quinta-feira, 16 de maio de 2013

Concurso público: a busca por uma carreira ou a perdição de uma cultura?


Algo que costumo perguntar quando me vejo diante de um grupo de alunos universitários é: “Quem tem pretensão de fazer um concurso público?” e, via de regra, o percentual de respostas positivas tende a ser bem superior a metade do grupo. Isso constantemente me estarrece, pois a resposta, por diversas conversas mais aprofundadas que já tive, está mais ligada à ideia de estabilidade do que ao desejo da carreira. Uma outra tristeza que nos assola é que a escolha pelo concurso tende a ser feita pela coluna da remuneração, e mais uma vez a noção de desejo da carreira, do objeto do que se irá fazer é colocada em segundo ou terceiro plano.

Obviamente, e antes de iniciar a reflexão crítica desse assunto de concurso público esse obviamente é fundamental, existem pessoas que tem extrema motivação nas suas carreiras, jovens que são apaixonados com determinadas tarefas públicas e que tem no concurso público a porta de entrada para esse sonho. Contudo, pela minha vivência e observação empírica mundana, trata-se de uma minoria, infelizmente. E feita tal ressalva, nos cabe colocar esse modelo de gestão, da forma de prover pessoas para o setor público, em reflexão.

O estatuto que tem de ser questionado é o da Estabilidade. Em um aspecto mais prático ou pragmático, o que significa estabilidade para os jovens universitários: risco zero de preocupação em perder o emprego. Contudo, também significa “pra sempre” (até a aposentadoria), e convenhamos que pensar que um jovem na casa dos vinte e poucos anos está buscando algo pra sempre é solapar o desenvolvimento profissional dele, já não bastasse o diploma que é uma escolha eterna (que se faz antes da casa dos vinte, mas que felizmente se pode mudar ao longo do curso ou fazer uma nova opção ao longo da vida).

A anedota do “pra sempre” é algo bem curioso que experimentei por acaso. Como diz meu perfil, formei na Escola de Governo da Fundação João Pinheiro, e o sistema que ingressei é um vestibular que significa um concurso público. O casuísmo dessa minha escolha decorreu de uma informação acerca desse vestibular passada por um professor de Literatura no 3º ano e minha tentativa bem sucedida no vestibular de Ciências Econômicas na UFMG e na PUC, que geraram a pressão da minha mãe para que eu iniciasse os dois cursos e depois uma reopção de curso na PUC. Quando vi que havia passado em 2ª chamada na Escola de Governo, não pensei 2 vezes, abri mão da minha vaga na UFMG, e lá estava eu com 18 anos e uma perspectiva “pra sempre”no setor público. Para sempre nunca me foi uma verdade, mas não posso negar que foi uma âncora, pois a decisão de abrir mão do “pra sempre” que fiz no último ano não é simples: você se vê sem garantias. Contudo, eu observei que a âncora gera estabilidade e segurança por um lado, mas impede o avanço e o crescimento por outro[1].

O intrigante da noção de segurança e estabilidade é que a tendência da gestão moderna é que pessoas sejam flexíveis[2], tarefas sejam alteradas, que você terá mais de uma carreira durante sua vida. E nesse sentido, o modelo de concurso e carreira pública atual no Brasil esta na contramão da modernidade.

Qual o preço disso? Desmotivação e Ineficiência.

Sabe-se na gestão de pessoas que dinheiro não motiva, a falta dele desmotiva. É o que se chama de fator higiênico. Pois bem, quando se escolhe a carreira pelo salário, o resultado é que se esforça para passar no concurso público (e existe todo um sistema de cursinhos e apostilas para a preparação nesses concursos), se fica imensamente feliz quando se passa (imagino eu), pois se tem a perspectiva de uma vida de estabilidade, em que seu salário está garantido, e se tem a sensação de riqueza, mas ai vem o dia-a-dia, as tarefas, as rotinas, e não há identificação, não há prazer, não há desafio, e se conta o tempo para cumprir a jornada, se reclama, e esse é o cenário pitoresco da desmotivação. Já vi inúmeros casos de pessoas com formações em áreas de saúde e biologia, para citar algumas, buscando cargos administrativos, muitas vezes até de nível técnico, mas que pagam bem. E já vi o reflexo desses casos, que odeiam o trabalho, e que esse vira o verdadeiro instrumento de tortura que deu origem à palavra trabalho. E vem o cômico desse nosso pacto social: jovens não vendo a hora de aposentar!

Mas fruto desse mesmo modelo de gestão nada moderno, temos o pior, a ineficiência do setor público, que tem uma de suas raízes nessa baixa produtividade do trabalhador, que em grande medida é decorrente da desmotivação dos cargos e seus ocupantes, do baixo estímulo criativo, e nesse ponto, inúmeros funcionários públicos vão apontar o dedo e dizer que é culpa do setor público. Ele que deveria prover ambientes mais criativos, melhores estruturas, e tenho certeza, 99% dos casos, vai terminar advogando que o problema é de salários baixos! (e a gente já sabe que salário não motiva e que as pessoas são livres para escolher outras funções que pagam mais, mas a âncora está ali...no pé delas).

Em um ambiente estável, ainda mais se for desmotivado, pouco tende a mudar ou mesmo a funcionar. E ao olharmos as cifras com gasto de pessoal no setor público, sabemos o quanto a ineficiência é um problema para o país: bastava esse recurso estar sendo gasto com pessoas motivadas (e aqui é fundamental dizer, que não acredito que a maioria dos funcionários públicos sejam desmotivados, mas que uma parcela significativa seja, vi com meus olhos, e qualquer 10% representa muita gente) para que as coisas funcionassem bem melhor e acontecessem bem mais rápido.

Eis que aqui introduzo o contraponto ao concurso, a necessidade de OXIGENAR, a importância da flexibilidade de criar regras e processos que permitam que pessoas entrem e saem do setor público ou de determinados cargos e carreiras. Grandes soluções ou melhorias advêm do olhar distinto ou da soma de olhares com formações diferentes sobre o mesmo problema[3].

Grande parte da justificativa para a estabilidade está na ideia de que políticos irão capturar esses cargos se não houver essa meritocracia.  Aqui duas reflexões e críticas a esse argumento: 1) por que  preocupar tanto em ter um processo meritocrático que não produz resultado? Logo, por que não introduzir elementos de gestão por resultados para os políticos não eleitos que ocupam cargos gerenciais e isso ser a decisão se fica ou não o que refletiria na sua equipe; 2) por que não optar por processos e regras que blindam parcela dos cargos, de modo que alguns como já são hoje sejam livremente preenchidos, mas uma maioria que hoje é estável, seja de nomeação pelo gestor, mas seguindo critérios mínimos, tais quais: sem filiação a partido político, com determinado curso superior, com tempo mínimo de experiência, algo que já ocorre com algum sucesso no setor privado, e que seriam seleções mais pontuais do que massivos concursos.  E para quem advoga a importância da institucionalização, da memória das instituições nas pessoas, que se crie uma regra que o gestor que não deixar um relatório com essa memória e seu contato para o apoio na transição por 6 meses, cabe processo (e isso de judicializar, nossa sociedade adora: prisão!!!, mas acredito que a maior parte do problema está nas regras e no ambiente que geram ineficiência e por isso mexendo nisso podemos dar um salto). E para os descrentes das regras, vai mais uma percepção: mesmo com as mesmas pessoas, muita coisa é descontinuada e inventada do zero.

Já se tentou reforma administrativa, e em alguma medida esse estatuto da estabilidade foi quebrado no mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso[4]. No que tange a estabilidade, foi uma reforma mais legal e menos efetiva, pois o processo de avaliação de desempenho que se implantou para gerar a perda do cargo público é uma via sacra de no mínimo 3 anos, e convenhamos, gestor sério em 3 anos ou apresenta resultado ou procura outro emprego. E gestor para apresentar resultado precisa de equipe, logo, nada flexível, e a solução tendenciosa é encostar pessoas, é gerar desmotivação (a novela que já narramos aqui).

A revolução necessária é flexibilizar e dar autonomia a gestores intermediários, focando na cobrança de resultados desses gestores, é um aparato macro, mas uma operação micro (cada gestor faz a sua). É criar uma cultura focada na entrega e não no processo. É um sonho a ser iniciado, pois os direitos adquiridos se acumulam e demandarão tempo para permitir essa micro revolução, mas acredito que pelo bem dos nossos jovens vale o esforço. Que eles busquem menos estabilidade e mais realizações[5], que eles experimentem e tenham vivências em diferentes setores, que o país crie uma cultura que não desmotive aos jovens, mas sim que incentive-os a criarem futuros sem âncoras!



[1]Para os interessados fica a indicação de um paper sobre cargos em comissão aplicados à carreira de EPPGG de minha autoria. Defesas mais acadêmicas de ideias aqui apontadas.
[2] Vejam uma de inúmeras tendências de flexibilidade ligada ao trabalho: http://exame.abril.com.br/gestao/noticias/reino-unido-poe-fim-ao-horario-rigido-e-ao-escritorio-fixo
[3] Aqui fica a indicação do livro “De onde vêm as boas ideias”
[4] Muito da reforma ou do seu diagnóstico continua válido e relevante e nem tudo, exatamente por isso, foi implementado conforme idealizado. http://www.cebes.org.br/media/File/Plano%20Diretor%20da%20Reforma%20do%20Aparelho%20do%20Estado.pdf
[5] E para aqueles que tem medo da mudança de emprego, fica a dica da ótima leitura: http://en.wikipedia.org/wiki/What_Color_is_Your_Parachute%3F

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