O horário das
19hs vem sendo duplamente ingrato para eu voltar para casa. Primeiro, o
transito ruim. Segundo, pois durante a obrigatória Voz do Brasil, escuto cada
coisa que só aumenta minha angústia.
Uma das noticias
de hoje era sobre o Edital Mais Museus do IBRAM, o Instituto Brasileiro de
Museus.
Um edital para
fomentar a criação de novos museus. A fala de um dos executivos do Instituto
dizia que o Brasil tem mais de 5 mil municípios e existem mais de 3 mil museus,
e logo haveria grande espaço para novos museus. Fiquei boquiaberto duas vezes:
1) não acredito que temos mais de 3 mil museus!!! 2) e o Governo ainda quer
mais!!!
Bem, na visão do
governo país rico é país com Mais Museus,
mesmo sendo medíocres. Quanto custa instalar um Museu? Minha experiência é que
custa caro, ao menos se for para fazer algo bem feito, que tenha valor social.
E entendo por valor social, ter visitação. Deixe-me dar números: em média,
segundo relatório de gestão do IBRAM de 2010, o público médio dos museus no
Brasil é de menos de 30 mil visitantes/ano. Ou seja, menos de 3 mil/mês ou 120
pessoas/dia (considerando que museu fica fechado às segundas). E se isso é
média dos museus, fique tranquilo que eu conheço algumas boas referências que
tem milhares de visitantes por dia e logo, deve
haver muitos, nos mais de 3 mil museus, que ficam às moscas diariamente.
E por que número
de visitantes é valor público? Pois, na minha tosca visão[1], o valor do Museu em
preservar a cultura está em contar tal história e se ninguém escuta tal
história de nada adianta e ao contrário: manter tal museu representa um custo.
Sim, sim, museus como qualquer equipamento público (a exemplo de escolas e
postos de saúde que tem valor público) apresentam um grande custo para serem
mantidos e se não gastar o suficiente todo mês, eles vão depreciando, pois
carecem de manutenção. Aqui começa o ciclo vicioso: museu que possui
baixo apelo de público, tem baixa prioridade para receber recurso público que,
a seu turno, gera sucateamento, que piora do nível de serviço e reduz a
popularidade. Essa piora faz reduzir ainda mais as receitas de visitação (e
orçamentária), chegando ao limite de causar o efeito inverso ao que se
propunha: danos patrimoniais e à cultura que se objetivava valorizar e
preservar. Resultado, a proposta de se fechar tal equipamento como solução de gestão - "menos mal, menos
um museu medíocre no país".
Um contraponto
otimista: investir em museu pode representar um ciclo positivo. Um espaço bem
criado gera visitação, que traz visibilidade, revitaliza o entorno e valoriza o
equipamento, que cria público fiel, que atraí mais visitação e mais recursos,
que gera maior capacidade de investimento e conservação do patrimônio material
(da cultura de um país). Parece simples, mas não é. Exige gestão! Vivencio o
desafio do Museu de Arte do Rio (MAR) nessa busca, uma experiência que vai indo
bem nesse primeiro ano. Para falar em números, mais de 230 mil visitantes em
menos de 1 ano[2].
Certamente o início de um desafio de se fazer destino, ter fidelidade e um
sonho quase impossível de ser autossuficiente em termos de arrecadação própria.
Um museu bem feito custa caro, exige-se investimento de milhões, exige um custo
mensal de milhares de reais. O MAR não é exceção no que tange a investimentos e
custo elevado. É, e espero que continue a ser, diferente no que diz respeito à
visitação.
Quanto vale um
museu? O Edital do Mais Museus que vi hoje aponta para cifras de R$150 a R$300
mil[3]. Que museu será esse? Mais
um de milhares com visitação baixa! Por quê? Pois existem dois cenários para ser
exceção: 1) se criar um ambiente magnífico que enseja a visitação pela
experiência vivida (e isso não deve ocorrer pela falta de recursos e baixo
nível de serviços) ou 2) se ter um acervo de grande valor cultural que tem
grande apelo de público (e isso não deve ocorrer, uma vez que o valor econômico
desse acervo seria alvo de necessidade de sistema de segurança que é maior que
o valor do museu inteiro vide edital).[4]
Para não deixar
de mencionar, ainda resta a tragédia do custeio desses museus que serão criados.
Caberá seu custeio as prefeituras:
trata-se de mais um pires na mão dos prefeitos para ficar pleiteando em Brasília.
A mediocridade é fruto de pensar pequeno[5]. É fazer Mais Museu para atender menos gente. É fazer política
distributiva de algo que apresenta ganho de escala para ter chance de ser bem
sucedido e fazer do país destino e referência. Na minha reflexão de hoje, nem sempre mais é melhor!
[1]
Senhores especialistas em Museu, desculpem minha simplicidade em tratar do
assunto. É a mera visão de um cidadão comum.
[2]
Bem maior que a média de 30 mil/ano, ou quase 12 vezes maior, uma vez que é
quase isso por mês no MAR.
[3]
Vale destacar que o edital fala em um limite de orçamento de R$2,1 milhões, ou
seja, algo que daria para cerca de 10 museus. E fica a reflexão: quanto custou
fazer esse edital? Quanto custará para implementar e fiscalizar esse edital?
Será que alguém fez essa conta? O custo de fazer um museu só, seria certamente
mais econômico no que tange à implementação.
[4] Para
ser justo, podem haver exceções sim: ideia bem criativas que consigam inventar
e se desdobrar no uso do recurso escasso. Possível? Sim. Provável? Não.
[5] E nesse assunto museu,
algo que me angustia, e que deixo registrada a dúvida relativa ao tema: o Museu
de Futebol no Mineirão ta indo bem? Qual sua visitação? Convenhamos que
potencial ele tinha!
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