terça-feira, 18 de junho de 2013

Criticar é preciso, mas pode ser perigoso: contra quem se está protestando?

Não tem como não ver as manifestações que tomaram conta das capitais brasileiras nos últimos dias e não entrar em alguma discussão sobre as motivações e consequências desse movimento. Assim, compartilho um pouco da minha percepção, buscando adicionar pontos de vista para a leitura desses eventos e de modo que cada um faça sua reflexão e chegue a suas conclusões.

Primeiro, uma coincidência: poucos dias atrás, por um acaso revi um modelo que tenta explicar como ocorre esse tipo de movimento coletivo, buscando modelar como funciona a lógica dos aplausos em um espetáculo ou palestra[1]. Essa coincidência é interessante, pois em grande medida esses movimentos que estamos vendo, tem essa racionalidade. Como eles começaram? Provavelmente, com alguns ‘puxadores’ ou ‘celebridades’ pontuais e alguns ‘grupos pequenos de pessoas que já se conheçam’ que foram se formando em torno do tema. A base do modelo é que ele vai agregando mais adeptos aos aplausos quanto maior o volume de gente que se manifeste: ou seja, o começo é tímido, mas quanto mais pessoas apoiarem, maior o número de novas adesões que vão sendo puxadas.

Enfim, parece ser um movimento com lideranças fracas, digo fracas do ponto de vista de legítimas perante o grupo total do movimento. Começaram a surgir alguns líderes, mas algo que é emergente (quando os lideres aparecem, grande parte do grupo já se dispersou) e tem baixa representação de agenda, uma vez que deriva de propostas/reivindicações bem plurais, para não usar o termo, diversificadas.  

Em grande medida a forma como ela vai se desencadeando me faz lembrar o filme “A Onda” em que um movimento com um ideal começa a ganhar força junto a um grupo de jovens, esses ideias, na medida em que vão se fortalecendo, fazem as pessoas entrar mais de cabeça na defesa do ideal, e quando elas assustam (no caso do filme, quase matam um jovem), se observa que o grupo perdeu a racionalidade e a forma de questionar os atos pelo ideal. Espero que nada chegue nem perto dessas proporções (morte de jovens), mas em grande medida as reverberações do movimento me trazem essa sensação, de que alguns atos não desejáveis começam a fazer parte do movimento, mesmo que não de modo espontâneo e planejado, mas eles vão se fortalecendo em torno do movimento. Sei que existem aproveitadores, que pegando carona nas manifestações aproveitam para depredar, quebrar, etc, mas não é possível desassociar as coisas (ou vamos agora falar que o movimento tem pessoas registradas e que alguns não são representantes legítimos dele?). Um risco de movimentos derivados de lideranças fracas é que uma vez criados, não se tem o controle das massas, e isso se reforça pelo argumento de não se ter uma pauta clara de pleito.

Ao mesmo tempo em que vejo cenas bonitas, imagens que podem ser brindadas com título de “Viva a festa democrática”, que mostram um povo mobilizado e com senso patriótico, observo figuras e apelos genéricos de fim da corrupção, e desejo de melhores serviços públicos. Vejo expressões de milhares de jovens que querem muito ter uma causa, um ideal a seguir, e estão desiludidos com a atual conjuntura. Que se juntam ao movimento para se sentir parte de algo, mas sem saber de modo mais objetivo o que se quer. Existe um coletivo comum acerca do que não esta se gostando, mas certamente uma imensidão de individualidades acerca de quais ações práticas deveriam ser tomadas[2].

Existe uma massa de manobra sem líder, e que pode ser usada para fins não justificados. Quando se está aplaudindo, se sente parte daquele grupo vibrante, e pode-se perder a noção do que esta sendo aplaudido....vai na onda...e ai reside um grande risco. Já vi isso em movimento estudantil...tudo começa pequeno, uma reclamação quanto o aumento da mensalidade, quando se vê esta se invadindo a reitoria, e sob a menor reflexão crítica da sua ação para com os direitos e as propriedades alheias (patrimônios públicos ou privados).

Por que motivo isso veio à tona agora? Pela Copa do Mundo na sua fase de teste com a Copa das Confederações! Vamos usar a vitrine que o país tem para fazer lembrar que preferimos educação e saúde ao invés de Copa do Mundo! Certamente assinaria embaixo se fosse uma opção ou um referendo popular! Agora, por que não nos mobilizamos enquanto país no momento em que o Brasil (sob a tutela do Presidente Lula) se candidatou a sede dos jogos? Falo com muita tranquilidade o que falei em diversas ocasiões em reuniões públicas (pois fui durante dois anos de jun/10 a jun/12 gerente do Projeto Estruturador Copa do Mundo no Governo de Minas)...nao foi MG que escolheu a Copa...foi o Brasil, por meio do seu presidente democraticamente eleito (e logo, legitimo no meu entendimento[3])...portanto, uma vez que o Brasil será sede (e MG por ser um estado essencial para o pais, seja economicamente, seja pela sua historia do futebol não poderia ficar de fora), nos caberia a tarefa de fazer a melhor Copa do Mundo possível[4]. Assim sendo, estamos na contramão da mensagem de uma boa recepção ao turista internacional....estamos passando a mensagem de ambientes turbulentos e não o de ambiente turístico atrativo (que gera negócios, emprego e renda para o país).

Voltando a causa genérica da qualidade do serviço público que foi uma das principais bandeiras levantadas pelo movimento. Certamente não há nenhum motivo de orgulho para nosso país e é um tema de fato preocupante. Temos um custo de vida alto, em grande medida pesado pela carga tributária que arrecada, mas não transforma em valor público, o famoso e temerário custo Brasil! Certamente temos do que protestar, pois merecíamos um país melhor. Minha dúvida é em relação a seguinte questão: o melhor formato de protesto é tomar as ruas?

A internet e as redes sociais são mágicas e com grande poder de mobilização. Mas existem diversas maneiras de mobilização: usar uma roupa determinada; parar de comprar determinado item ou determinada lógica; se negar a pagar impostos por um dia[5], etc. Tomar as ruas é uma das inúmeras formas e a que tem efeitos não controláveis como estamos vivenciando. Se o objetivo é fazer parte de algo por uma causa genérica, certamente quanto menos estardalhaço (e aqui não quer dizer ser visto e reconhecido) melhor para o ambiente institucional do país. Ambiente institucional do país? Exato! As pessoas investem todo dia no Brasil, crises de governança e movimentos incontrolados geram com certeza um efeito: expulsam além de turistas, investidores e capital. Reparem o dólar: subindo (0,5% só hoje), não só por isso, mas essa onda não compreendida certamente contribui para tal alta. E o sentimento de confiança em um país é difícil de construir, mas muito fácil de perder[6].

Todo dedo que aponta e reivindica tem que lembrar que deixa três dedos a apontar para seu próprio peito, para seu próprio nariz, para seu próprio país. É fácil achar que está ruim, mas o que você faz para estar bom? Aos nossos jovens: o quanto os serviços que vocês fazem são melhores que o nível do serviço público do país? O quanto vocês cobram uma postura proativa e orientada para resultados dos servidores públicos que conhecem, familiares e amigos? O quanto você faz seu melhor para empreender na vida e dar bons exemplos de sucesso para o país? Criticar é preciso, mas a mudança pode começar na sua carreira profissional, na sua postura como empreendedor de transformações. Não é tão gratificante quanto fazer parte de um movimento de milhares nas ruas, mas na minha visão é mais fortificante e menos perigoso para o país.



[1]Para quem quiser ver um vídeo sobre “Standing Ovation Model” e ter mais detalhes técnicos do que cito de modo superficial:  http://www.youtube.com/watch?v=3wfLoeBjwBA
[2] A única proposta objetiva e clara e mais amplamente apoiada que vi é a briga pelo passe livre e/ou redução das tarifas do transporte coletivo.
[3] Mas que ele, justamente ele que é de um Partido a favor da Participação Popular, podia ter submetido essa decisão à referendo público, podia não é?
[4] Isso inclui as escolhas dos modelos de como fazer gastos e quais modelos seguir para honrar os compromissos assumidos pelo país, tema que abordarei com mais detalhes em posts futuros.
[5] Sei que isso é feito para questão de gasolina...só não sei as bases legais para isso e se não vira fraude fiscal.
[6] A Argentina que o diga.

Nenhum comentário:

Postar um comentário