Quando digo
metas me refiro a indicadores passíveis de mensuração e monitoramento. Digo
tanto a introdução de alvos de médio prazo, que tendem ser aceitos de modo mais
fácil (por estarem distante e serem mais óbvios – a exemplo de comercializar
100% de algum empreendimento imobiliário), mas principalmente o desdobramento
em curto prazo (por exemplo, melhorias anuais na proficiência dos alunos, para
usar agora um exemplo educacional, que poderia ser para escolas públicas ou
privadas).
Certamente o
ambiente institucional (processos de gestão, governança, etc) tem relação com esse
ambiente avesso às metas. Entendo que há
a necessidade de liderança e em alguma medida um processo top-down no primeiro momento para que as metas sejam inseridas como
algo que da rotina das pessoas tanto no setor público, quanto no setor privado.
Entendo também que a elaboração de metas não é ciência exata, incorre em
ambientes de incerteza, e são repletos de desafios. Quando meta é ciência
exata, ou seja, já se sabe que irá alcançar, deixa de ser meta, passa a ser
relógio (você sabe exatamente quando o ponteiro chegará em determinado
horário).
A pergunta
fundamental é: qual a importância da
meta? Na minha visão, a resposta seria o compromisso derivada dela. Deste
modo, adianta meta não aceita pela parte envolvida? Menos do que se ela for
acordada entre as partes, e digo menos, pois mesmo meta imposta, tem seu valor
(é uma regra e um alvo explícito), mas acredito que quando se gera um ambiente
em que todos pactuam a meta, o compromisso é maior, e tende a ser mais efetivo.
Sobre essa
questão de incentivo, cabe citar o livro “Rápido e Devagar”, que discute como a
mente humana é mais avessa às perdas do que movida pelos ganhos. Assim, mais do
que a vontade de ganhar um prêmio atrelado à meta, existem bons motivos na
nossa forma “automática” de agir, em buscar não ficar abaixo da meta, de
cumprir o compromisso[1]. E é exatamente o
compromisso que mais queremos no ambiente gerencial, seja público ou privado.
Estabelecer
metas não é fácil, requer conhecimento técnico do assunto. No setor público
tive experiência de gerenciar uma Unidade de Indicadores que buscava criar uma
inteligência acerca das medidas e das possibilidades de metas, de modo a garantir
o devido equilíbrio entre o viável e o desafiador, criar metas que sejam
exequíveis, mas que não sejam profecias autorrealizáveis. No caso do setor
privado, o conhecimento técnico é traduzido como conhecimento de mercado, e
certamente, mercado tem tendência, está sujeito a oscilações do ambiente
macroeconômico, alguns são mais conhecidos (determinados setores) e logo se
consegue ter maior previsibilidade das faixas que ele pode oscilar e as metas
tem maior equilíbrio e geram o incentivo correto (nem são fáceis demais, não
mobilizando a equipe, nem são difíceis a ponto de não serem possíveis de se
alcançar).
Como mencionado,
em qualquer sistema de gestão por resultados, as metas ocupam papel importante
e usualmente estão atreladas a sistemas de incentivos de remuneração e
reconhecimento. O desafio ao estabelecer
o sistema de metas é criar, como dito, o balanceamento correto, para não expor
a equipe ao sentimento de fracasso, nem gerar uma falsa sensação na
direção/conselho de excelência do nível gerencial, para gerar o compromisso da
equipe como o alcance de um patamar melhor.
Não consigo
imaginar qualquer ambiente profissional sem planejamento. Certa vez vi uma
daquelas frases de efeito que estava com autoria de Kant: ''quem não sabe o que
busca, não identifica o que acha”[2]. Navegar sem planejamento é não saber onde se quer chegar. Ter
planejamento é ter metas, e quanto mais detalhada e desdobrada essas metas
estiverem, maior a chance de sucesso da sua implementação (pois permitirá
identificar desajustes e adequar caminho, no limite, redefinindo ou abortando
estratégias[3]).
Saber que queremos comercializar 100% de algo ou alcançar o nível adequado de
proficiência dos alunos é um bom começo, mas é preciso gerar o compromisso com
as equipes de vendas e os professores, para identificar como ano a ano, mês a
mês, etc (depende da periodicidade de aferição do seu indicador de resultado), teremos
de trajetória para atingir essa performance desejada[4]. Independente de público ou privado, a importância da meta deriva da
nossa forma de pensar, e no entendimento que as metas são uma importante
ferramenta para gerar compromisso com resultados em ambientes profissionais.
[1]
Minha leitura aqui não é 100%, e é mais interpretativa do caso mencionado pelo
autor sobre os golfistas diante de duas situações: ficar acima da meta de
tacadas para o buraco versus fazer tacadas a menos. Entendendo que a meta
compromissada no caso do golfe é o par do buraco.
[2]
Nunca chequei essa autoria e confesso que não sou um leitor ávido de Kant.
[3]
Importante destacar que é melhor abortar do que ser abortado pelo mercado.
[4] Um
detalhe do exemplo é que no caso da comercialização uma vez atingido o 100%,
missão cumprida e fim de papo, e para a proficiência, o desafio da manutenção
se faz presente após atingido essa performance desejada alcançada.
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