Ontem estive no belo evento
Maratona Valor PME. Cenário muito bem organizado com o lema “Nada inspira mais que o sucesso”. Absolutamente
motivacional, mas seria de fato o melhor lema para uma maratona? O desafio é se lançar ou conseguir percorrer e completar a prova? Ao que me consta temos muita gente com vontade de empreender, mas uma alta mortalidade de empresas. Ser empreendedor, ser micro e pequeno
empresário no Brasil de fato consiste em uma maratona, mas será que o lema necessário é a
inspiração, ou seria a transpiração?
A curta reflexão proposta observa esse lema do sucesso em
paralelo à ideia do “Sonho Grande” – termo que ficou conhecido pelo belo livro
e case do 3G, que menciona que sonhar grande ou pequeno requer igual esforço e,
portanto, a natural provação para que sonhemos grande! Provocação aceita! Acho que a cultura empreendedora no Brasil
requer sim do desafio de pensar grande! Contudo, o ponto central da reflexão:
sonho grande = risco grande.
Assim sendo, se a inspiração
pode vir do sucesso, o aprendizado tende a vir do fracasso. Sonho grande se
não for bem dimensionado em sua forma de crescer, envolve risco grande. Em um
país sem a cultura financeira adequada e com alto custo do capital (altas taxas
de juros), qualquer sonho grande que sair do papel implica em risco grande. Se
for sem alavancagem financeira (só capital próprio) menos mal, o empreendedor
em caso de insucesso aprenderá perdendo o capital que tem. Mas se envolver
dinheiro de terceiros, principalmente no formato empréstimo bancário, cuidado,
pode-se perder o que não tem. Aí o sonho vira pesadelo.
A escola de gestão para empreendedores brasileiros ainda tem
muito o que avançar. O país ainda tem
muito desperdício por ineficiência: alocação errada de recursos (quem dera
fosse apenas um problema público). A lição do livro “Startup Enxuta” é muito mais importante para a Maratona PME: aprenda rápido! Faça ajustes no seu modelo
de negócios na velocidade que seu capital permita para achar sua sobrevivência!
Um dos palestrantes pontuou bem sobre a necessidade de
conjugar o feeling do empreendedor, que ele denominou “a vontade de crescer”
com a teoria. Um clássico exemplo de uma geração que construiu do zero, não
teve escola formal, e convive com seus filhos bem formados. Saber o valor da visão do acionista e da
capacidade de bons executivos e especialistas! Balancear, eis um bom desafio!
O grande risco de
fazer uma maratona de inspiração nos sucessos é que deixamos de olhar a
probabilidade do fracasso (as histórias do cemitério empresarial costumam
ser bem mais numerosas do que as de sucesso, apenas menos conhecidas, e infelizmente
menos valorizadas[1]).
Talvez uma verdadeira lição para formar empreendedores seria o que não fazer:
cases de fracasso! Mas como evento deve ter baixo apelo e somos refém do que
vende.
Em uma maratona a
verdadeira lição deveria ser “Pense grande, comece pequeno, ande rápido”,
afinal a maratona exige preparação (planejamento e treinamento), persistência
(aprendizado rápido e superação ao longo da corrida) e ritmo adequado ao seu
objetivo (quem quer ganhar a maratona não pode ter energia apenas para o sprint
final).
[1] O livro Fooled by Randomness é uma leitura fundamental para não valorizar demais o
sucesso “aleatório”.
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