O período pede serenidade. Ouvi isso em uma entrevista doCiro Gomes e compartilhei nos grupos de amigos pois gostei muito do tom dele. Não
comungo das ideias dele, principalmente sobre finanças públicas e privatização,
mas nem por isso desqualifico seu ponto de vista. O tom dele qualifica qualquer
discussão, e precisamos de aumentar o nível do debate.
Essa é a reflexão de hoje. Vale para o público, vale para o
privado. Somos uma sociedade e o que estamos vivendo no contexto político é
reflexo do que somos. Temos uma chance de evoluir, mas isso perpassa escolhas,
sacrifícios e exige serenidade. Muita
reflexão crítica sobre caminhos e tremenda planejação: planejar sem deixar de
agir. Agir sem esquecer a importância de planejar.
O imediatismo é um valor ascendente. A forma como ele é
explorado ganha dimensões perigosas. As tais pós-verdades, mas sobretudo os
entrincheiramentos ideológicos, que só abalam ainda mais nossa crise de
confiança[1].
Eu costumava dizer que a imprensa (ruim) só queria a manchete. Navegando na
selva de Facebook vejo que as pessoas aderiram isso: não importa o que fale, o
mesmo conteúdo será usado para o interesse enviesado. Quer ver duas manchetes
do mesmo fato:
- PEC poderá garantir redução das taxas de juros
- PEC poderá agravar desigualdades sociais
Podemos dizer que alguma das duas é errada? Não. Afinal
ambas especulam (poderá!), e estou sendo um anjo, pois as manchetes tendem a
dizer irá e fazem má fé do uso de uma afirmativa que geralmente é embasada em
cenários possíveis (logo é uma possibilidade de partida).
As duas no exemplo acima tem o mesmo fato: existe uma PEC
que trará efeitos econômicos e sociais. Eles terão parte boa e ruim, e tendem a
se misturar. Gerar um pouco de cada coisa. E envolvem complexidades de difícil separação
de causa e efeito pois ocorrem em meio a outros efeitos concomitantes (mercado
externo, etc).
O que a escolha da manchete agrega? Reforça opiniões
extremas do “bom” ou “ruim”. Contudo dentro do mesmo conteúdo tem a parte boa e
ruim, e tratar com imparcialidade é algo necessário para o avanço. Manchete
pode ser o que vende, mas definitivamente não é o que constrói cultura, ao
contrário, cria muros, enviesa a leitura e a reflexão crítica. As pessoas
tendem a escolher a que defende seu ponto de vista e circular com bravatas em
prol do que “acredita”, mas passam longe de querer formar um ponto de vista e
estar abertas a mudar de opinião, diante de novos fatos. Pior, já escutam
sabendo “a manchete” que vão dar, independente do que se diga (ou seja, nem
escutam).
A leitura do livro Superprevisões foi um achado esse ano: o
objetivo de prever gera grandes impactos e não nos damos conta dos estragos que
previsões “sem compromisso” geram[2].
A questão de grande valor perpassa a importância de mensuração, de ter compromisso
com o que se diz, de colocar com clareza os termos que se defende. Ao não ter
clareza dos termos não podemos definir o que são resultados. Promessas (ou
previsões) vagas são promessas não fiscalizáveis na ótica do processo educativo
que é necessário (o aprendizado passa pelo feedback sobre o que se errou).
Voltemos às manchetes que propus: qual definição de tempo?
Redução social em qual medida? Redução de quanto na taxa de juros? Aumento de
quanto na desigualdade?
É chato? Sem dúvida! Mas necessário, pois sem isso não
teremos nenhum aprendizado derivado do processo. Serão palavras sobre palavras
e nenhum movimento de contraditório eficaz: continuará o entrincheiramento
ideológico sem nenhum avanço.
Coerência é parte necessária do debate. Mudar de opinião não
é ser incoerente, é aceitar fatos novos. O mais importante é tratar o debate
como um processo educativo: hipóteses claras para permitir o avanço. A ciência só avança por isso: testar os
resultados. Acertar não é premissa, afinal, errar é humano. Eficiente é quem
faz os ajustes mais rápido: essa é a premissa no modelo japonês de linha de
produção que revolucionou a indústria automobilística. Esse é o caminho para
toda uma geração de startups. Errar mais rápido em busca de achar o acerto mais
cedo. Foco em resultado, teste de hipótese.
Termino a reflexão com trechos do livro Superprevisões, de
Philip E. Tetlock e Dan Gardner (p.260):
“Um ponto de vista importante raramente tem mérito nulo, e
se uma disputa de previsões produz uma decisão dividida, teremos aprendido que
a realidade é mais variada que os dois lados pensavam. Se o objetivo for
aprender, e não se regozijar, isso é um progresso”
“Infelizmente, em ruidosas arenas públicas, as vozes
estridentes dominam os debates, e o interesse delas na colaboração adversarial
é zero.”
“Tudo o que temos a fazer é ficar seriamente de olho nos
resultados”
Parece adequado aos nossos desafios atuais? Não podemos nos
iludir, não há construção fácil quando se fala em instituições. Estamos falando
de plantar carvalhos, de criar a cultura certa. Gestão comprometida com
resultados. Pessoas comprometidas com aprender mais do que se gabar de pontos
de vista preestabelecidos.
[1]
Curiosamente li um post dizendo que o nível de desconfiança entre as pessoas no
Brasil é altíssimo. Certamente faz muito sentido essa questão no que tange às
nossas instituições. Um ciclo vicioso difícil de romper: quanto mais duvido,
menos funcionam, quanto menos funciona mais desconfio.
[2] Por
exemplo: a previsão de que existiam armas de destruição de massa no Iraque
custou quantas vidas? Esse é um dos exemplos que o autor cita. Vale a leitura!
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