíadas 2012 de Londres, que ainda não tinha ocorrido, e tentavam sensibilizar algumas implicações para os Mega Eventos que viveremos no Brasil. A constatação da diferença entre nós e o Reino Unido era que eles usaram um esquema 5-4-1 e nós caminhávamos para um 2-5-3 (e isso não era a forma tática da seleção em campo[1]). Eles gastaram 5 anos planejando, 4 anos executando e um ano fazendo adaptações e correções. Enfim, não precisa dizer que nosso país planejou e se preparou pouco (a dizer que não buscou um consenso e um plebiscito na hora de validar e deu no que tá dando), partimos logo para implementação, e pagaremos o preço no maior tempo e recursos gastos em correções. Planejar é importante! Implementar o planejado é crucial. O planejamento não é lido como camisa de força, mas sim como guia, que vai sendo adaptado, buscando maximizar resultados e minimizar necessidades de ajuste após a execução. 

Assim sendo, vale a pena ficar atento ao óbvio. Garanta que tenha em mãos um bom planejamento (não caia na bobagem de que isso não tem valor e o vamos que vamos da execução vai garantir a sobrevivência da sua empresa). Planejar não é um manual rígido, e eu particularmente, sou da opinião que não existe nenhum manual que deve ser seguido do tipo preencha as lacunas vazias e siga estritamente um processo de acompanhamento. Cada instituição tem sua realidade. O importante é entender  a maturidade da sua instituição, entender o valor de se ter um mapa (PLANEJAMENTO) para que você saiba para onde está caminhando, e CAMINHAR, fazendo devido monitoramento desse mapa.

Como instituições privadas tem uma política mais complicada para tornar esse tipo de documento público (quando eles existem, e acreditem, muitas empresas grandes não tem um planejamento que possamos defender como adequado), vou me restringir a apontar alguns planejamentos da esfera pública, focando ainda em alguns que participei direta e indiretamente, fazendo a devida análise crítica.

O Plano Mineiro de Desenvolvimento Integrado (PMDI) teve a partir da sua versão de 2007 um caráter pioneiro, por deixar de ser só intenções genéricas pouco passiveis de qualquer controle social, ganhando uma versão com o tão necessário foco em resultados. Esse planejamento foi complementado pela evolução dos indicadoresde resultados que foram sendo monitorados e publicizados. Tal iniciativa merece destaque e atenção quanto a sua evolução/institucionalização, de modo a não perder a relação entre aquilo que é planejado, o que é implementado e seu devido monitoramento.

No que tange a Copa do Mundo em MG, houve um esforço pioneiro no país de se planejar, se elencar prioridades e escolhas, mas com um grau menos denso de entregáveis do que se faz necessário. Em alguma medida um esforço de se complementar tal planejamento com uma Matriz de Responsabilidade foi feito, representando uma forma de prestação de contas, bem como decorrente do entendimento de que o planejamento não é algo imutável. Contudo em pleno momento de maior pedido popular de transparência, não se vê a devida sequencia desse modelo de prestação de contas ou algo similar[2].

Por fim, um exemplo de instituição do terceiro setor, o Instituto Odeon, a OS que faz a gestão do Museu de Arte do Rio (MAR), que tive a honra de participar da elaboração do planejamento e acredito no trabalho feito (ainda bem não é?), e que demonstra um esforço de criar um documento que norteie a instituição e seja passível de monitoramento acerca dos seus resultados. Como se trata de algo recente, o ano de 2013 é decisivo para a tão importante dupla inseparável do planejamento: acompanhar e garantir sua implementação.



[1] Não estou sendo 100% fiel aos números apresentados por eles, mas a ideia é corretamente retratada.
[2] A última versão da matriz data do inicio de 2012, e em meados de 2013 já se deveria ter tido uma nova publicação dessa matriz. Existe uma publicação relativas aos gastos públicos e suas justificativas, mas que claramente representa o cumprimento de uma obrigação formal, que não faz a devida relação com os itens e metas da matriz/planejamento e não se preocupa com a forma de tornar a informação transparente.

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