terça-feira, 21 de maio de 2013

BH e as bicicletas: uma reflexão sobre prioridades e planejamento na gestão


Belo Horizonte é uma cidade conhecida pelo seu relevo acidentado. Os moradores do Santo Antonio, por exemplo, sabem bem disso. Eis que a BHTrans resolve fazer um grande programa de ciclovias em BH, o Pedala BH[1], que propõe que a cidade chegue a 114 km de ciclovia.

Fazendo uma pesquisa rápida, se vê que houve em junho de 2012 uma audiência pública na Câmara dos Vereadores[2] que debateu o assunto, e duas coisas saltam aos olhos: se falou em 280 km de ciclovia e aparece a menção a um custo de R$190 mil por km de ciclovia. Assim sendo, estamos falando de destinar cerca de R$50 milhões para ciclovias em BH, que segundo plano mencionado seriam implantadas até 2020.

A cidade é para as pessoas, me agrada essa forma de expressão que referencio no livro que li de Jan Gehl. A bicicleta além de lazer pode ser um meio de transporte, que é menos poluente e alinhado à ideia de vida saudável.

Contudo, quem está ganhando com as ciclovias? Existiu algum estudo que corrobora a viabilidade das ciclovias? Certamente existem pessoas que apoiam essa ideia, pois gostam de bicicleta e já a utilizavam independente das ciclovias, e certamente ter ciclovias é um ativo para algumas pessoas, um reconhecimento e valorização da bicicleta. Mas diante da visão do que se vê implementado, e das críticas lidas feitas por aquela parcela da população que usa bicicleta, tenho a ligeira impressão que esse é mais um caso de VAMOS FAZER do que o de DEVEMOS FAZER, um caso em que não houve planejamento suficiente, não se estudou a questão e se fez. Em que se pensou apenas na ciclovia, sem levar em conta as outras questões, onde parar a bicicleta, como sensibilizar a população, etc. Se faz e depois do passivo adquirido (dinheiro gasto, desgaste com obras, ocupação das ruas), se pensa no que não funcionou e como remendar.

Ao observar uma questão simples, da implantação da ciclovia, sua ocupação na rua, já vemos problemas. Abaixo aponto o bom exemplo nesse quessito de ciclovia a meu ver (um ser que não entende nada de bicicleta) que está no site da BHTrans, mas também um caso que não esta no site da BHTrans que nessa visão ignorante (não sou engenheiro ou arquiteto) da minha parte, mostra ineficiência e desperdício de recurso público, uma vez que existe ciclovia misturada com fluxo de estacionamento de carros, o que torna a vida de quem estaciona pior, bem como coloca a vida do ciclista em risco potencial (aqui nem vou mencionar a ausência do uso dessas ciclovias na minha observação diária).




FOTO 1 – Bom exemplo de ciclovia implantada. Não há qualquer interferência na ciclovia, que deixa fluxos (de pedestres, bicicletas e carros) bem separados



FOTO 2 – Exemplo de implantação inadequada de ciclovias em BH (região do Lourdes). Estacionamento ao invés de estar protegendo a ciclovia, está interferindo na sua segurança.

Assim sendo, fica a reflexão: qual a efetividade dessa política pública? Houve aumento do número de ciclistas? Quanto se gastou e quanto terá que se gastar ainda mais para corrigir o que não foi planejado[3]? Ciclovia é nossa prioridade? E termino com essa ideia de prioridade: a democracia nos impõe vários custos de vida coletiva, mas o risco é tudo ser prioridade, e faltar foco na ação. O que é R$1 milhão no orçamento para atender uma prioridade dos ciclistas? Certamente R$1 milhão a menos para outras ações. Enfim, podemos e talvez devamos sim fazer ciclovias. Mas podemos fazer com mais planejamento, com mais foco na ação (se é pra fazer, façamos direito), priorizando alguns trechos ao invés de querer fazer um programa de vários km de ciclovias, priorizar um itnerário que estimule e crie essa cultura, focando em um determinado trajeto que possa criar demanda (ou atender a demanda existente). 

[1] Note que é um programa de construir ciclovias...não se tem nenhuma meta relacionada ao uso de bicicletas.

[3] Acho que a BHTrans já assumiu que está revendo algumas implantações, temos de elogiar essa atitude de reconhecer. Mas ainda cabe  no seu site que fala das ciclovias falar quanto se gasta de maneira rápida e clara com cada uma das obras. Ações simples, transparência na prática que permite uma reflexão crítica maior por todos: afinal tudo tem um preço, e nos cabe priorizar.  

2 comentários:

  1. Caro Eder,

    Como todo movimento ou tentativa de mudança cultural, a implantação e devida utlização das ciclovias é um processo.

    Eu acredito que o DEVEMOS FAZER neste caso seja mais DEVEMOS TENTAR ALGO DIFERENTE do que vem sendo realizado, porque está mais do que comprovado que apenas intervenções viárias não vai tornar o transporte diário sustentável (ou suportável) na RMBH.

    Conheci o projeto na BHTrans algum tempo atrás e ele me pareceu bem planejado. Mas, como deve saber, o planejado nem sempre é o executado, por n variáveis.

    por fim, deixo aqui o convite para que visite nossa página sobre o tema e deixe sua contribuição:
    http://ciclominas.esportes.mg.gov.br/

    Abraço,

    Rogério

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    1. Grande Romero,

      Sem dúvida a causa é nobre. Não sou contra a causa esportes ou ciclovias, antes pelo contrário.

      Devo registrar também que a BHTrans tem profissionais muito competentes e não quero aqui fazer nenhuma crítica ao que não vi do planejamento deles. Crítico, de modo construtivo, o que está no site, o que é disponível ao público geral, bem como o seu resultado, o que se vê nas ruas. A transparência e as ciclovias instaladas deixam a desejar. Podia haver mais foco (focar na Pampulha, por exemplo, fazendo um circuito de qualidade é uma escolha, uma prioridade, precisamos mais dessas escolhas, e espero que seja implementado com excelência), minha opiniao: antes fazer pouco, mas de excelencia, do que fazer muitos km sem efetividade.

      No mais, agradeço a contribuição na reflexão. Vi o site sim e acho que é uma iniciativa que se conseguir tornar efetivo o uso da bicicleta nos circuitos turisticos mencionados, é um grande ganho. Fico na torcida pela sua implementação!

      Abraço!

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