sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Discurso, coerência e impunidade: os fins justificam os meios?



Tendo a fazer posts com um nível de profundidade maior, e hoje abro exceção para uma abordagem mais direta e uma questão mais aguda. É um tema de enorme valor pois é base de reflexo de um contexto político nacional que estamos vivendo no Brasil, e que se faz necessário e urgente abordar e todos pressionarem para o Brasil e a BH que queremos.

Um grande amigo me disse recentemente que nosso maior problema reside na impunidade. A justiça é lenta, logo não se tem justiça, pois parte da justiça reside no seu timing, respeitando direitos, mas se fazendo valer. Estamos, nós os cidadãos de BH, aguardando a posse do novo prefeito Kalil. E pairam no ar dúvidas referentes sobre a origem do dinheiro de sua campanha. Caso o tempo passe, ele assuma, e só muito depois seja feito alguma efetivação do que está por ora em pauta, qual efetividade teríamos? Quanto tempo a decisão irá demorar a sair? 

As contas da campanha de Dilma-Temer ainda não foram julgadas (2 anos depois da eleição). No começo uma estratégia de adiar, agora após impeachment, pode ser bandeira para derrubar Temer e criar um governo provisório ou algo pior. 

Demora, impunidade, ausência de justiça no tempo certo. Mesmo que fosse para falar que contas estão aprovadas, mas deixaríamos de ter essa dúvida no ar. A sensação de impunidade corroí instituições.

Voltemos a BH. Kalil fez a campanha mais eficiente. Davi derrotou Golias. Mérito de Kalil e companhia.
Para além de termos o mesmo sentimento que se teve na disputa do governo estadual que o PSDB perdeu para ele mesmo devido às escolhas internas, Kalil e equipe tiveram seus méritos de usar marketing, comunicação, e ser mais eficiente. Gastou menos da metade do PSDB. R$3,5MM, dos quais R$2,2MM doação do próprio prefeito. Essa doação seria até digna de destaque positivo. Aplicar do próprio bolso, uma intenção adequada de um homem público, empresário que fez sua reputação e decide retribuir à sociedade, bancando e se dedicando à causa pública.  

Mas eis que surge o apontamento de que os R$2,2MM vieram da venda de uma fração de um apartamento do candidato para seus filhos, representando valorização imobiliária superior a 600% (o bem era declarado pelo candidato por R$291,4 mil). Bem, não é tão fácil de dizer e comunicar, mas digamos que os filhos tenham esse dinheiro declarado, com liquidez, e que os impostos do ganho de capital tenham sido pagos. Enfim, é apenas uma questão de comunicar. 

E eis que os filhos não tinham o dinheiro. E venderam no mesmo dia para uma empresa, cujo sócio é um empresário do partido do candidato eleito, um outro apartamento por essa quantia. Coincidência? E tudo isso em meio a um ciclo de alta liquidez e valorização imobiliária! Quem olha para cima nas ruas da cidade vê como está faltando janela para afixar placa de “vende-se”. (ironia óbvia).

Para piorar: esse valor representa mais de 60% da tal campanha vencedora e eficiente, e que o tal empresário do mesmo partido, que comprou o apartamento dos filhos, tem alguma retrospectiva de caixa 2,enriquecimento ilícito, dinheiro no exterior, etc.  Ou seja, esse ato foi determinante para o resultado da eleição, para além de poder representar um modelo de financiamento ancorado em premissas questionáveis.

Bem, o desenho sempre ajuda o entendimento:



E em meio a tudo isso cabe lembrar que no cerne do cenário de “Brasil em Chamas” temos exatamente o debate de Caixa 2, uso indevido de dinheiro em campanhas, etc. E cabe ainda lembrar que a bandeira do candidato eleito era a de “não político”.  

Espero que a visão de que os “fins justificam os meios” não seja uma bandeira, e que a população tenha clareza que a semente determina a produção. O solo, o clima e o cuidado ajudam, mas a semente tem o traço genético. Um esquema de “investimento” em uma campanha que espera “retorno” é uma semente ruim. As instituições podem coibir, a equipe pode mitigar, mas o traço se for de um modelo patrimonialista de poder tem sua contaminação de partida. 

Serenidade em questionar. Mas sem deixar de fazê-lo e querer respostas efetivas.

A justiça precisa definir, com direito a defesa, sem tomar partido, mas definir. Se isso está adequado, segue o jogo. Se tem problemas de ordem fiscal, que sejam pagos os impostos e multas, fica o alerta e educativo. Se for uma afronta à inteligência das pessoas: que sejam definidas novas eleições. O tempo é imperativo contra a sensação de impunidade.
 



 

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