segunda-feira, 25 de julho de 2016

A importância de um propósito: a capacidade de conectar teoria e prática



Recentemente tomei uma decisão de vida e resolvi mudar minha carreira, assumindo um desafio em uma empresa, startup de market place do Agronegócio.  O que agrego: gestão! Organização, processo, estratégia, disciplina, enfim, todo o desafio de implementar uma ideia disruptiva e de canalizar energia para fazer o negócio se viabilizar. Minhas últimas semanas têm sido intensas, jornadas de 60 a 80 horas semanais, de pura planejação como Sr. Vianna me ensinou. Pensar grande, sempre, mas focar nos entregáveis de curto prazo. Atender expectativas e gerar pequenas vitórias para criar cultura de confiança e dar ritmo e maturidade à empresa e seu ativo principal: as pessoas.

Mas o que move as pessoas? Sem dúvida ter emprego em tempos atuais é algo valioso, mas isso não move, obriga. Como gerar a energia necessária para querer entregar mais, para ir além do trivial? Certamente o exemplo e o discurso coerente. Com certeza a cultura de resultados, mostrando o caminho, onde se quer chegar, qual o papel de cada um, e o desdobramento dessas entregas no tempo e por equipe. Mas falta algo mais? Falta para mim... por maior desafio que seja, falta algo que me faça acordar às 5h30, ter força de vontade de correr 30 minutos para gerir a ansiedade e ser mais temperado no trato com a equipe, trabalhar 15h.... preciso entender que minha ação, transforma o mundo!

Um bom hábito (ou talvez um bom vício) que tenho são os livros. Mal comecei o desafio, já li mais de 3 livros sobre startup[1], marketing digital, market place, etc... várias lições e enredo valiosos... mas nada de citar a importância do propósito....  Vender uma empresa por bilhões, por melhor que seja, não me garante a energia para fazer isso durante anos... E não se iluda, o caminho de criar uma empresa de valor exige muito esforço. E nesse quesito de ter energia para o esforço, a paixão ou o tal propósito é um motivador muito maior que a perspectiva financeira.

Nas conversas que tive, um termo era constantemente usado: eficiente. Conectar quem compra e quem vende de modo eficiente. Fazer transações eletrônicas que sejam eficientes para o cliente, tornar o mercado eficiente ao disponibilizar uma plataforma online para transações que são feitas hoje sem tal ferramenta. Em algum ponto dessas conversas me deparei com o propósito: a eficiência de mercado! Não a ideia rasa de ganhar velocidade, ou ter um custo menor (que são itens importantes, mas são pontuais).  Mas a ideia de gerar eficiência para a economia! De gerar bem-estar para a sociedade! Meu eu economista lembrou das aulas de microeconomia em sua versão mais básica e o propósito se fez presente!

A teoria econômica constrói boa parte de sua argumentação na observação da curva de demanda, derivada da disposição a pagar dos indivíduos/consumidores, e da curva de oferta, construída a partir da fronteira de produção existente e os custos de produção envolvidos. Dessa junção a famosa imagem de mercado surge, em que o ponto de encontro de oferta (custo marginal de produção) e demanda (disposição a pagar) definem o preço e a quantidade de equilíbrio do mercado para os bens e serviços da economia. Teoria pura e dura, em seu formato elementar. Nossas vidas na maneira mais diretamente observável (o que consumimos e quanto pagamos por cada produto).

O que é o bem-estar na teoria? É a soma do excedente do consumidor – diferença entre o preço pago e a disposição a pagar, com o excedente do produtor – diferença entre o preço recebido e o custo marginal de produção. Um mercado em concorrência perfeita, e eficiente, levaria o ponto de equilíbrio do preço e da quantidade ao máximo desse bem-estar! Um ponto em que teríamos mais bens e serviços disponíveis, a preços menores e em que consumidores e produtores se beneficiariam com esses níveis praticados!

Mas sala de aula é diferente do mundo real sempre diziam os céticos (e que na prática se escondem na crítica a preguiça de fazer a abstração pragmática)! A teoria sempre será uma simplificação da realidade, mas nem por isso, diferente! Voltando ao meu propósito: o market place, ao cumprir seu objetivo de conectar quem compra e quem vende, entrega eficiência de mercado! Aumenta o bem-estar da Sociedade! Cria uma missão social! 

Ao pensar no mundo em 1900 (e consigo abstrair por mais que na época eu não existia nem em pensamentos), tenho certeza que o nível de bem-estar gerado pelo mercado era muito menor do que a realidade atual (o mercado estava equilibrado, mas com muito mais imperfeições ou ineficiências). Um mundo que uma viagem de SP a BH demorava dias, e não se tinha meios de comunicação de velocidade, certamente não conseguia criar conexão entre quem oferta e quem demanda de modo a maximizar o volume de produção que atenderia a real demanda social. Pessoas que tinham desejo de comprar não encontravam produtos disponíveis com facilidade, e ofertantes que poderiam produzir mais a preços menores, não o faziam pois não identificavam os mercados (não acessavam tais mercados!).  O mundo era mais segmentado.

O exemplo extremo apenas ajuda a ilustrar o propósito atual. Mesmo hoje, existe muito a ser conectado. Temos compradores e vendedores que não conseguem se identificar, e essa ausência de visão conectada com velocidade para definir quantidades e preços de comércio afetam as decisões de produção, e logo, de consumo (pois essa decisão em última análise, deriva de querer ou não ao preço que lhe é ofertado!). Um mercado que consegue estar conectado em poucos cliques via internet é muito mais eficiente do que aquele que depende de interações bilaterais! Um mercado mais conectado consegue gerar maior valor para quem produz e quem consome! Todos ganham!


FIGURA 1 – Ilustração gráfica hipotética de um arranjo de mercado eficiente, e seu contraexemplo de ineficiência por não conseguir criar ponto de equilíbrio por decorrência de uma falta de conexão entre demanda e oferta na definição de preço. Ao não ver toda a demanda as escolhas de produção ficam aquém e impactam na decisão da quantidade consumida pela Sociedade.

Eu não acordo motivado para ganhar mais dinheiro! Se meu objetivo é ganhar dinheiro é provável que me force a acordar e cumprir meu dever (só de pensar assim, tenho preguiça de acordar!). Por outro lado, se posso construir uma empresa que torna a vida das pessoas melhores, de milhares de pessoas, que irão consumir mais e com preço menor, tenho até dificuldade de dormir! A urgência ganha sentido! É possível mudar o mundo!

Sejamos eficientes! Busquemos nosso propósito! Saibamos sempre usar a abstração da sala de aula a favor da humanidade!

P.s: (1) tenho o privilégio de chamar de Amigo o Professor que me ensinou microeconomia. Corri logo a ligar para ele e ver se tudo isso que pensei (e escrevi) fazia sentido. Um eterno obrigado aos nossos educadores: que sem dúvida tem um belo propósito e contribuição social!

(2) Corri para ligar, mas longe de ser uma conversa rápida, tivemos um ótimo debate técnico e de rigor na forma de apresentar o argumento, sendo assim, algumas notas derivadas:

(i) mercado competitivo tem 4 características: grande número de compradores e vendedores; entrada e saída livre de fatores de produção; informação perfeita; e homogeneidade do produto;

(ii) na medida que essas características não estão 100% presentes, os mercados operam em uma concorrência imperfeita. Quanto mais se aproxima dessas características, mais se aproxima da concorrência perfeita, e logo, menor o preço e maior a quantidade transacionada (o tal exemplo teórico da figura 1 que construí acima);

(iii) o e-market place e toda a forma de conectar o mercado atua no sentido de aumentar o número de compradores e/ou vendedores (ampliação de mercados), reduzindo a segmentação existente (permitindo o acesso a mercados por players que antes não o acessavam). Isso torna o Brasil por exemplo, um mercado nacional, em que podemos ter de modo veloz e com baixo custo, uma interação de todos os players nacionais sobre determinado produto. Permiti conectar compradores e vendedores de diferentes regiões com um custo baixo (ou nulo na ótica da revolução que a internet causou) o que melhora não somente a informação, mas consequentemente a eficiência do mercado, que em última análise melhora o bem-estar geral da sociedade (de quem produz e quem consome);

(iii) usei exemplo da Amazon para pontuar como um e-market place de comercialização permite reduzir preços, uma vez que reduz custos, das lojas físicas por exemplo, e diante dos custos menores, em última análise insumos mais baratos na “curva de produção”, tem-se maior oferta e logo redução do preço de equilíbrio.  O modelo de negócios disruptivo muda a forma de se organizar o mercado, no caso da Amazon, a quebra de paradigma da forma de vender livros (e tudo mais derivado da dependência da loja física), e no caso onde estou da forma de fazer negócio no Agro, em que o modelo bilateral direto, por telefone ou presencial, será substituído pelo modelo online multilateral, com maior transparência e maior eficiência para os players desse mercado.
 



[1] Destaco a leitura (e fica a recomendação) do livro de Ben Horowitz “O lado difícil das situações difíceis”.

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