quinta-feira, 20 de junho de 2013

Os protestos e o aumento do dólar

No último post fiz uma relação do movimento social que vem tomando as ruas de nosso país com o aumento do dólar. Gostaria de fazer um breve explicação da minha reflexão.

Primeiro, o reconhecimento de que existe mais coisa por trás do aumento do dólar do que somente os protestos. Algo inegável, que eu mesmo assumi na primeira menção a essa relação. Seria muita prepotência minha falar que todo o aumento do dólar é guiado por um fenômeno político-social como esse.

O fato é que o dólar vem subindo de forma expressiva nos últimos dias, vide figura abaixo. E apresentou variações nessa última semana bem acima da média. No último mês a variação diária média foi de 0,33%, e nos últimos 7 dias foi de 0,8%, sendo 1,26% dos protestos do fim de semana pra cá.














Fonte: Elaboração própria com base em dados do site UOL


A explicação de grande parte dessa variação reside nas questões macroeconômicas advindas da política monetária e fiscal do país. A ideia de que o Brasil pode ir contra o resto do mundo na condução dessas políticas soa no mínimo, arriscado. Não vou me atrever a entrar em grandes detalhes dessa discussão, pois não sou especialista, deixando a recomendação do livro de André Lara Resende (Os Limites do Possível) para os interessados. Vou resumir dizendo que existe uma falta de poupança crônica no Brasil, seja das famílias, seja do Governo, e principalmente do Governo Federal (que nem sequer se impõe uma Lei de Responsabilidade Fiscal - LRF para si, somente para Estados e Municípios), e que o cenário mundial exigia desde 2008, maior parcimônia na condução dessas políticas econômicas.

As recentes ações dos EUA que promovem uma expectativa de que haverá uma redução dos estímulos na economia americana, o que em outras palavras, significa uma menor oferta de dólares no mercado, sem dúvida acentua e deve ser uma das principais causas desse avanço do câmbio no Brasil (afinal, em uma explicação mais abstrata, se a perspectiva é de ter menos dólares, mais caro ele fica).

Contudo, vendo os protestos e os destaques que ele vem ganhando na mídia internacional, não posso deixar de associar tais movimentos de milhares com o aumento do risco Brasil. A explicação disso é uma lógica muito simples. Imagine que você é investidor, e tem dinheiro espalhado no mundo todo. Você começa a ver uma grande movimentação e questionamento popular generalizado, sem entender a efetiva demanda (afinal, vencido o pleito 1, o movimento ganha força e vai para o pleito 2. Não é uma greve, que se quer aumento e melhoria, e uma vez finda a negociação, retoma-se o trabalho. É algo maior, mais complexo, é um questionamento ao “modelo”, só não se tem nenhuma proposta de qual novo modelo se adotar). O que você faz: deixa o dinheiro lá ou aplica em um lugar com menos risco?

Na medida em que os movimentos continuam, e se confundem com as ondas de quebra-quebra e arruaças[1], o cenário do risco vai ficando ainda pior. Não só o risco aumenta, mas o custo também (afinal quebrar e saquear bancos ou depredar ônibus é um risco....é um custo potencial de acontecer), mas ter uma rodovia parada, problemas com a chegada e saída dos empregados por conta do transito decorrente dos manifestos, etc, é custo por hora de não produção. Se para o investidor que tem apenas dinheiro, e com a opção de movimentar mais livremente seu capital, já é tendencioso a preferência para tirar o dinheiro do Brasil no primeiro momento até as coisas se acalmarem, o que dizer para o investidor potencial. Aquele investidor que quer aportar recursos para investimentos em ativos produtivos, definitivamente, pensa algumas vezes em fazer esse movimento, certamente buscando cautela, para ver no que vai dar, ou caso ele já esteja aqui, tentando antever como ficar menos exposto ao risco[2].


Na medida que o barulho dos gritos histéricos (histeria no sentido de gritar sem saber o que se quer de factível) continuam retombando mundo afora, nossa credibilidade enquanto país pode estar linda no sentido de ganhar o apoio internacional (afinal quem é contra a liberdade em um discurso de embaixada?), mas reparem que a palavra instabilidade sempre consta nas notas internacionais....e isso representa só uma coisa: desconfiança = risco = custo país!

Assim sendo, o dólar sobe, haveremos de ter pressão inflacionária, haveremos de ter aumento dos juros (para pagar o custo país maior, e manter o capital externo que usamos para compensar nossa falta de poupança interna), e assim sendo, mais alguns milhões irão ser gastos com o pagamento de juros dos títulos públicos. Vou ficar devendo só a conta de quantas vezes esse gasto será maior que os milhões de centavos que os protestos conseguiram gerar de redução das tarifas do transporte coletivo....mas certamente, muito acadêmico vai continuar vangloriando a importância desse grito da nação. Alguns gritam, todos pagam, afinal não tem mágica[3], tem trabalho a ser feito!




[2] Veja a visão dos espanhóis, o olhar atencioso não é paixão...é avaliação de risco mesmo: http://luisabelchior.blogfolha.uol.com.br/2013/06/19/os-indignados-brasileiros/
[3] Apenas reduzir tarifa de ônibus é mágica. Reduzir tarifa de ônibus e cortar investimentos, bem essa é a triste realidade. Vale lembrar ainda que se o cenário de alto gasto público é uma das raízes do problema do aumento do dólar, dado nossa falta de poupança externa, as demandas que advém dos protestos só agravam esse cenário: não vi nenhum pleito de redução dos gastos públicos ao contrário, só mais demanda de gastos! Sempre é bom lembrar que não existe almoço grátis!

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