sábado, 28 de janeiro de 2017

NPS em Museus: uma aposta que faz sentido




Estou há pouco mais de 4 anos como presidente do Conselho de Administração do Instituto Odeon, uma Organização Social – sem fins lucrativos, que nasceu com DNA do teatro e consolidou com a gestão do Museu de Arte do Rio(MAR) sua vocação e propósito, que se refletem na atual visão:

“Transformar a percepção da sociedade sobre os equipamentos culturais, reforçando as conexões da arte com os espaços públicos e com os indivíduos”

Meu papel como voluntário nessa organização em muito se deve ao reconhecimento da capacidade e talento do fundador e atual Diretor Presidente, Carlos Gradim, que tem brilhantismo como poucos para mudar o mundo com a visão da Arte. Mas a escolha se deve sobretudo à amizade, que nasceu no ambiente profissional em que Arte e Gestão se encontraram, e vão avançando na busca por mudar o mundo A história do MAR vem sendo um capítulo muito rico, que foi objeto de lançamento de um livro "O terceiro setor na gestão da cultura: a perspectiva a partir do Museu de Arte do Rio”, que contou com um seminário realizado na última quinta. O debate iluminou um tema do qual sou grande entusiasta: valor público dos equipamentos culturais[1]

O seminário contou com nomes de especialistas e conhecedores diversos. Fui um ouvinte assíduo e diante de algumas reflexões presentes no debate insiro uma provocação: a introdução do NPS como indicador de efetividade e valor público.

Primeiramente, o que é NPS, sigla para o termo original NetPromoter Score. Uma métrica simples que se baseia em pesquisa ampla para endereçar uma pergunta aos consumidores de determinado bem ou serviço:  “Qual a probabilidade de você nos recomendar a um amigo?”[2] Em que para se responder é apresentada uma escala de zero a 10, na qual zero representa o extremo negativo nem um pouco provável, e 10 representa o extremo positivo, muito provável.  As notas das respostas são classificadas em 3 categorias:

  • zero a 6: consumidores/clientes detratores, ou seja, aqueles que irão denegrir sua reputação;
  • 7 ou 8: consumidores/clientes neutros;
  • 9 ou 10: consumidores/clientes promotores, ou seja, aqueles que irão promover sua reputação.
O NPS por fim observa o percentual de promotores e subtrai o percentual de detratores. Ou seja, uma métrica simples em que observa qual o resultado líquido de promoção que seus clientes representam para sua marca/organização, em que um detrator é anulado por um promotor. 

Para exemplificar, digamos que um museu recebe 100 mil visitantes, e que 5 mil dão nota entre zero e 6, e 20 mil saem encantados e atribuem notas entre 9 e 10. O NPS desse museu será de 15%. Agora imagine um cenário inverso, um museu em que 20 mil dão nota entre zero e 6, e somente 5 mil entre nota 9 e 10. O resultado será de menos 15%, o que implica em um alarme quanto a reputação desse equipamento.

Qual importância disso? Ter uma métrica simples, objetiva e padronizada de avaliar o grau de satisfação e criação de reputação de um museu, visando sobretudo criar engajamento e apoiar a perpetuação desses equipamentos. 

Premissa inicial da aposta: simplificar remete à ser mais eficiente, ou seja, gastar menos tempo e dinheiro para ter a métrica que pode ajudar a orientar a gestão. O NPS como mencionei é fruto de uma pesquisa ampla e recomendo a leitura direto da fonte, do livro “A Pergunta Definitiva 2.0”, que apresenta com mais detalhes por que a métrica é um substituto adequado para várias pesquisas de satisfação que observam um monte de quesitos e geram desperdícios (tempo e dinheiro). Tal métrica já é usado em várias organizações de peso, e fica a provocação óbvia, por que reinventar a roda?

A proposta ainda se base no entendimento de que um grande desafio para qualquer equipamento é criar sua sustentabilidade e como foi dito no seminário, por Eleonora Santa Rosa, executiva da cultura com grande conhecimento do tema,  parte da solução está na fidelização de público. De uma maneira simplificada a Figura 1 abaixo retrata o básico a ser monitorado por qualquer equipamento cultural:


FIGURA 1 – Caminho do valor público para equipamentos culturais

Por um lado, tem-se todo investimento em equipamentos culturais, essenciais para gerar tal oferta de programação. É essencial que esse investimento seja produtivo, e a pergunta da sustentabilidade deve ser aí encarada: o que esse investimento gera de valor? O resultado palpável mais direto e essencial é acesso. Nas palavras de Souza e Junior, “O acesso é, portanto, o elemento imaterial essencial e fundamental para a construção de um ambiente criativo fértil e sustentável, sem o qual toda e qualquer política de promoção cultural terá eficácia restrita” ou ainda, nas palavras de Finguerut “Os museus têm como missão apresentar a seu público exposições de suas coleções ou de instituições parceiras, de acordo com uma dada curadoria ou conceito” [3]

O caminho para sair da eficácia, garantindo e promovendo o acesso, para se gerar valor público, portanto, na minha opinião é ter fidelização e engajamento de público. Ter um NPS alto, mostrando que um percentual relevante de seu público é promotor do espaço, vai divulgar bem a experiência, vai ter maior chance de retornar, maior chance de participar de um financiamento privado (“Amigos do Museu”), bem como vai reagir e se mobilizar perante ao político que propor descontinuar tal equipamento. Trata-se de um indicio de perenidade de grande valor, e lastreado em uma pergunta simples, mas que ao ser adotada promove revolução dentro da organização: o que causou detratores? Como posso melhorar meu serviço? O que fazer para ampliar meus promotores? Quais ações geram melhoria no meu NPS em última análise. 

Fundamental dizer que é uma mudança que exige esforço e como disse uma revolução na postura. A gestão do equipamento deve passar a entender que aplicar bem os recursos é premissa, aumentando ou mantendo níveis de acesso (número de público visitante), fazer isso de modo eficiente é o desafio da nação (aplicar melhor os recursos, reduzindo o custo por visitante, afinal recursos são escassos), e sobretudo, fazer isso com efetividade que garanta que tenhamos uma legião de promotores do equipamento, respeitando os focos e propósitos específicos da forma de atuação de cada equipamento. 

Ao final do dia, ter dados concretos de boa reputação e engajamento de determinados (e por que não, todos) equipamentos culturais, poderá definir pela preservação de investimentos culturais pelos governantes que se deparam com a necessidade de escolha na aplicação de recursos diariamente. Adotar o NPS pode, portanto, representar a preservação e valorização das políticas culturais tão importantes para constituição de qualquer sociedade[4].


[1] Toda a discussão é mais direcionada a museus, mas se aplica ao mesmo debate de outros equipamentos ou organizações culturais.
[2] Essa pergunta pode sofrer adequações pontuais, mas a essência é a mesma.
[3] Citações dos artigos dos respectivos autores nas páginas 105  e 148 do livro “O terceiro setor na gestão da cultura: a perspectiva a partir do Museu de Arte do Rio”
[4] Existem já alguns casos de uso do NPS em Museus no EUA. Tal agenda de NPS ligado ao setor público é mais embrionária e é ponto prioritário de agenda, inclusive ponto de discussão para adoção nos equipamentos sob gestão do Instituto Odeon.
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