No último post fiz uma relação do movimento
social que vem tomando as ruas de nosso país com o aumento do dólar. Gostaria
de fazer um breve explicação da minha reflexão.
Primeiro, o reconhecimento de que existe
mais coisa por trás do aumento do dólar do que somente os protestos. Algo
inegável, que eu mesmo assumi na primeira menção a essa relação. Seria muita prepotência
minha falar que todo o aumento do dólar é guiado por um fenômeno político-social
como esse.
O fato é que o dólar vem subindo de forma expressiva nos últimos dias, vide
figura abaixo. E apresentou variações nessa última semana bem acima da média.
No último mês a variação diária média foi de 0,33%, e nos últimos 7 dias foi de
0,8%, sendo 1,26% dos protestos do fim de semana pra cá.
Fonte: Elaboração própria com base em dados
do site UOL
A explicação de grande parte dessa variação
reside nas questões macroeconômicas advindas da política monetária e fiscal do
país. A ideia de que o Brasil pode ir contra o resto do mundo na condução dessas
políticas soa no mínimo, arriscado. Não vou me atrever a entrar em grandes
detalhes dessa discussão, pois não sou especialista, deixando a recomendação do
livro de André Lara Resende (Os Limites do Possível) para os interessados. Vou
resumir dizendo que existe uma falta de poupança crônica no Brasil, seja das famílias,
seja do Governo, e principalmente do Governo Federal (que nem sequer se impõe uma Lei de Responsabilidade Fiscal - LRF para si, somente para Estados e Municípios), e que o cenário mundial exigia desde 2008, maior parcimônia na condução dessas políticas econômicas.
As recentes ações dos EUA que
promovem uma expectativa de que haverá uma redução dos estímulos na economia
americana, o que em outras palavras, significa uma menor oferta de dólares no
mercado, sem dúvida acentua e deve ser uma das principais causas desse avanço
do câmbio no Brasil (afinal, em uma explicação mais abstrata, se a perspectiva
é de ter menos dólares, mais caro ele fica).
Contudo, vendo os protestos e os destaques
que ele vem ganhando na mídia internacional, não posso deixar de associar tais
movimentos de milhares com o aumento do risco Brasil. A explicação disso é uma
lógica muito simples. Imagine que você é investidor, e tem dinheiro espalhado
no mundo todo. Você começa a ver uma grande movimentação e questionamento
popular generalizado, sem entender a efetiva demanda (afinal, vencido o pleito
1, o movimento ganha força e vai para o pleito 2. Não é uma greve, que se quer
aumento e melhoria, e uma vez finda a negociação, retoma-se o trabalho. É algo
maior, mais complexo, é um questionamento ao “modelo”, só não se tem nenhuma
proposta de qual novo modelo se adotar). O que você faz: deixa o dinheiro lá ou
aplica em um lugar com menos risco?
Na medida em que os movimentos continuam, e
se confundem com as ondas de quebra-quebra e arruaças[1], o cenário do risco vai
ficando ainda pior. Não só o risco aumenta, mas o custo também (afinal quebrar
e saquear bancos ou depredar ônibus é um risco....é um custo potencial de
acontecer), mas ter uma rodovia parada, problemas com a chegada e saída dos
empregados por conta do transito decorrente dos manifestos, etc, é custo por
hora de não produção. Se para o investidor que tem apenas dinheiro, e com a opção
de movimentar mais livremente seu capital, já é tendencioso a preferência para tirar o dinheiro do Brasil no primeiro momento até as coisas se
acalmarem, o que dizer para o investidor potencial. Aquele investidor que quer aportar recursos para investimentos em ativos
produtivos, definitivamente, pensa algumas vezes em fazer esse movimento,
certamente buscando cautela, para ver no que vai dar, ou caso ele já esteja aqui, tentando antever como ficar menos exposto ao risco[2].
Na medida que o barulho dos gritos
histéricos (histeria no sentido de gritar sem saber o que se quer de factível)
continuam retombando mundo afora, nossa credibilidade enquanto país pode estar
linda no sentido de ganhar o apoio internacional (afinal quem é contra a
liberdade em um discurso de embaixada?), mas reparem que a palavra
instabilidade sempre consta nas notas internacionais....e isso representa só
uma coisa: desconfiança = risco = custo país!
Assim sendo, o dólar sobe, haveremos de ter
pressão inflacionária, haveremos de ter aumento dos juros (para pagar o custo
país maior, e manter o capital externo que usamos para compensar nossa
falta de poupança interna), e assim sendo, mais alguns milhões irão ser gastos
com o pagamento de juros dos títulos públicos. Vou ficar devendo só a conta de
quantas vezes esse gasto será maior que os milhões
de centavos que os protestos conseguiram gerar de redução das tarifas do
transporte coletivo....mas certamente, muito acadêmico vai continuar
vangloriando a importância desse grito da nação. Alguns gritam, todos pagam,
afinal não tem mágica[3], tem trabalho a ser feito!
[1] Nesse
sentido achei interessante o ponto de vista de Reinaldo Azevedo, um pouco
exagerado, mas digno de nota: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/ameacas-de-agressao-e-de-morte-ou-quem-tem-a-simpatia-da-globo-precisa-do-apoio-ate-do-pequenino-reinaldo-azevedo-por-que/
[2]
Veja a visão dos espanhóis, o olhar atencioso não é paixão...é avaliação de
risco mesmo: http://luisabelchior.blogfolha.uol.com.br/2013/06/19/os-indignados-brasileiros/
[3]
Apenas reduzir tarifa de ônibus é mágica. Reduzir tarifa de ônibus e cortar
investimentos, bem essa é a triste realidade. Vale lembrar ainda que se o cenário de alto gasto público é uma das raízes do problema do aumento do dólar, dado nossa falta de poupança externa, as demandas que advém dos protestos só agravam esse cenário: não vi nenhum pleito de redução dos gastos públicos ao contrário, só mais demanda de gastos! Sempre é bom lembrar que não existe almoço grátis!
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