quarta-feira, 17 de julho de 2013

Ambiente de negócios: quando prazo deixa de ser gestão e vira risco

Uma grande aflição para qualquer empreendedor privado é quanto aos prazos em órgãos públicos. Quando menciono prazos em órgãos públicos me refiro aos processos relativos a abertura de empresa, licenciamento ambiental, liberação de mercadoria em portos, etc. Certamente, temos de ponderar que muitas das vezes existem casos de não seriedade no setor privado, que querem ter aprovação de qualquer modo e sem cumprir os devidos requisitos técnicos. Assim sendo, vamos ponderar e assumir duas premissas:

1) Processos que envolvem aprovações de órgãos públicos devem ser estritamente técnicos, dado que envolvem requisitos legais. Ou seja, devem-se observar critérios objetivos e que são aplicáveis as realidades de cada empreendimento/processo;

2) Tempo é uma variável fundamental para qualquer empreendimento privado, pois influencia diretamente em qualquer conta de retorno de capital, o que é a valoração de qualquer investimento produtivo.

Desta maneira, ter e cumprir prazo têm de ser uma variável relevante para o ambiente de negócios de qualquer sociedade, na medida em que estimula a atração de investimentos, e os benefícios decorrentes. Da mesma maneira, processos que envolvem aprovação pública devem ser técnicos e não políticos, na medida em que os impactos e requisitos de cada processo são elaborados visando (ao menos em teoria) o bem estar coletivo, no sentido de mitigar ou coibir usos inapropriados e danos a bens públicos ou de caráter de preservação, ou mesmo abuso de poder econômico e fraudes.

Certa vez, quando estava no processo de elaboração do estudo denominado Agenda de Melhorias, ainda atuando no setor público, escutei uma sugestão muito interessante de um conceituado executivo privado: dever-se-ia cria um sistema de prazo ao contrário, se em X dias não se manifestar, fica aprovado tal processo. Essa sugestão me chamou atenção e vi com bons olhos os incentivos que ela gerava, pois forçaria uma priorização por parte do órgão regulador (que aprova cada processo), forçaria uma resposta mais sistemática no sentido de manifestar em casos de falta de requisitos técnicos (documentos que compõe o processo), e criaria um sentido de urgência diferenciado, dando maior previsibilidade para o setor privado. Infelizmente, na ótica de um Estado com foco no legalismo tal ideia não encontra ressonância, pois o bem público poderia estar em risco, e a falta de pessoal poderia ser apontada, e existe uma enorme cultura contraria a qualquer inovação desse tipo no setor público.

Atualmente, vivendo e sobrevivendo no setor privado, vejo o quanto a lógica dos prazos é perversa. Imagine tentar fazer e atrair investidores, sendo que seu cronograma pode errar por alguns meses/anos, por conta de algum parecer, processo em um órgão público. Basta dizer que é o suficiente para gerar um total descrédito no seu projeto. Ou seja, você pode estar disposto a fazer tudo dentro da lei, preservar, mitigar, compensar, enfim, dar a cara à tapa, mas mesmo assim, o risco da demora existe.

Qual seria a solução? Sem duvida, a inversão de prazo faria sentido! Caso isso seja muito inovador, a preocupação com um indicador do tipo “percentual de processos realizados com menos de X dias”, no qual se gostaria de ter metas cada vez maiores com um prazo de X dias que seja decente, ou “número médio de dias para resposta dos processos”, em que a meta seria de fazer cada vez em menos tempo, seria algo fundamental para a criação de uma sociedade melhor, uma melhor relação entre público e privado, sem jeitinhos, politicagem ou favores, sendo pautado pelo rigor técnico que tais relações exigem. Ter gestão é abrir menos espaço para a deturpação (para não usar outros nomes).

Para apenas ficar com a parte do elogio[1], a Junta Comercial de Minas Gerais no processo de abertura de empresas vem mostrando ótimos retornos e previsibilidade! Talvez por ter uma preocupação na gestão por resultados do Governo do Estado em ter o indicador de Tempo de Abertura de Empresas[2] como uma de suas principais metas (sinal que quando quer e tem gestão, funciona![3]). Na mesma linha, tem-se a criação do indicador ‘tempo médio para a deliberação de pedidos de licenciamento ambiental’[4]. Sobre ambos os indicadores nessa iniciativa louvável, fica questão da transparência, que sempre pode ser melhor e deve ser um exercício continuo de se fazer entender para o cidadão[5], bem como o desafio de saber bem o que se está medindo e a melhoria de fato de tais medidas.

Risco é algo que o setor privado está disposto a correr. Contudo, ainda na visão do setor privado, risco é precificado. Quanto mais risco, mais caro, maior o preço que vou cobrar ou o retorno que vou querer para incorrer em tal risco. Como não tem almoço grátis, quem paga a conta somos nós: sociedades que apresentam risco maior, pela ausência de instituições comprometidas com prazo, por exemplo, tem menos investimentos, atraem menos empresas, geram menos negócios. Uma possível solução esta na Gestão que observe e encare isso como um resultado para nossa sociedade vir a ser melhor do que é.




[1] Sejamos construtivos, mesmo sabendo que tem um monte de exemplo de falta de compromisso público com prazos.
[2] Esse indicador pode ser visto no documento de transparência da gestão pública mineira, Caderno de Indicadores, desde 2009 (primeiro ano desse documento) até 2012. Infelizmente em 2013 esse indicador de resultado não esta no documento de transparência, mesmo sendo meta via Acordo de Resultados, que é um contrato degestão com as metas internas de cada órgão.
[3] Tal indicador está no patamar de 9 dias, e com meta para ser ainda menor (alguns países conseguem fazer em horas).
[4] Esse indicador contudo ainda apresenta patamares altos, sendo na média 126 dias em 2012 (ou seja, quase 4 meses, sendo que isso é média, e portanto os desvios podem representar tempo suficiente de não credibilidade).
[5] Nesse sentido, minha opinião é que é eles deveriam estar constantes no Caderno de Indicadores 2013, dado sua grande relevância para a criação de um Ambiente de Negócios em Minas Gerais.

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