terça-feira, 18 de outubro de 2016

Sonho grande, histórias de sucesso e o problema do teste de hipótese



Ontem estive no belo evento Maratona Valor PME. Cenário muito bem organizado com o lema “Nada inspira mais que o sucesso”. Absolutamente motivacional, mas seria de fato o melhor lema para uma maratona? O desafio é se lançar ou conseguir percorrer e completar a prova? Ao que me consta temos muita gente com vontade de empreender, mas uma alta mortalidade de empresas. Ser empreendedor, ser micro e pequeno empresário no Brasil de fato consiste em uma maratona, mas será que o lema necessário é a inspiração, ou seria a transpiração?

A curta reflexão proposta observa esse lema do sucesso em paralelo à ideia do “Sonho Grande” – termo que ficou conhecido pelo belo livro e case do 3G, que menciona que sonhar grande ou pequeno requer igual esforço e, portanto, a natural provação para que sonhemos grande! Provocação aceita! Acho que a cultura empreendedora no Brasil requer sim do desafio de pensar grande! Contudo, o ponto central da reflexão: sonho grande = risco grande.

Assim sendo, se a inspiração pode vir do sucesso, o aprendizado tende a vir do fracasso. Sonho grande se não for bem dimensionado em sua forma de crescer, envolve risco grande. Em um país sem a cultura financeira adequada e com alto custo do capital (altas taxas de juros), qualquer sonho grande que sair do papel implica em risco grande. Se for sem alavancagem financeira (só capital próprio) menos mal, o empreendedor em caso de insucesso aprenderá perdendo o capital que tem. Mas se envolver dinheiro de terceiros, principalmente no formato empréstimo bancário, cuidado, pode-se perder o que não tem. Aí o sonho vira pesadelo.

A escola de gestão para empreendedores brasileiros ainda tem muito o que avançar. O país ainda tem muito desperdício por ineficiência: alocação errada de recursos (quem dera fosse apenas um problema público). A lição do livro “Startup Enxuta” é  muito mais importante para a Maratona PME: aprenda rápido! Faça ajustes no seu modelo de negócios na velocidade que seu capital permita para achar sua sobrevivência!

Um dos palestrantes pontuou bem sobre a necessidade de conjugar o feeling do empreendedor, que ele denominou “a vontade de crescer” com a teoria. Um clássico exemplo de uma geração que construiu do zero, não teve escola formal, e convive com seus filhos bem formados. Saber o valor da visão do acionista e da capacidade de bons executivos e especialistas! Balancear, eis um bom desafio!

O grande risco de fazer uma maratona de inspiração nos sucessos é que deixamos de olhar a probabilidade do fracasso (as histórias do cemitério empresarial costumam ser bem mais numerosas do que as de sucesso, apenas menos conhecidas, e infelizmente menos valorizadas[1]). Talvez uma verdadeira lição para formar empreendedores seria o que não fazer: cases de fracasso! Mas como evento deve ter baixo apelo e somos refém do que vende.

Em uma maratona a verdadeira lição deveria ser “Pense grande, comece pequeno, ande rápido”, afinal a maratona exige preparação (planejamento e treinamento), persistência (aprendizado rápido e superação ao longo da corrida) e ritmo adequado ao seu objetivo (quem quer ganhar a maratona não pode ter energia apenas para o sprint final).



[1] O livro Fooled by Randomness é uma leitura fundamental para não valorizar demais o sucesso “aleatório”.

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