segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Previsões, entrincheiramento ideológico, serenidade e gestão por resultados: o caminho de valorizar o aprendizado



O período pede serenidade. Ouvi isso em uma entrevista doCiro Gomes e compartilhei nos grupos de amigos pois gostei muito do tom dele. Não comungo das ideias dele, principalmente sobre finanças públicas e privatização, mas nem por isso desqualifico seu ponto de vista. O tom dele qualifica qualquer discussão, e precisamos de aumentar o nível do debate. 

Essa é a reflexão de hoje. Vale para o público, vale para o privado. Somos uma sociedade e o que estamos vivendo no contexto político é reflexo do que somos. Temos uma chance de evoluir, mas isso perpassa escolhas, sacrifícios e exige serenidade. Muita reflexão crítica sobre caminhos e tremenda planejação: planejar sem deixar de agir. Agir sem esquecer a importância de planejar.

O imediatismo é um valor ascendente. A forma como ele é explorado ganha dimensões perigosas. As tais pós-verdades, mas sobretudo os entrincheiramentos ideológicos, que só abalam ainda mais nossa crise de confiança[1]. Eu costumava dizer que a imprensa (ruim) só queria a manchete. Navegando na selva de Facebook vejo que as pessoas aderiram isso: não importa o que fale, o mesmo conteúdo será usado para o interesse enviesado. Quer ver duas manchetes do mesmo fato:

  • PEC poderá garantir redução das taxas de juros
  • PEC poderá agravar desigualdades sociais
Podemos dizer que alguma das duas é errada? Não. Afinal ambas especulam (poderá!), e estou sendo um anjo, pois as manchetes tendem a dizer irá e fazem má fé do uso de uma afirmativa que geralmente é embasada em cenários possíveis (logo é uma possibilidade de partida). 

As duas no exemplo acima tem o mesmo fato: existe uma PEC que trará efeitos econômicos e sociais. Eles terão parte boa e ruim, e tendem a se misturar. Gerar um pouco de cada coisa. E envolvem complexidades de difícil separação de causa e efeito pois ocorrem em meio a outros efeitos concomitantes (mercado externo, etc). 

O que a escolha da manchete agrega? Reforça opiniões extremas do “bom” ou “ruim”. Contudo dentro do mesmo conteúdo tem a parte boa e ruim, e tratar com imparcialidade é algo necessário para o avanço. Manchete pode ser o que vende, mas definitivamente não é o que constrói cultura, ao contrário, cria muros, enviesa a leitura e a reflexão crítica. As pessoas tendem a escolher a que defende seu ponto de vista e circular com bravatas em prol do que “acredita”, mas passam longe de querer formar um ponto de vista e estar abertas a mudar de opinião, diante de novos fatos. Pior, já escutam sabendo “a manchete” que vão dar, independente do que se diga (ou seja, nem escutam). 

A leitura do livro Superprevisões foi um achado esse ano: o objetivo de prever gera grandes impactos e não nos damos conta dos estragos que previsões “sem compromisso” geram[2]. A questão de grande valor perpassa a importância de mensuração, de ter compromisso com o que se diz, de colocar com clareza os termos que se defende. Ao não ter clareza dos termos não podemos definir o que são resultados. Promessas (ou previsões) vagas são promessas não fiscalizáveis na ótica do processo educativo que é necessário (o aprendizado passa pelo feedback sobre o que se errou).

Voltemos às manchetes que propus: qual definição de tempo? Redução social em qual medida? Redução de quanto na taxa de juros? Aumento de quanto na desigualdade? 

É chato? Sem dúvida! Mas necessário, pois sem isso não teremos nenhum aprendizado derivado do processo. Serão palavras sobre palavras e nenhum movimento de contraditório eficaz: continuará o entrincheiramento ideológico sem nenhum avanço.  

Coerência é parte necessária do debate. Mudar de opinião não é ser incoerente, é aceitar fatos novos. O mais importante é tratar o debate como um processo educativo: hipóteses claras para permitir o avanço. A ciência só avança por isso: testar os resultados. Acertar não é premissa, afinal, errar é humano. Eficiente é quem faz os ajustes mais rápido: essa é a premissa no modelo japonês de linha de produção que revolucionou a indústria automobilística. Esse é o caminho para toda uma geração de startups. Errar mais rápido em busca de achar o acerto mais cedo. Foco em resultado, teste de hipótese.

Termino a reflexão com trechos do livro Superprevisões, de Philip E. Tetlock e Dan Gardner (p.260):

“Um ponto de vista importante raramente tem mérito nulo, e se uma disputa de previsões produz uma decisão dividida, teremos aprendido que a realidade é mais variada que os dois lados pensavam. Se o objetivo for aprender, e não se regozijar, isso é um progresso” 

“Infelizmente, em ruidosas arenas públicas, as vozes estridentes dominam os debates, e o interesse delas na colaboração adversarial é zero.” 

“Tudo o que temos a fazer é ficar seriamente de olho nos resultados”

Parece adequado aos nossos desafios atuais? Não podemos nos iludir, não há construção fácil quando se fala em instituições. Estamos falando de plantar carvalhos, de criar a cultura certa. Gestão comprometida com resultados. Pessoas comprometidas com aprender mais do que se gabar de pontos de vista preestabelecidos.


[1] Curiosamente li um post dizendo que o nível de desconfiança entre as pessoas no Brasil é altíssimo. Certamente faz muito sentido essa questão no que tange às nossas instituições. Um ciclo vicioso difícil de romper: quanto mais duvido, menos funcionam, quanto menos funciona mais desconfio.
[2] Por exemplo: a previsão de que existiam armas de destruição de massa no Iraque custou quantas vidas? Esse é um dos exemplos que o autor cita. Vale a leitura!

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