Um tema de debate recente se deu
pelo relatório sobre concentração de riquezas que apontou que 8 homens detêm
riqueza que corresponde à metade mais pobre do planeta. Uma grande manchete, um
grande trunfo de marketing para fomentar a agenda sobre desigualdade. Como
defendo, é fundamental termos uma visão mais ampla antes de tirar conclusões,
portanto, faço aqui minhas provocações reflexivas
- Reduzir a desigualdade é um objetivo nobre, um objetivo necessário. Como já defendi, um dos 3 pilares de qualquer governante da nação (crescer, com controle de inflação e redução de desigualdade). O que é intolerável da desigualdade não é a desigualdade em si, mas na camada mais pobre. Se tivermos uma desigualdade em que todos tenham serviços e acessos a bens de modo digno, ou seja, não tenhamos pobres muito menos indigentes, temos cenário aceitável de desigualdade (desde que também estejam garantidas premissas de liberdades individuais).
- Qual a diferença da riqueza de 50% do planeta estar na mão de 8, 8 mil ou 80 mil? Se nada alterar no que tange à distribuição do restante, na minha opinião: a manchete é menos midiática tão somente. O efeito é o mesmo desde que não estejamos falando que os 8 são as mesmas 8 famílias desde que o mundo é mundo ou mesmo nos últimos 200 anos. E nesse sentido, convenhamos que da lista dos 8, acredito que a maioria são fruto do esforço deles e sorte (estar preparado no tempo certo), e revelam um princípio importante, a mobilidade social (podiam ter berço de estudos e oportunidades, mas nem todos ou quase nenhum, tinham patrimônio que os tornasse rentistas, sendo tal fortuna fruto dos esforços, riscos e decisões que tomaram em vida).
Diante das duas provocações cabe
observar os dados, uma busca mínima para entender o quadro geral e sair da
manchete. O Brasil desde que eu nasci teve uma evolução positiva, mas discreta
em se tratando de 30 anos, conforme aferição da desigualdade pelo coeficiente
de Gini[1]:
GRÁFICO – Evolução do Coeficiente
de Gini 1985-2014
Fonte: www.ipeadata.gov.br
O mundo por sua vez apresenta uma
evolução similar... andando de lado nesse tema. Não podemos afirmar nenhum
grande movimento de concentração ou desconcentração de renda no global. Portugal parece ter conseguido algunsresultados mais interessantes nos últimos anos. O tema no Brasil foi positivo,
mas ainda é lento, e infelizmente desde 2014 os indícios são de retrocesso.
Cabe o entendimento que taxar
a riqueza é algo necessário, mas os caminhos para fazer a taxação certa de
herança (patrimônio) são importantes para gerar incentivos corretos. Digo
incentivos pois por um lado taxar renda é algo que estimula informalidade, bem
como cria altos custos que impactam produtividade e competitividade de um pais.
Por outro taxar patrimônio também requer escolhas adequadas que não gerem
incentivos perversos de estruturas legais para evitar tributos. Acredito que
mudanças pequenas, aumento gradual dos percentuais, em modelos simples e regras
claras escalonadas sejam um caminho necessário.
"Não existe almoço grátis",
conceito mais que repetido, e nesse sentido cabe entender que enquanto
sociedade que qualquer política impõe escolhas e no caso da agenda brasileira,
temos de fazer ajustes que impactam a todos nós. E de modo a ser justo temos de
buscar mitigar impacto nos mais pobres, garantindo serviços e oportunidades
maiores para eles, e para tanto, evitando que a conta seja das próximas
gerações (endividar a nação e promover ciclos inflacionários), a carga vai
recair na parcela mais privilegiada de patrimônio e renda. É uma conta necessária.
Por exemplo, aposentadoria: precisa de reforma, e ela precisa considerar menos
impacto no assalariado mínimo, e mais na classe média/rica. Pedir um chão de
fábrica ou operário da construção civil trabalhar mais 5 anos é diferente de
pedir ao médico, economista ou ao engenheiro para trabalhar mais 5 anos. Para
os dois grupos é uma perda, mas levando em consideração expectativa de vida,
nível de consumo e serviço, etc, uma perda relativa maior para classe mais
pobre.
Perdemos uma janela de oportunidade
para introduzir reformas e desenvolvimento mais sustentável. Tivemos evoluções
sim, mas maculamos isso em meio à crise institucional. Temos ajustes a fazer.
As escolhas pelas agendas sociais precisam ser mantidas respeitando quadro de
restrições. Contudo, a real esperança vem das escolhas individuais.
Quando falamos em desigualdade e
observamos diferenças de renda estamos observando o resultado do esforço dos
indivíduos. Por mais que o ambiente seja limitador de algumas escolhas, o maior
limitador reside na nossa coragem, na nossa postura. Geralmente a ideia de que
“a média é medíocre” é algo que ninguém refuta nas minhas rodas de conversa, e
reflete como temos um desafio grande para sermos melhores, termos profissionais
mais produtivos, organizações mais eficientes. E o problema da desigualdade
perpassa essa frase, pois temos sim muitos profissionais bons, muito capital
humano de qualidade, mas a média continua medíocre, o que significa que vivemos
uma grande desigualdade de qualificação, de postura, de ausência de liderança (não só na nação, mas nas organizações que não elevam o patamar da média).
Cabe destacar que a nova economia
reforça elementos desse dinamismo que são salutares. Podemos, e estamos vendo,
várias startups se tornando empresas
milionárias, e até mesmo bilionárias. Temos
uma acelerada onda de novos hábitos e possibilidades que permitem ascensões (e
quedas), de empresas e profissionais. Abraçar a incerteza é algo difícil,
mas necessário. E nesse sentido, a desigualdade é necessária: se o esforço
não for diferenciado, qual incentivo para ele? O importante, portanto, passa a ser democratizar as oportunidades,
criar o ambiente para uma competição mais justa de partida. O maior desafio do
pais reside em melhorar a média, e o melhor que podemos fazer pela média é a
nossa parte como indivíduo, bem como a inspiração das equipes e dos profissionais
que nos cercam.
[1]
Mede o grau de desigualdade na distribuição da renda domiciliar per capita
entre os indivíduos. Seu valor pode variar teoricamente desde 0, quando não há
desigualdade (as rendas de todos os indivíduos têm o mesmo valor), até 1,
quando a desigualdade é máxima (apenas um indivíduo detém toda a renda da
sociedade e a renda de todos os outros indivíduos é nula). Série calculada a
partir das respostas à Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/IBGE).
Nota do IBGE sobre renda domiciliar per capita: Nesse cálculo, são considerados
todos os rendimentos e todos os moradores, inclusive os moradores classificados
como pensionistas, empregados domésticos e parentes dos empregados domésticos.

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