segunda-feira, 9 de maio de 2016

Desenvolvimento econômico: qual o papel de escolha estratégica na economia que queremos ser? A escolha de uma Aerotrópole em BH seria adequada?



Conheci a pouco uma ferramenta desenvolvida pelo Governo do Estado de Minas Gerais, o Data Viva (http://pt.dataviva.info/). Tal ferramenta possui uma premissa que me é desde o início louvável: transparência para dados públicos (sobre seu uso em prol de gestão por resultados já defendi em reflexões anteriores). Além disso, me suscitou uma reflexão curiosa, os dados atualmente inseridos nessa plataforma nos remetem à ideia de desenvolvimento econômico, que permeia alguns acalorados debates quanto ao efetivo papel do Estado nessa área. 

De um lado existe a corrente intervencionista que defende papel ativo do Estado (e aqui a menção ao ente federado estadual e/ou municipal principalmente) nessa área de desenvolvimento econômico. Por outro, existem os céticos que observam que as ferramentas disponíveis para o desenvolvimento econômico são ineficazes nos âmbitos subnacionais e, portanto, tal agenda seria esvaziada. 

Tendo a concordar que os entes subnacionais de fato têm menor gerência sobre variáveis econômicas, apesar de serem fortemente impactos por essas. Podemos ver, ou sofrer na pele, como estamos atualmente, que ações e escolhas do Governo Federal impactam fortemente as bases macroeconômicas do país e pouco ou nada cabe diante desse quadro aos governos subnacionais diante desses indicadores (PIB, inflação, etc). 

Contudo, a estratégia e sua ferramenta por meio do planejamento, são necessárias nos Estados e Municípios, principalmente nessa área de desenvolvimento econômico, e em tempos de crise sua ausência nos chamam ainda mais atenção (nada acontece nem se tem visão de que irá ocorrer, pois para além de não se estar em bom momento, não se vislumbra um objetivo e um caminho de desenvolvimento). Estratégia são escolhas, e por menor que seja a capacidade dos Governos subnacionais de atuarem nessa agenda, existe um “poder de fogo” que se bem explorado e usado de modo concentrado (com FOCO!), tem um potencial transformador, em minha opinião, na transformação da nossa economia.

Minha reflexão, portanto, tem pequeno embasamento em ideias simples retiradas de informações do DataViva, mas de modo algum pretendem ser definitivas e com peso científico, uma vez que seu papel é mais de gerar um questionamento, do que defender uma afirmação assertiva. 

Vejamos o caso da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH): em várias conversas escuto o atual cenário e conjuntura de que nossa atividade econômica está fraca e limitada. Que nem podemos nos comparar a São Paulo, e que estamos virando uma cidade de “idosos e aposentados”. Resolvi então ver o quadro que apresenta como nossa economia formal se organiza em termos de atividade econômica (Figura 1), e ter tal imagem comparada à Região Metropolitana de São Paulo (RMSP – Figura 2) e Brasília (Figura 3). 

A comparação chama atenção, por uma escolha proposital, uma vez que Brasília por ser capital política apresenta uma grande representatividade do setor público (mais de 50% de sua atividade econômica). A RMBH apresenta um papel do setor público mais relevante que a RMSP, o que indica a sustentação para a ideia da maior dinâmica privada existente em São Paulo, a capital econômica, e, por conseguinte o peso do segmento financeiro existente na capital paulista.


Figura 1 – Atividade econômica (renda total) - RMBH 2013
Fonte: DataViva
http://pt.dataviva.info/apps/builder/tree_map/rais/4mg03/all/all/cnae/?color=color&depth=cnae_6&size=wage&controls=true&year=2013


Figura 2 – Atividade econômica (renda total) - RMSP 2013
Fonte: DataViva
http://pt.dataviva.info/apps/builder/tree_map/rais/4sp09/all/all/cnae/?color=color&depth=cnae_6&size=wage&controls=true&year=2013




Figura 3 – Atividade econômica (renda total) - Brasília 2013
Fonte: DataViva




Entendo, que de um lado a diversificação da atividade econômica é importante no sentido de ser mitigadora de risco. Cidades muito concentradas em um determinado segmento estão muito vulneráveis a crises desse setor que sejam específicas (exemplo do segmento de Petróleo em cidades como Macaé, ou ligadas à indústria automobilística nos Estados Unidos, que em momentos de crise de tais setores se viram em recessões e crises sociais agudas e de difícil solução).  Por outro lado, não se pode deixar de observar variáveis competitivas relevantes que podem levar a uma concentração (por exemplo, cidades de Mato Grosso que são fortes na parte agrícola não podem deixar de atuar e defender tal setor, ou como é o caso da Mineração em cidades mineiras).  

A forma e o papel do Desenvolvimento Econômico para lidar com tal equação na minha opinião perpassa justamente as tais escolhas: estratégias que devem considerar a necessidade de FOCO concentrado para criação de setores que são promissores e conseguirão criar diversidade no futuro. Tais escolhas podem (e devem) ser feitas observando o ponto de partida (capacidade instalada e diferenciais atuais, de modo a não colocar o presente em risco), e também, e sobretudo, a capacidade de criar de fato um setor promissor para o futuro.

Os setores e formas de fazer tal fomento são inúmeros, e estratégias vencedoras, em minha opinião, tenderão a ser aquelas que observem um conjunto de incentivos mais adequados, e criação de ambiente para propiciar tal surgimento ou fortalecimento  de determinado setor/atividade. Tendo a acreditar que o papel do Estado é mais soft (criar regras e quando necessário efetivar parcerias com devida regulação) do que hard (fazer investimentos diretos, principalmente infraestrutura).

Nesse sentido, uma advertência fundamental: CUIDADO com consultorias, pois replicar fórmulas é o caminho certo para o fracasso. Se várias cidades apostarem em segmentos “inovadores” ao final, poucas serão vencedoras e muitas serão perdedoras, e quem perde tem custo social elevado. Certamente não defendo nenhum mecanismo de planejamento central que organize isso: é ineficiente e nada efetivo (em português claro, será caro e não terá resultados). Tal cuidado cabe ao “empreendedor” público à frente do Estado ou Município, e que foi eleito ou é um executivo do nosso representante eleito. E digo empreendedor pois nesse caso a escolha é similar ao ambiente privado, com a diferença que no setor privado o fracasso é pago do bolso direto do empreendedor acionista que tomou a decisão.  Portanto, resumindo minha opinião: acho que faz sentido o custo de tais escolhas desde que os agentes políticos à frente das instituições tenham “apostas” que sejam bem embasadas e justifiquem bem tais escolhas. Caso contrário, em minha opinião, nesse item é melhor focar em fazer outras funções do Estado a gastar energia e dinheiro com isso.

Realizada tal reflexão, ainda me permiti navegar nos dados em busca de algo que faz parte de minha atividade profissional recente: o papel dos aeroportos no desenvolvimento. Uma das teses defendidas pelo Governo de Minas nos últimos anos, é a da Aerotrópole de Belo Horizonte (o desenvolvimento do entorno do Aeroporto Internacional Tancredo Neves). A essência da ideia me parece justificada: (i) a nova economia perpassa o uso intensivo de aeroportos – conexão de pessoas e mercadorias; (ii) a RMBH tem posição central e potencialmente estratégica na logística de distribuição do Brasil e da América Latina; (iii) o entorno do aeroporto de Confins consiste em um greenfield, ou seja, tem área para expansão e forma de organização do aeroporto e atividades a ele ligadas. 

 Fazer tal aposta me parece uma escolha inteligente, e o papel de desenvolvimento perpassa mais a parte soft de indução do que de execução direta[i].

Voltando os olhos para realidade quis então observar e buscar comparar a realidade de Campinas (que representa posição diferenciada na logística de cargas do país atualmente, teve seu aeroporto concessionado em 2012, de modo pioneiro, bem como foi berço da companhia aérea Azul, que tem seu hub estabelecido em tal localidade) – ver Figura 4. 



Figura 4 – Atividade econômica (renda total) -  Campinas 2013
Fonte: DataViva

  
A parte do setor público, importante ressaltar, apresenta menor proporção uma vez que a cidade de Campinas não é sede de governos estaduais, em contraste com os exemplos dados nas figuras anteriores. Chama atenção a participação do setor aéreo, que representou 2,38% da renda em 2013 e 1,95% dos postos de emprego. Mais impressionante ainda, o crescimento de tal setor na atividade da cidade: comparando 2002 com 2013 (limitação dos dados disponíveis) observou-se um crescimento nessa representatividade de 319%, e se observarmos o período a partir da criação da Azul, temos um crescimento entre 2008 e 2013 de 69%.

Na RMBH para se ter uma ideia, temos tal setor representando 0,35%da renda e respondendo por 0,23% dos empregos. E o pior da comparação: entre 2002 e 2013 tal proporção cresceu apenas 67%. Acredito que deixamos de ocupar um espaço, algumas escolhas e implementação mais efetiva poderiam ter feito tal setor crescer mais e ter maior representatividade.

Apenas a título de ilustração, em Campinas observando o crescimento médio de 2002-2013, a atividade ligada ao setor aéreo deveria representar em 2013, 2,05%. Já na RMBH, a mesma lógica nos daria uma representação em 2013 de 0,86%. Comparando o real com o linear, se vê: Campinas apresentou nesse setor uma intensificação (2,38% é maior que 2,05%), já RMBH deixou de se “especializar” (0,86% é menor que 0,35%). Pode parecer pouco, mas estão falando de milhões de renda e escolhas estratégicas.

Como mencionei inicialmente, os dados buscam mais gerar reflexões e embasar perguntas do que sustentar afirmações. As ideias do papel da estratégia me parecem adequadas: escolhas bem-feitas e a efetividade do Estado em implementar tais escolhas podem ter grandes efeitos na dinâmica econômica! Quando se tem competência para atrair empresas chaves e fomentar setores com FOCO, pode-se ter um grande potencial de geração de emprego e renda. 

No caso da criação da Aerotrópole me parece um sonho possível, vislumbrar um Aeroporto da RMBH com papel relevante na distribuição nacional de pessoas e cargas, com efeitos multiplicadores nas cadeias que dependem e suportam tal cadeia logística. Sonhar é preciso, mas não suficiente.... o caminho a ser trilhado está aberto, e exige muito das ESCOLHAS,  e da Estratégia pública e privada para sua IMPLEMENTAÇÃO.




[i] Em alguma medida posso dizer que Minas fez bem a parte de planejar estrategicamente. Contudo, na implementação, temos um cenário não tão exitoso em parte pelos problemas de competência que perpassam interação com Governo Federal: a concessão do Aeroporto foi realizada com algum atraso, ocorrera obras viárias de acesso, mas tal execução se encontra inconclusa na ótica do planejado por conta do momento político e fiscal, e principalmente, falta efetividade na indução do setor privado.

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