Não tem como não
ver as manifestações que tomaram conta das capitais brasileiras nos últimos
dias e não entrar em alguma discussão sobre as motivações e consequências desse
movimento. Assim, compartilho um pouco da minha percepção, buscando adicionar
pontos de vista para a leitura desses eventos e de modo que cada um faça sua reflexão
e chegue a suas conclusões.
Primeiro, uma
coincidência: poucos dias atrás, por um acaso revi um modelo que tenta explicar
como ocorre esse tipo de movimento coletivo, buscando modelar como funciona a
lógica dos aplausos em um espetáculo ou palestra[1]. Essa coincidência é
interessante, pois em grande medida esses movimentos que estamos vendo, tem
essa racionalidade. Como eles começaram? Provavelmente, com alguns ‘puxadores’
ou ‘celebridades’ pontuais e alguns ‘grupos pequenos de pessoas que já se
conheçam’ que foram se formando em torno do tema. A base do modelo é que ele
vai agregando mais adeptos aos aplausos quanto maior o volume de gente que se
manifeste: ou seja, o começo é tímido, mas quanto mais pessoas apoiarem, maior
o número de novas adesões que vão sendo puxadas.
Enfim, parece
ser um movimento com lideranças fracas, digo fracas do ponto de vista de
legítimas perante o grupo total do movimento. Começaram a surgir alguns
líderes, mas algo que é emergente (quando os lideres aparecem, grande parte do
grupo já se dispersou) e tem baixa representação de agenda, uma vez que deriva de
propostas/reivindicações bem plurais, para não usar o termo, diversificadas.
Em grande medida
a forma como ela vai se desencadeando me faz lembrar o filme “A Onda” em que um
movimento com um ideal começa a ganhar força junto a um grupo de jovens, esses
ideias, na medida em que vão se fortalecendo, fazem as pessoas entrar mais de cabeça
na defesa do ideal, e quando elas assustam (no caso do filme, quase matam um
jovem), se observa que o grupo perdeu a racionalidade e a forma de questionar
os atos pelo ideal. Espero que nada chegue nem perto dessas proporções (morte
de jovens), mas em grande medida as reverberações do movimento me trazem essa sensação,
de que alguns atos não desejáveis começam a fazer parte do movimento, mesmo que
não de modo espontâneo e planejado, mas eles vão se fortalecendo em torno do
movimento. Sei que existem aproveitadores, que pegando carona nas manifestações
aproveitam para depredar, quebrar, etc, mas não é possível desassociar as
coisas (ou vamos agora falar que o movimento tem pessoas registradas e que
alguns não são representantes legítimos dele?). Um risco de movimentos
derivados de lideranças fracas é que uma vez criados, não se tem o controle das
massas, e isso se reforça pelo argumento de não se ter uma pauta clara de
pleito.
Ao mesmo tempo
em que vejo cenas bonitas, imagens que podem ser brindadas com título de “Viva
a festa democrática”, que mostram um povo mobilizado e com senso patriótico,
observo figuras e apelos genéricos de fim da corrupção, e desejo de melhores
serviços públicos. Vejo expressões de milhares de jovens que querem muito ter
uma causa, um ideal a seguir, e estão desiludidos com a atual conjuntura. Que
se juntam ao movimento para se sentir parte de algo, mas sem saber de modo mais
objetivo o que se quer. Existe um coletivo comum acerca do que não esta se
gostando, mas certamente uma imensidão de individualidades acerca de quais ações
práticas deveriam ser tomadas[2].
Existe uma massa
de manobra sem líder, e que pode ser usada para fins não justificados. Quando
se está aplaudindo, se sente parte daquele grupo vibrante, e pode-se perder a noção
do que esta sendo aplaudido....vai na onda...e ai reside um grande risco. Já vi
isso em movimento estudantil...tudo começa pequeno, uma reclamação quanto o
aumento da mensalidade, quando se vê esta se invadindo a reitoria, e sob a
menor reflexão crítica da sua ação para com os direitos e as propriedades
alheias (patrimônios públicos ou privados).
Por que motivo
isso veio à tona agora? Pela Copa do Mundo na sua fase de teste com a Copa das
Confederações! Vamos usar a vitrine que o país tem para fazer lembrar que
preferimos educação e saúde ao invés de Copa do Mundo! Certamente assinaria
embaixo se fosse uma opção ou um referendo popular! Agora, por que não nos
mobilizamos enquanto país no momento em que o Brasil (sob a tutela do
Presidente Lula) se candidatou a sede dos jogos? Falo com muita tranquilidade o
que falei em diversas ocasiões em reuniões públicas (pois fui durante dois anos
de jun/10 a jun/12 gerente do Projeto Estruturador Copa do Mundo no Governo de
Minas)...nao foi MG que escolheu a Copa...foi o Brasil, por meio do seu
presidente democraticamente eleito (e logo, legitimo no meu entendimento[3])...portanto, uma vez que o
Brasil será sede (e MG por ser um estado essencial para o pais, seja
economicamente, seja pela sua historia do futebol não poderia ficar de fora),
nos caberia a tarefa de fazer a melhor Copa do Mundo possível[4]. Assim sendo, estamos na contramão
da mensagem de uma boa recepção ao turista internacional....estamos passando a
mensagem de ambientes turbulentos e não o de ambiente turístico atrativo (que
gera negócios, emprego e renda para o país).
Voltando a causa
genérica da qualidade do serviço público que foi uma das principais bandeiras
levantadas pelo movimento. Certamente não há nenhum motivo de orgulho para
nosso país e é um tema de fato preocupante. Temos um custo de vida alto, em
grande medida pesado pela carga tributária que arrecada, mas não transforma em
valor público, o famoso e temerário custo Brasil! Certamente temos do que
protestar, pois merecíamos um país melhor. Minha dúvida é em relação a seguinte
questão: o melhor formato de protesto é tomar as ruas?
A internet e as
redes sociais são mágicas e com grande poder de mobilização. Mas existem
diversas maneiras de mobilização: usar uma roupa determinada; parar de comprar
determinado item ou determinada lógica; se negar a pagar impostos por um dia[5], etc. Tomar as ruas é uma
das inúmeras formas e a que tem efeitos não controláveis como estamos
vivenciando. Se o objetivo é fazer parte de algo por uma causa genérica,
certamente quanto menos estardalhaço (e aqui não quer dizer ser visto e
reconhecido) melhor para o ambiente institucional do país. Ambiente
institucional do país? Exato! As pessoas investem todo dia no Brasil, crises de
governança e movimentos incontrolados geram com certeza um efeito: expulsam além
de turistas, investidores e capital. Reparem o dólar: subindo (0,5% só hoje), não
só por isso, mas essa onda não compreendida certamente contribui para tal alta.
E o sentimento de confiança em um país é difícil de construir, mas muito fácil
de perder[6].
[1]Para
quem quiser ver um vídeo sobre “Standing
Ovation Model” e ter mais detalhes técnicos do que cito de modo
superficial: http://www.youtube.com/watch?v=3wfLoeBjwBA
[2] A
única proposta objetiva e clara e mais amplamente apoiada que vi é a briga pelo
passe livre e/ou redução das tarifas do transporte coletivo.
[3]
Mas que ele, justamente ele que é de um Partido a favor da Participação
Popular, podia ter submetido essa decisão à referendo público, podia não é?
[4] Isso
inclui as escolhas dos modelos de como fazer gastos e quais modelos seguir para
honrar os compromissos assumidos pelo país, tema que abordarei com mais
detalhes em posts futuros.
[5]
Sei que isso é feito para questão de gasolina...só não sei as bases legais para
isso e se não vira fraude fiscal.
[6] A
Argentina que o diga.
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